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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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TV EM QUESTãO > ANÚNCIO INSTITUCIONAL

Faltou QI no Q de Qualidade da Globo

Por Alberto Luchetti em 15/04/2008 na edição 481

Não são raros os erros de português que a maior emissora de televisão do país comete em sua programação. Ora aparecem em seus telejornais, ora em programa de entretenimento. É muito comum, aliás, um personagem de novela – sem desculpa pelo tipo que faz – sapatear no vernáculo. Na prorrogação desse parágrafo, sequer convém mencionar as ‘bolas fora’ proferidas durante as transmissões esportivas, sobretudo quando comentaristas que ganharam a vida com o pé resolvem sobreviver abrindo a boca.


Agora, fustigada pela concorrência, a Rede Globo de Televisão ultrapassou todos os limites da boa convivência com a língua portuguesa. No comercial institucional, que apregoa o Q de Qualidade da emissora, faltou QI. Como Armando Nogueira está fora de combate e Otto Lara Resende, que escrevia os textos do patriarca Roberto Marinho, está morto, a nossa nobre língua padece no Jardim Botânico.


A Globo apelou para a exaltação do Q de Qualidade como justificativa para a perda constante de audiência para a TV Record. Mas negligenciou na qualidade do texto de seu próprio institucional. No anúncio, protagonizado por atores, jornalistas e afins, veiculado na própria TV Globo, o ator Marco Nanini foi premiado com uma pérola da redundância. Ele usa a expressão ‘pequeno detalhe’ ao falar de figurino, como se detalhe tivesse outra dimensão que não fosse pequena. É o mesmo que grande maioria ou pequena minoria, aliás, muito freqüente na boca de quem fala na TV Globo.


Gosto duvidoso


O vídeo e o texto exibidos pela emissora carioca podem ser ‘criação’ de uma agência de publicidade descompromissada com a gramática, o que não acredito. O mais provável é que pelo menos o texto tenha sido gestado por mãos inábeis, no ventre de alguém de pouca prática, numa sala do sexto andar da Rua Lopes Quintas, 303, Jardim Botânico, gabinete da direção da Central Globo de Comunicações.


Estilisticamente, a peça publicitária que a Globo prega no telespectador também é sofrível. O ator Tony Ramos é humilhado com o cacófato ‘só dela’, como se o erro fosse só dele. O apresentador Serginho Groisman fica encarregado da metáfora mais piegas do institucional Q de Qualidade – ‘compromisso nos nossos corações’ –, sacada tão vulgar que não sensibilizaria sequer telespectadores insones em altas horas.


Numa frase, Galvão Bueno chuta dois flácidos gerúndios (‘defendendo’ e ‘respeitando’) e Luciano Huck s-o-l-e-t-r-a uma rima pobre juntando ‘inovar’ com ‘trabalhar’. Há ainda uma profusão de pronomes, com aplicação de gosto duvidoso, ao longo da maioria das falas, como no caso de Xuxa, que diz: ‘… além do que se vê, está o que se sente’. E, eu, sinto muito.


A Globo com o Q de Qualidade acha que isso é Beleza Pura, mas, acredite, não passa de Duas Caras.

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Jornalista, presidente da Associação Brasileira das Emissoras de IPTV (Abrawebtv)

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/04/2008 Carlos N Mendes

    O jornalismo da Globo realmente é de primeira qualidade. Transmitem ao vivo de qualquer lugar com três ou quatro ângulos diferentes, tem correspondentes em meia dúzia de países, já foram onde nenhuma tecnologia jornalística jamais havia ido, fizeram reportagens muito boas de onças, jaburus, tubarões, indianos, pinguins, sul-africanos… Mas a mesma experiência adquirida ao longo dessas décadas é que permite esconder / alterar / manipular a verdade de tal forma que o espectador acaba acreditando que aquela parcialidade toda é a expressão da verdade. Não consigo esquecer Fátima Bernardes, dia 14 de abril, dizendo ‘SUPOSTO massacre de Eldorado dos Carajás’. Saiu tão natural e cínico que esmurrou a dignidade dos mortos na tragédia. Negam o fato consumado e consagrado com tal segurança, que talvez acreditem que consigam assim modificar a verdade. Não é de qualidade jornalística que deveríamos falar no caso da Globo; é dos objetivos e vontades dos senhores que são donos do jornalismo da Rede Globo; são eles que fazem a diferença entre se fazer um jornalismo isento e se fazer um jornalismo de resultados.

  2. Comentou em 16/04/2008 Paulo Sousa

    Não, meu caro, sou um pobre jornalista freelance. Nunca trabalhei na Globo. Apenas costumo pensar por conta própria e não ficar repetindo os clichês das cartilhas esquerdopatas mofadas. Pensar sem recorrer às cartilhas dá mais trabalho, sim, mas é mais gratificante também.

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