Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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TV EM QUESTãO > SALVE JORGE

Três subúrbios

Por Mauricio Stycer em 30/10/2012 na edição 718
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 28/10/2012; intertítulo do OI

Substituta de “Avenida Brasil” no horário das 21h, “Salve Jorge”, de Gloria Perez, resgatou em seu primeiro capítulo imagens de impacto do jornalismo da Globo, exibidas durante a operação policial e militar ocorrida em novembro de 2010 no Complexo do Alemão.

Morena (Nanda Costa), a protagonista da novela, conhece o galã, Théo (Rodrigo Lombardi), justamente durante a expulsão dos traficantes e a ocupação da favela. Ela vive no local. É mãe solteira e sua mãe trabalha como empregada. Ele é militar, capitão da cavalaria.

Ainda é cedo para saber qual a importância que o tema da “pacificação” do Complexo do Alemão terá ao longo de “Salve Jorge”, mas não deixa de ser curioso observar que, assim como a novela que a antecedeu, a vida no subúrbio ocupa um papel central na trama.

O Divino, bairro suburbano inventado por João Emanuel Carneiro, foi mais que um cenário para quase todos os personagens de “Avenida Brasil”. O bairro representou toda uma “cultura”, um “modo de vida”, em oposição à da zona sul do Rio.

Ainda que esta questão jamais tenha sido mencionada em “Avenida Brasil”, é possível dizer que o Divino era um bairro “pacificado”. Não havia crime, violência nem miséria no bairro.

Outra realidade

Numa entrevista a “O Globo”, Carneiro disse: “Tive uma antena boa de sacar o momento do Brasil. A ascensão da nova classe média que está dando uma cara diferente ao país. A novela é sobre a classe C, mas não só para a classe C. São coisas diferentes.”

Carneiro usou o Divino para representar, de forma muito agradável, divertida e conveniente para estes diferentes públicos, os múltiplos sinais da mobilidade social ocorrida no país nos últimos anos.

Janaína, a empregada doméstica, ganhava o suficiente para ter, ela também, uma empregada em sua casa. Monalisa, a cabeleireira, progrediu e abriu o próprio salão. Tufão, o jogador de futebol, enriqueceu e construiu uma mansão no bairro em que nasceu.

O Complexo do Alemão, recriado no Projac para “Salve Jorge”, não parece ser um lugar tão tranquilo e próspero. Ao menos ainda. Também dá a impressão de não ser tão idílico quanto o Divino.

Uma terceira versão da zona norte do Rio vai ao ar na Globo a partir da próxima quinta-feira (1º/11). No caso, “Suburbia” explicita o seu tema já no título e propõe um contraponto em relação tanto ao Divino pacificado quanto ao Alemão em vias de pacificação.

Vi apenas o primeiro dos oito episódios, mas arrisco dizer que Madureira é tão ou mais importante que os próprios personagens do seriado concebido e dirigido por Luiz Fernando Carvalho com a sensibilidade que lhe é peculiar.

“Suburbia” se passa na década de 1990 em torno das histórias de vida dos integrantes de uma larga família do bairro. Com a ajuda do escritor Paulo Lins, o diretor propõe um olhar realista em torno de uma questão central, explicitada no texto do seriado divulgado pela Globo: como manter a noção de justiça e os princípios éticos e morais em uma era marcada por violência, desigualdades e decadência de valores?

O Complexo do Alemão em vias de pacificação de “Salve Jorge” pode vir a dialogar com esta questão proposta por “Suburbia”. Já o Divino de “Avenida Brasil”, totalmente alheio à realidade, a ignorou -o que explica muito do seu sucesso.

***

[Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo]

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