Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > BBC

Emissora corta gastos e continua forte

Por The Economist em 16/03/2010 na edição 581

No dia 2 de março, a BBC fez algo sem precedentes: voluntariamente, propôs diminuir seu tamanho. A emissora quer abolir duas estações de rádio digitais, enxugar seu site na internet e gastar menos com espetáculos e programas de esporte importados. Mark Thompson, diretor-geral da emissora, diz que irá desistir do objetivo de produzir em abundância mais e mais programas, de forma a atender a todos os gostos. As empresas comerciais de comunicação, que há anos vêm se queixando do peso da BBC, não sabem como interpretar a medida. Estaria a principal e mais poderosa emissora pública do mundo se tornando modesta?

Nada disso. A proposta sugere um recuo importante da política de expansão a qualquer custo que tem orientado a BBC nos últimos anos. Mas é um recuo pragmático e limitado que permitirá à empresa dirigir suas forças em outras direções, para produtos e lugares onde poderá ser mais eficaz. ‘Qualquer organização passa por fases de expansão e consolidação’, diz Claire Enders, analista de mídia. ‘Esta é a fase de consolidação.’

E há muito a ser consolidado. 96% da população adulta utiliza semanalmente um serviço da BBC na Grã-Bretanha. O portal da emissora recebe 20 milhões de visitantes britânicos por mês, segundo a ComScore, empresa que faz a mensuração desse tipo de trabalho. Isso representa um terço da população – proporcionalmente, o mesmo que o número de norte-americanos que se conectam com o Facebook. Embora as pessoas reclamem por terem que pagar uma ‘tarifa de acesso’ de £142.50 (R$ 375,00) por domicílio à BBC, aceitam-no como parte do jogo. É um reflexo da credibilidade de que goza a emissora junto ao público, principalmente na empresa em que, segundo o Ipsos Mori, um instituto de pesquisa de opinião, 63% de telespectadores britânicos acreditam divulgar a verdade. A polícia e os servidores públicos não gozam de tanta confiança, e os políticos e jornalistas de outros veículos, menos ainda.

Concorrência desleal

A televisão britânica não é a melhor do mundo, como frequentemente se escuta dizer (a teledramaturgia norte-americana de boa qualidade, por exemplo, é muito melhor), mas é consideravelmente boa, considerando o tamanho diminuto do país. E a BBC produz grande parte do que há de melhor. O discurso curto e grosso de Mark Thompson no dia 2 de março, no programa Newsnight, é apenas um exemplo da força de seu noticiário. Os programas da BBC sobre história natural são mundialmente imbatíveis. Nos últimos anos, a BBC Worldwide, o braço comercial da empresa, lançou canais a cabo e investiu em estúdios pelo mundo afora, expandindo consideravelmente a presença da BBC.

Seus rendimentos são garantidos e crescem. No ano passado, a BBC recebeu £3.5 bilhões (R$ 9 bi) da tarifa de acesso à televisão. A Worldwide contribuiu com outro £1 bilhão (R$ 2,6 bi) em rendimentos. Paralelamente, a queda em publicidade atingiu duramente outras emissoras. A ITV, que já foi amplamente rentável, está em crise; o Canal 4 está mal das pernas; assim como o Canal 5; a BSkyB, emissora por satélite e que também opera no setor de telecomunicações, é, atualmente, o único concorrente sério da BBC. E só em algumas áreas – que não incluem programas com roteiros originais, por exemplo.

O crescente fosso que separa a BBC de seus concorrentes comerciais representa um problema para ambos os lados. Os diretores de revistas e de emissoras de rádio queixam-se de uma concorrência desleal por audiência e anunciantes. Emissoras concorrentes queixam-se dos altos salários pagos pelo talento: consta que Jonathan Ross, um conhecido apresentador que deixará a BBC neste verão, teria recebido £18m nos últimos três anos. Os jornais denunciam que a presença de um gigantesco portal de notícias torna difícil cobrar pelo conteúdo on-line. Queixas semelhantes obrigaram a ZDF, uma emissora alemã, a reduzir drasticamente sua página na internet no ano passado.

Faixa etária da audiência

James Murdoch, que dirige as operações da News Corporation para a Europa e Ásia – incluindo a BSkyB – disse que o alcance da BBC dá ‘calafrios’. Outras emissoras dizem o mesmo, reservadamente. E, no entanto, há uma coisa curiosa sobre a BBC. Embora para os concorrentes a emissora pareça enorme e continuamente crescente, para quem trabalha lá dentro a impressão é de que seu alcance vem diminuindo.

Ao longo da última década, a televisão por canais múltiplos explodiu na Grã-Bretanha. Algumas pessoas preferiram por TV a cabo, ou por satélite, mas a maioria optou pelo Freeview, que descodifica os sinais digitais enviados pelas ondas. No ano 2000, apenas 31% dos domicílios possuíam televisão por canais múltiplos, segundo a Diretoria de Pesquisa de Audiência Britânica (British Audience Research Board – BARB). Atualmente, são 88%. À medida que as pessoas adquirem mais opções, afastam-se dos principais canais da BBC.

Essa mudança não segue um padrão homogêneo. As pessoas mais idosas foram as que levaram mais tempo para comprar a televisão de canais múltiplos; e quando a adquirem, tendem a preferir as ofertas mais básicas, com o menor número de canais. Mas, em sua maioria, continuaram com a BBC. A população jovem e de meia idade encara mais tentações, como a dos canais pagos. Embora frágil, a ITV ainda goza da preferência jovem, mais popular que a BBC. Portanto, a audiência da emissora vem se estreitando. A BBC avalia que chega a 46% da audiência de televisão por parte de trabalhadores especializados e profissionais, com idade acima de 55 anos. E alcançaria 23% dos telespectadores de classe operária e baixa classe média, com idade entre 16 e 34 anos.

Gastando muito para pouco público

Se a BBC fosse uma operadora comercial, tudo bem. A MTV não entra em crise porque sua audiência é amplamente constituída por adolescentes, nem a Vogue se preocupa que a maioria de seus leitores seja do sexo feminino. Pelo contrário: audiências seletivas têm maior valor para os anunciantes. Mas como a BBC é paga por todo mundo, então deveria tentar atender a todo mundo. À medida que as audiências abandonaram seus principais canais de televisão, a BBC foi forçada a fazer esforços agressivos para as ganhar de volta. ‘Está no DNA da tarifa de acesso à TV’, diz Mark Oliver, ex-diretor de estratégia da BBC que dirige agora uma consultoria, Oliver & Ohlbaum.

Na última década, a empresa lançou canais digitais de televisão, como a BBC 3, programas como Freaky Eaters e Hotter than my Daughter, e o erudito BBC 4. Construiu um amplo portal na internet, incluindo páginas especificamente destinadas a adolescentes. Mas a maioria dos esforços concentrados na recuperação de audiências perdidas foi no rádio. Em 2002, a BBC apresentou a emissora 1Xtra, uma estação digital de música urbana que insinuava uma semelhança suspeita com a Xfm, uma operadora comercial. Em seguida lançou a 6 Music, uma estação alternativa de rock, e a rede asiática. Todas as emissoras receberam ampla promoção nos canais de televisão da BBC.

Lançar uma estação de rádio é uma forma mais barata de expandir o alcance da emissora do que lançar um canal de televisão, mas ainda assim não é propriamente barato. No ano fiscal de 2008-2009, o canal 6 Music gastou £6.5m (R$ 17 milhões) em programação (e R$ 23,5 bi no total) para atingir uma audiência média de 600 mil pessoas por semana. Essa despesa significaria a ruína para uma estação que dependesse de rendimentos em publicidade. ‘Eles estão gastando mais do dobro do dinheiro que gastamos para alcançar metade da audiência que conseguimos’, diz Clive Dickens, da Absolute Radio, uma emissora comercial que toca, de certa forma, o mesmo tipo de música.

Guardião do ‘espaço público’

E a 6 Music, que foi escalada para fechar esta semana, não é a mais gastadora de todas. A rede asiática da BBC, que também deverá ser fechada, gasta por hora, para entreter um ouvinte de rádio, o mesmo que gasta a BBC 1 para entreter um telespectador pelo mesmo período. Com exceção do canal CBeebies, com programação infantil, todas as novas ofertas digitais de televisão custam mais ao usuário do que a BBC 1. Isto colocaria em questão o próprio salário astronômico de Jonathan Ross.

Poderia se pensar, diz Mark Thompson, que a BBC deveria redobrar os esforços para aperfeiçoar essas ofertas, de modo a que atraiam maiores audiências. Entretanto, a decisão de fechar os canais reflete o que ele descreve como uma nova forma de pensar sobre o lugar da BBC no panorama da mídia. A emissora deveria parar de lançar serviços onde existam alternativas boas e gratuitas. Em vez disso, deveria fortalecer prioritariamente seus principais canais de modo a que sejam atraentes para um maior número de pessoas e lhes dêem mais satisfação.

Se isto soa a uma trégua para a mídia comercial, nada mais errado. Mark Thompson diz que a BBC não se irá restringir a áreas em que o mercado falhou. Em vez disso, agirá como guardiã do que ele chama ‘espaço público’. Tal como uma biblioteca ou um museu, a BBC se garantirá que programas e informação de boa qualidade sejam acessíveis gratuitamente a todos. Seu papel não é apenas de preencher lacunas no mercado, mas criar uma cultura comum (que significa, por exemplo, manter um portal de notícias gratuito na internet mesmo que outras emissoras insistam em cobrar). Longe de recuar, a BBC está definindo sua situação de maneira mais ampla e aprofundando sua participação. Na realidade, está construindo, em silêncio, novas fortalezas.

Com inimigos desses, quem precisa de amigos?

O mais importante novo recurso é a televisão de banda larga. Em 2007, a BBC lançou o iPlayer, uma televisão on-line – assim como um serviço de localização de rádio. Em parte devido a um trabalho pesado de marketing, tornou-se um enorme sucesso, em especial junto à dificilmente identificável audiência jovem. Em janeiro, o iPlayer recebeu 120 milhões de pedidos para espetáculos de televisão e rádio. Embora seja difícil mensurar tais coisas com precisão, é bastante provável que o share de espectadores de televisão por banda larga da BBC seja consideravelmente superior ao dos espectadores da televisão comum. O iPlayer, que é prático e bem bolado, acaba se tornando uma maneira melhor de expandir o alcance da BBC do que as redes estreitas de TV e de rádio.

Em parceria com outras emissoras, a BBC vem desenvolvendo agora um sistema que traria a televisão em banda larga para o aparelho da sala de estar. Isto colocaria a empresa no centro de uma abordagem inteiramente nova de distribuição, dando-lhe enorme influência. Embora esse sistema deva poder incorporar uma forma de cobrar por programas de televisão pagos, essas coisas se limitariam a ser meros acessórios de um serviço essencialmente gratuito. A BSkyB, que arrecada a maioria de seus rendimentos de assinaturas, já percebeu o perigo. Se este novo serviço for um sucesso, pode vir a ser avaliado como uma intervenção ainda maior do que as que a BBC fez até agora.

Os políticos continuam sendo um problema maçante. Ministros adulam a emissora no sentido de criar um novo órgão gerenciador, o BBC Trust, para depois se queixarem que era a operadora errada para aquele serviço. Futucaram a empresa no sentido de transferir muitas de suas operações para Salford, um bairro menos chique de Manchester, e em seguida queixaram-se do que estava sendo gasto com os prédios. Incentivaram a emissora a se expandir on-line e depois resmungaram que ela não estava gastando o suficiente em programas originais de televisão.

No entanto, a BBC é popular e vem por aí uma eleição. Ben Bradshaw, secretário da Cultura, foi um crítico feroz da emissora no passado. No entanto, esta semana chamou a empresa de ‘grande ativo britânico’ e acusou os conservadores de lhe serem ‘visceralmente hostis’. Os conservadores não estavam preparados para aceitar a acusação. Ed Vaizey, porta-voz dos conservadores para assuntos culturais, revelou que passara o fim de semana ouvindo o malfadado 6 Music. Descreveu o canal como ‘brilhante’ e manifestou a esperança de que seja salvo. Com inimigos desses, quem precisa de amigos?

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