Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Três subúrbios

Por Mauricio Stycer em 30/10/2012 na edição 718

Substituta de “Avenida Brasil” no horário das 21h, “Salve Jorge”, de Gloria Perez, resgatou em seu primeiro capítulo imagens de impacto do jornalismo da Globo, exibidas durante a operação policial e militar ocorrida em novembro de 2010 no Complexo do Alemão.

Morena (Nanda Costa), a protagonista da novela, conhece o galã, Théo (Rodrigo Lombardi), justamente durante a expulsão dos traficantes e a ocupação da favela. Ela vive no local. É mãe solteira e sua mãe trabalha como empregada. Ele é militar, capitão da cavalaria.

Ainda é cedo para saber qual a importância que o tema da “pacificação” do Complexo do Alemão terá ao longo de “Salve Jorge”, mas não deixa de ser curioso observar que, assim como a novela que a antecedeu, a vida no subúrbio ocupa um papel central na trama.

O Divino, bairro suburbano inventado por João Emanuel Carneiro, foi mais que um cenário para quase todos os personagens de “Avenida Brasil”. O bairro representou toda uma “cultura”, um “modo de vida”, em oposição à da zona sul do Rio.

Ainda que esta questão jamais tenha sido mencionada em “Avenida Brasil”, é possível dizer que o Divino era um bairro “pacificado”. Não havia crime, violência nem miséria no bairro.

Outra realidade

Numa entrevista a “O Globo”, Carneiro disse: “Tive uma antena boa de sacar o momento do Brasil. A ascensão da nova classe média que está dando uma cara diferente ao país. A novela é sobre a classe C, mas não só para a classe C. São coisas diferentes.”

Carneiro usou o Divino para representar, de forma muito agradável, divertida e conveniente para estes diferentes públicos, os múltiplos sinais da mobilidade social ocorrida no país nos últimos anos.

Janaína, a empregada doméstica, ganhava o suficiente para ter, ela também, uma empregada em sua casa. Monalisa, a cabeleireira, progrediu e abriu o próprio salão. Tufão, o jogador de futebol, enriqueceu e construiu uma mansão no bairro em que nasceu.

O Complexo do Alemão, recriado no Projac para “Salve Jorge”, não parece ser um lugar tão tranquilo e próspero. Ao menos ainda. Também dá a impressão de não ser tão idílico quanto o Divino.

Uma terceira versão da zona norte do Rio vai ao ar na Globo a partir da próxima quinta-feira (1º/11). No caso, “Suburbia” explicita o seu tema já no título e propõe um contraponto em relação tanto ao Divino pacificado quanto ao Alemão em vias de pacificação.

Vi apenas o primeiro dos oito episódios, mas arrisco dizer que Madureira é tão ou mais importante que os próprios personagens do seriado concebido e dirigido por Luiz Fernando Carvalho com a sensibilidade que lhe é peculiar.

“Suburbia” se passa na década de 1990 em torno das histórias de vida dos integrantes de uma larga família do bairro. Com a ajuda do escritor Paulo Lins, o diretor propõe um olhar realista em torno de uma questão central, explicitada no texto do seriado divulgado pela Globo: como manter a noção de justiça e os princípios éticos e morais em uma era marcada por violência, desigualdades e decadência de valores?

O Complexo do Alemão em vias de pacificação de “Salve Jorge” pode vir a dialogar com esta questão proposta por “Suburbia”. Já o Divino de “Avenida Brasil”, totalmente alheio à realidade, a ignorou -o que explica muito do seu sucesso.

***

[Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo]

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