Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Oi, oi, oi

Por Roberto DaMatta em 30/10/2012 na edição 718

Por que esse extraordinário sucesso da música que embalou a não menos formidável novela? Eu digo que o sensual oi, oi, oi está muito perto do ai, ai, ai que separa o riso da lágrima, o gozo do sofrimento e o luxo do lixo. E, para além disso, ela reúne – cantando – a pobreza vergonhosa com a brutal riqueza muitas vezes ilegítima dos abastados brasileiros.

Ouvir um “oi” no lugar de um “ai” (ou vice-versa) é o sinal da aceitação da desigualdade como um fato definitivo da vida. Esse diferencial de dissimulação e ambiguidade que tem sido a balada da maioria dos políticos e o ponto central da grande polaridade ideológica que nos rodeia: a esquerda dos “ai” e a direita dos “oi”.

Entre esses polos, porém, há avenidas. Elos como a ponte e a escada a ligar o céu com a terra, a corrupção com a honestidade, e a vingança à redenção. A entrega final às forças da vida que formam o mar do amor – essa afeição confiante que tem mais potencial revolucionário do que todas as lutas pelo poder. Redenção que, nessa Avenida Brasil, não impediu que os maus pagassem por seus crimes.

Lixo e luxo

Foi o que vi na novela do João Emanuel Carneiro, realizada por uma equipe e um conjunto de atores – com menção especial para Adriana Esteves – extraordinários. A trama gira em torno de avenidas, túneis e interdependências que unem e acentuam os dualismos e as contradições. Donde a sua pegada. Aliás, os dualismos sempre escondem as mediações e os englobamentos – na novela, as constantes reviravoltas.

No início, pensei estar diante de um Conde de Monte Cristo de saia, pois a menina abandonada segue o roteiro de Alexandre Dumas. Edmundo é condenado à prisão na ilha; Nina é expelida de casa para viver numa área marginal. Vai para o “lixão” marcado pela sujeira, símbolo dos seus algozes: a madrasta má e conscientemente adúltera, e o amante. Em seguida, graças a um benfeitor, vai para um lugar neutro onde pode arquitetar sua vingança. Dentro do ninho dos carrascos, ela obtém os recursos (o tesouro) indispensáveis para a realização de uma reciprocidade negativa: confrontar e punir em vez de dar e perdoar. Edmundo vira um conde; Nina vira Rita, a empregada de Carminha que seduz pela arte culinária e pelo encanto. Como Dona Flor, ela é mestra das comidas que comem. E aí estamos numa familiar triangulação social brasileira.

Porque a vingança brasileira não termina liquidando a inimiga, mas acaba num abraço redentor. Ademais, os motores do drama são mulheres. Em toda a narrativa os homens, que se veem como machões e poderosos, são varridos pelo tufão das armas femininas que vão da volúpia (Suelen e Tessalia) à ingenuidade (Ivana), culminando com a malandragem que se transforma em corrupção, pecado e tabu em Carminha, o centro do drama.

O feminino é a avenida que relaciona de modo irremediável a zona norte (onde, dizem, está a cafonice e a pobreza) com a zona sul (dos elegantes e dos ricos). Um igualitarismo anárquico e humilde, como o futebol do craque Tufão, é ao lado da deslealdade amorosa e do enriquecimento ilícito – o absurdo do dinheiro pelo dinheiro – um código comum entre o Divino e a nobre “zona” sul carioca.

O centro da trama é o triângulo brasileiro entre Carminha, Rita/Nina e Tufão. Duas mulheres ao lado do craque de futebol que resolve tudo no campo mas, em casa, faz como os políticos: não sabe de nada. Triangulações paralelas e cômicas, como o do Cadinho com suas três mulheres e da Suelen com seus dois homens, acentuam a principal e se resolvem antes que se possa dar um fim a uma traição inclassificável. A que sofre Tufão, o herói futebolístico sem malandragens, transformado em corno e provedor exemplar.

Não se trata, como dizem, de uma novela sobre o subúrbio, porque o subúrbio é um pedaço da cidade. O lixo é a contrapartida do luxo, tal como a pobreza tem como contraponto a aceitação da desigualdade e a sua manipulação política por meio da corrupção ideológica e do dinheiro.

Aflição comum

Ademais, os personagens ricos se misturam aos pobres porque a sua diferença não é de grana. Todos acabam num Divino ligado a Ipanema pelo amor, pela música e pelas famílias de carne e sangue que nos controlam e pela famílias futebolísticas que nos unem no momento do gol.

Finalmente, reitero uma boa novidade. Carminha e Santiago, seu pai abusivo, pagam pelos seus crimes. Avenida Brasil termina no Brasil dos nossos sonhos: um sistema no qual os corruptos são desmascarados e os maus pagam pelos seus malfeitos.

O mágico das novelas é contar histórias para nós mesmos. Mas o fascinante em todo drama é que ele tem um começo e um fim. Nossa aflição é ver que, no cenário brasileiro, existem coisas que apenas agora começam a terminar positivamente. Que assim seja…

PS: Esta crônica é para a Fátima Bernardes e a todos que tomaram parte no seu programa para discutir a novela.

***

[Roberto DaMatta é antropólogo]

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