Terça-feira, 12 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Em fase de crescimento

Por Mauricio Stycer em 09/06/2015 na edição 854

Participei em maio de debate promovido pela Associação Brasileira de Cinematografia sobre séries de TV. “Novo espaço criativo?” era a pergunta que dava título ao encontro, que lotou dois ambientes da Cinemateca Brasileira.

A mesa foi formada pelos diretores Fernando Meirelles, da O2, e Mauro Mendonça Filho, da Globo, o roteirista Mauro Wilson, o diretor de fotografia Rodrigo Monte, o editor de arte Marcos Carvalheiro e a editora de som Miriam Biderman.

A título de provocação, defendi a ideia de que a produção nacional para TV, embora vivendo um momento de intensa atividade, ainda está devendo. A grande série brasileira, nos moldes de similares americanas que encantam diferentes públicos, ainda não foi feita. Ninguém discordou.

Falo do formato mais consagrado: o drama de cerca de 50 minutos, normalmente em 13 episódios, desdobrado em várias temporadas.

A estreia de “Magnífica 70” é um bom pretexto para tentar explicar melhor o que, na minha opinião, ainda falta alcançar neste tipo de produção. A série reúne duas grifes, a produtora Conspiração e o canal HBO, que encomendou e bancou a realização.

Inspirada em um roteiro do jornalista Toni Marques, parte de uma premissa excelente –a história de um censor, em São Paulo, que se encanta por uma atriz inexperiente, em meados da década de 1970, e entra para o mundo do cinema.

Dirigido por Claudio Torres, e escrito por ele, Renato Fagundes e Leandro Assis, o programa recria, com apuro, o ambiente da Boca do Lixo, no centro da cidade, onde se misturavam produtoras de cinema, distribuidoras, prestadores de serviço do setor, além de uma fauna bem variada.

Já no episódio de estreia, Vicente (Marcos Winter) proíbe um filme pornográfico, “A Devassa da Estudante”, mas em seguida se encanta por Dora (Simone Spoladore), a atriz principal, e fica mal com a possibilidade de a produtora falir por causa do seu veto. O próprio Vicente, então, escreve e dirige uma cena, a ser incluída no final, que justificará a liberação do filme.

Casado com Isabel (Maria Luisa Mendonça), filha de um general, o censor vive atormentado pela lembrança da filha mais nova de seu sogro, que morreu. O segundo episódio apresenta melhor esta situação, mas de forma previsível. Vicente aceita escrever o roteiro de um longa-metragem e desenvolve justamente a história da sua obsessão, encenada com toques de Nelson Rodrigues.

Exibidos os dois primeiros capítulos, “Magnífica 70” não mostrou, até agora, a ousadia ou a coragem que diferenciam as grandes séries. Tanto o texto, bem escrito, mas mastigado, quanto a encenação, parecem temer deixar espaço para o espectador pensar ou imaginar.

Ainda é cedo para dizer até onde podem ir os melhores personagens, o casal de protagonistas e o produtor Manolo (Adriano Garib), mas a trajetória exibida não me instigou a imaginar o que fizeram no passado ou serão capazes de realizar daqui para frente.

Além disso, sobram tipos caricatos ou pouco desenvolvidos, como a chefe do departamento de censura, calcada na famigerada “dona Solange”, ou o general (vivido por Paulo César Pereio).

Bom entretenimento, o que não é pouca coisa, “Magnífica 70” merece ser vista, mas está longe de ser, como alguém mais empolgado anunciou, a “Mad Men” da TV brasileira.

***

Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo

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