Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Futuro incerto marca venda da Globovisón

Por Bernardo Barbosa em 07/05/2013 na edição 745

Única emissora crítica ao chavismo na TV aberta venezuelana, a Globovisión muda de donos hoje [segunda-feira, 6/5] sob a expectativa de organizações de defesa da liberdade de expressão no país e também de setores da oposição, que têm no canal seu único espaço televisivo. A emissora, agora, será controlada por um empresário do ramo de seguros que, segundo algumas versões, seria ligado ao chavismo nos bastidores. Por isso, ainda é uma incógnita se o veículo conseguirá manter sua independência.

A Globovisión ficará nas mãos do economista Juan Domingo Cordero, ex-presidente da Bolsa de Caracas e acionista majoritário da seguradora La Vitalicia, uma das maiores empresas do setor na Venezuela. Ele é tio de Ana Julia Thomson de Zuloaga, mulher de Guillermo Zuloaga, presidente da emissora.

A aparente proximidade, no entanto, não dá garantias de que a TV continuará indo de encontro ao governo, diz Andrea Garrido, encarregada do programa de responsabilidade social e meios de comunicação da ONG Espacio Público, sediada em Caracas e voltada para a defesa da liberdade de expressão.

– Há uma incerteza muito grande sobre o que está acontecendo – afirmou Andrea ao Globo. – Ainda não sabemos se a Globovisión mudará de linha editorial, mas, se isso acontecer, será um sério problema para a liberdade de expressão.

Anos de relação turbulenta

Segundo a ativista, o risco é de que a oposição fique sem espaço para disseminar sua mensagem na televisão, o que já tem ocorrido na prática em algumas ocasiões.

Nas últimas semanas, por exemplo, pronunciamentos do candidato opositor à Presidência, Henrique Capriles – que ainda contesta na Justiça o resultado do pleito do qual o presidente Nicolás Maduro saiu vitorioso, em abril – veiculados ao vivo pela Globovisión foram interrompidos por transmissões do governo em rede nacional de rádio e televisão.

A relação entre o chavismo e a Globovisión é repleta de polêmicas e simbólica da polarização vivida pela Venezuela nos últimos anos. A emissora é acusada pelo governo de ter apoiado o golpe de Estado em 2002, quando Hugo Chávez ficou dois dias fora do poder, ao não exibir manifestações a favor do então presidente, morto em março passado. Depois, em 2010, Guillermo Zuloaga se disse perseguido pelo governo e fugiu do país rumo aos EUA sob acusação de usura e associação criminosa – ele teria escondido 24 carros para especular com o preço dos veículos em uma concessionária.

Todo esse processo foi permeado por uma série de multas milionárias aplicadas pelo governo contra a Globovisión pelos mais variados motivos. Na última, paga no ano passado, o governo cobrou US$ 2,6 milhões do canal, acusando-o de ter “incitado a criminalidade” ao cobrir uma rebelião carcerária em 2011 que deixou dezenas de mortos.

A Globovisión tem alcance limitado pela TV aberta: chega apenas a Caracas e à cidade de Valencia, no entorno da capital, mas seu sinal está disponível em toda a Venezuela como TV por assinatura e pela internet. Em março, ao anunciar que o canal estava à venda, Zuloaga afirmou que a Globovisión era inviável economicamente por não ganhar dinheiro suficiente; politicamente, por estar contra “um governo todo-poderoso que quer nos ver fracassar”; e juridicamente, por causa da concessão que expira em 2015, sem que o chavismo dê qualquer sinal de que queira renová-la. Em 2007, Hugo Chávez não renovou a concessão da RCTV, canal com 53 anos de história e que também criticava duramente seu governo. Em seu lugar, entrou a estatal TVes.

Irmãos em lados opostos na mídia

Na quinta-feira (2/5), quando saiu a notícia de que a Globovisión mudaria de mãos em questão de dias, Maduro disse que seus antigos donos “sabiam que perderiam as eleições e começaram a vender a Globovisión há três meses”. O presidente pediu então “um tipo de televisão que diga a verdade, que não estimule o ódio, uma televisão humana”.

– É lamentável que o presidente ataque um veículo de comunicação abertamente – protestou Andrea Garrido, da Espacio Público.

A esperança dos críticos ao governo recai nos novos diretores do canal, anunciados semana passada, ambos jornalistas claramente independentes do chavismo. Um deles é Vladimir Villegas, que passou à oposição nos últimos anos, depois de ter exercido vários cargos no governo de Hugo Chávez (foi inclusive embaixador da Venezuela no Brasil). Ele é irmão do ministro da Informação e Comunicação, Ernesto Villegas, justamente o homem à frente do aparato de mídia estatal.

Dirigente do partido opositor Avançada Progressista, Vladimir Villegas é tido como mais moderado que seu colega na direção, Leopoldo Castillo, um ferrenho crítico do chavismo e apresentador do programa “Aló, ciudadano” – uma resposta clara ao “Aló, presidente” comandado durante anos nos meios de comunicação por Chávez. Para Castillo, coube à Globovisión “ser resistência, e agora lhe toca uma transição rumo a uma nova Venezuela”.

– Em nenhum momento falamos de suprimir programas de opinião. A palavra do senhor Cordero é de que vamos ao centro – disse Castillo na quinta-feira, dando uma pista do possível posicionamento do canal em um país politicamente partido ao meio.

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Bernardo Barbosa, do Globo

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