Domingo, 21 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Existência vigiada

05/05/2009 na edição 536

Quando Jean Baudrillard diz, em seu livro El Crimen Perfecto, ‘o que está desaparecendo é a realidade, isto é, a representação do mundo. O mundo não está desaparecendo materialmente, mas sua representação e seus sistemas de valores, sim’, traduz aspectos mais significativos a respeito da relação entre o campo da mídia e a constituição do imaginário, no qual transitam as neuroses da contemporaneidade. As imagens passaram a servir como garantia e inércia existencial: câmeras, fotos, carteiras, carteirinhas, cartões, circuitos internos e outras atribuições servem como garantia de segurança ou perpetuação da espécie.

O Estado, incompetentemente, deixou seus afazeres para outros ‘bandos’ ou ‘circuitos’: a neurose da sociedade em se encerrar em seus apartamentos, casas ou condomínios, acreditando estar segura, enquanto os ‘delinqüentes’ estão soltos. As câmeras de circuito interno dos prédios provam isso e ainda servem como espécie de segurança. A observação constante com intuito de auxílio em situação de risco ou perigo que incorra a vítima. Nessa clausura, a sociedade senta-se em frente à TV por horas e vigia o ‘nada’.

Trajetória rastreada e neurótica

Um exemplo: os realitys ajudam a demonstrá-lo, a suposta decadência cultural que representaria o voyeurismo, a inércia. Sem falar na febre do registro fotográfico que parece condicionar o exibicionismo desenfreado. Então, essa sociedade prefere a ‘realidade’ que a TV proporciona – ou seja, a construção de um mundo perfeito, expurgado de todas as coisas negativas – à do real em si. Assim como os perfis das páginas de relacionamento – lindos, belos e cheios de autopromoção. Tamanho anestesiamento e o peso comprobatório de uma imagem!

Por fim, haveria que se falar ainda mais sobre o culto à imagem, sobre a(s) neurose(s) reveladas por Freud ou mesmo pelo sofrimento da sociedade em viver trancafiada – Schopenhauer elucidaria melhor esse assunto. O que vale destacar é que com o advento da tecnologia da informação cada vez mais surgem aparelhos perfeitos, prontos para substituir a realidade. A existência parece exceder-se na vigília, seja pelo Estado, delinqüente, por adventos tecnológicos ou por uma suposta imagem que signifique segurança ou comprovação.

As pessoas preferem o interesse pela vida alheia, imagem alheia, segurança alheia e alheios permanecem na inércia. Olhos ávidos por uma evidência, uma comprovação, uma referência do humano que se perdeu. Um rastro, um traço marcado por uma trajetória rastreada e neurótica.

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Jornalista e ator, pós-graduado em Comunicação e Imagem pela PUC, Rio de Janeiro, RJ

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