Sábado, 07 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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Folha de S. Paulo

21/03/2006 na edição 373



ELEIÇÕES 2006
Fabio Schivartche e Conrado Corsalette

Alckmin dobra gastos com publicidade

‘O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, escolhido pelo PSDB para disputar a sucessão presidencial neste ano, acelerou seus gastos com propaganda nos últimos meses.

De janeiro a setembro de 2005, a média de liquidação (liberação do pagamento mediante reconhecimento do serviço prestado) das despesas com propaganda do gabinete de Alckmin era de R$ 2,3 milhões mensais. De outubro a fevereiro deste ano, a média dobrou, chegando a R$ 4,6 milhões.

O aumento das despesas com propaganda coincide com o momento em que Alckmin iniciou sua luta pela candidatura tucana à Presidência. A aceleração dos gastos obrigou, inclusive, o governo a suplementar (em dezembro do ano passado) o orçamento destinado à publicidade: passou de R$ 40 milhões para R$ 45 milhões.

Há duas semanas, a Folha revelou que o prefeito da capital, José Serra (PSDB), que até terça-feira passada disputava com Alckmin a vaga de presidenciável tucano, também acelerou seus gastos com propagandas no final de 2005.

Prestações de contas

Assim como fez a prefeitura, a Secretaria de Comunicação do governo Alckmin negou que o aumento esteja atrelado ao calendário eleitoral. Disse que os gastos publicitários sempre aumentam no final do ano, por conta de prestações de contas à população.

Em 2003, ano em que Alckmin tomou posse, os gastos foram, sim, maiores em dezembro.

Mas em 2004, quando houve eleição municipal, a média de gastos no último trimestre não superou a do restante do ano. Na ocasião, Alckmin era cabo eleitoral de Serra, então candidato à prefeitura. Os gastos publicitários foram maiores no período da campanha, em agosto e setembro.

Os números usados na comparação dos últimos 14 meses são oficiais e se referem apenas às despesas da Casa Civil do Estado, responsável pela propaganda institucional do governo Alckmin.

A publicidade para as áreas de Saúde e Educação, por exemplo, não estão incluídas -apesar de terem ocorrido. No ano passado, essas áreas tiveram, juntas, despesas com propaganda da ordem de R$ 4 milhões. Os gastos também se concentraram nos últimos meses do ano.

Ficam ainda de fora do cálculo os gastos com propagandas das estatais. A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), por exemplo, gastou, só em dezembro de 2005, quase R$ 3 milhões em propagandas -os gastos também se concentraram no final do ano.

Outra empresa do governo que tem gastos elevados com publicidade é a Nossa Caixa. O banco, porém, prefere não divulgar os valores mensais de 2005, afirmando se tratar de informações financeiras sigilosas.

Obras do Tietê

Nos últimos dias o Estado passou a veicular em emissoras de TV uma peça publicitária sobre a conclusão das obras no rio Tietê. Trata-se de uma das principais bandeiras do governador, que deve usá-la na campanha para tentar derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Segundo a Secretaria de Comunicação de Alckmin, os gastos com essa campanha devem ficar em torno de R$ 1,3 milhão. As peças sobre o Tietê serão exibidas em todo o Estado de São Paulo.’



***

Secretaria nega caráter eleitoral de publicidade

‘A Secretaria de Comunicação do governo Geraldo Alckmin alega que o aumento de gastos no final do ano se deve ao fato de a administração estadual fazer campanhas de prestação de contas.

Em 2005, além dos gastos normais, houve campanhas educativas para a prevenção da febre aftosa no interior do Estado. Sobre a concentração de gastos entre agosto e setembro de 2004, ano em que José Serra disputou a prefeitura paulistana, a secretaria alega que o gasto ocorreu por causa de uma campanha intitulada ‘Respeito Pela Gente’. Nega que tenha caráter eleitoral.

Já sobre os R$ 11,2 milhões liquidados no final do ano passado, a alegação é que o valor reflete o acúmulo de pagamentos de dois meses: dezembro de 2005 e janeiro de 2006 (mês que teve liquidação zero, de acordo com o Sigeo, o sistema de execução orçamentária do Estado). A secretaria afirma que os gastos da administração Alckmin com publicidade são os menores do setor público brasileiro: ‘Especialmente quando se considera que o governo de São Paulo leva informação de interesse público para um universo de 40 milhões de cidadãos e lida com os maiores custos de mídia do país’.’

Elio Gaspari

‘Banho de ética’? Use sabonete internet

‘O candidato do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin, oferece ‘um banho de ética’ à política nacional. Ele poderia começar a limpeza anunciando que colocará a contabilidade de sua campanha na internet, desafiando Lula a fazer o mesmo.

O PSDB e o PT sabotaram uma iniciativa nesse sentido, patrocinada pelo PFL. Argumentam, com alguma razão, que a divulgação dos nomes dos doadores durante a campanha inibe a ajuda de simpatizantes sinceros.

(Delúbio Soares já disse que ‘transparência assim é burrice.’)

Alckmin pode propor a Lula o seguinte:

1) Os dois candidatos divulgam semanalmente todas as doações, identificando o boleto e a data do depósito. Coisa assim: dia 20 de agosto, doação de R$ 10 mil, bilhete nº 123.456. O nome do doador fica preservado até a noite do dia 3 de outubro. Fechadas as urnas, abrem-se os nomes. Esse é o pedaço menos relevante. Pelo sistema atual, os nomes dos doadores são conhecidos poucos meses depois da eleição.

2) Muito mais importante é a divulgação das despesas. A exposição dos gastos permite que se detectem os efeitos do caixa dois e impede a propagação de lorotas. Exemplo: na sua prestação de contas de 2002, Lula disse que gastou R$ 21 milhões, dos quais R$ 7 milhões pagaram ‘produções audiovisuais’ (leia-se Duda Mendonça). Admitindo-se que o marqueteiro tenha comido todos os lanches da campanha (R$ 23 mil) e que tenha ficado com tudo o que ‘nosso guia’ gastou em cachês, honorários e serviços de terceiros, chega-se a um total de R$ 8 milhões. A cifra não faz sentido, é um elefante de 200 gramas. Para ter uma idéia da escala eleitoral dos companheiros, Duda transferiu ilegalmente para a conta Dusseldorf cerca de R$ 10 milhões.

Alckmin e Lula podem chegar a um compromisso pelo qual divulgam suas despesas protegendo (até o dia seguinte à eleição) aspectos do sigilo comercial dos fornecedores. Se quiserem, é possível chegar a um acordo em benefício da moralidade e da transparência. Se um quiser, faz sozinho. Se ninguém quiser, tudo bem, mas o banho fica para depois.’



PUBLICIDADE
Gary Silverman

Oliver confunde marketing e entretenimento

‘DO ‘FINANCIAL TIMES’ – Os tempos são assustadores para os anunciantes. Novas tecnologias como os gravadores digitais de vídeo estão dando aos consumidores a capacidade de evitar mensagens de marketing, e isso significa que a publicidade do futuro terá de fazer mais.

Não será mais suficiente que as empresas interrompam programas de televisão para informar os telespectadores sobre seus produtos. Elas terão de produzir comunicações de várias espécies, que sejam tão divertidas ou de tamanha utilidade que os consumidores na verdade desejem assisti-las.

É uma empreitada difícil, mas não impossível, como vem demonstrando Jamie Oliver, 30, que ganhou celebridade com seus programas de culinária.

Ele vem produzindo uma combinação de ativismo social, entretenimento e publicidade tão poderosa que se tornou uma das figuras mais populares do Reino Unido.

Oliver é um proprietário de restaurantes que vem produzindo há anos uma série de livros de culinária e programas de televisão muito populares, cuja peça central é a idéia de que não existe nada tão bom quanto produtos alimentícios britânicos frescos.

Mas sua ‘pièce de resistance’ foi uma série de programas exibidos pelo Channel 4, no ano passado, sob o título ‘Jamie’s School Dinners’, que retratavam seus esforços para melhorar a qualidade da comida nas escolas públicas do Reino Unido.

Presença política

Filmados ao estilo de documentários, os programas obtiveram sucesso de audiência e exerceram importante impacto cultural, garantindo a posição de Oliver como figura política e solidificando seu status como porta-voz publicitário muito bem remunerado.

Enquanto políticos como o primeiro-ministro Tony Blair corriam para demonstrar sua preocupação quanto à qualidade da comida nas escolas, a cadeia de supermercados Sainsbury’s renovava seu contrato com Jamie Oliver, que continuará a representar a empresa pelo sexto ano consecutivo, por um cachê anual superior a 1 milhão de libras.

A agência de publicidade que atende a cadeia de varejo, Abbott Mead Vickers BBDO, produziu uma campanha de marketing que ecoa a linguagem e o espírito da série ‘Jamie’s School Dinners’.

Como parte de seu trabalho para melhorar a qualidade das refeições escolares, Oliver distribuía aos alunos etiquetas que diziam ‘experimentei algo novo’. Agora, em nome da Sainsbury’s, ele está convidando os consumidores a ‘experimentar algo novo hoje’.

A capacidade de Oliver para parecer convincente nas duas funções é testemunha tanto do potencial dessa forma de comunicação quanto de seus limites.

Trata-se de uma situação de difícil reprodução. A estratégia de Oliver pode ser resumida como ‘deixar que Jamie seja Jamie’.

Em entrevista na sede da Sainsbury’s em Londres, Oliver disse que o processo que conduziu à série de televisão foi ‘muito simples. Fui ao Channel 4 e disse que queria conduzir uma campanha para mudar radicalmente a comida que servimos às nossas crianças nas escolas. Acredito apaixonadamente nessa causa. Qualquer coisa que envolva a palavra ‘apaixonadamente’ em geral atrai a atenção deles, porque sabem que, quando Jamie se apaixona por alguma coisa, isso pode resultar em algo valioso para eles’.

O sucesso da campanha de Oliver nas escolas suscita a questão quanto a uma possível colaboração entre Oliver e as equipes de marketing da Sainsbury’s, no Reino Unido, e da AMV, uma subsidiária do grupo Omnicom nos Estados Unidos, para conceber o projeto. Mas a seqüência dos eventos sugere que seu triunfo se deve em larga medida ao improviso, se não ao acaso.

Antiesnobe

No momento em Oliver estava deliciando as audiências de televisão com seus esforços para convencer crianças a comer algo mais saudável do que hambúrgueres e batatas fritas, a Sainsbury’s estava estudando encerrar sua colaboração com a AMV, que atendia sua conta há 25 anos.

Os últimos cinco anos desse período já incluíam Oliver como colaborador, recrutado depois que uma campanha anterior da Sainsbury’s para veicular receitas pela televisão foi considerada como ‘esnobe demais’, diz Peter Souter, vice-presidente do conselho da AMV.

Ao convidar a JWT para disputar a conta com a AMV, a Sainsbury’s parecia ela mesma disposta a experimentar algo novo.

Ambas as agências foram convidadas a propor idéias para a ‘evolução da marca Sainsbury’s’, de acordo com Gwyn Burr, diretora de serviços ao consumidor. Era a espécie de disputa que a agência titular de uma conta costuma perder, de acordo com os analistas.

A AMV concentrou sua proposta nos números. Uma loja típica da cadeia Sainsbury’s tem em estoque cerca de 30 mil itens, e o comprador médio adquire apenas 120 deles. A AMV calculou que, se os compradores fossem persuadidos a adquirir um item a mais, a Sainsbury’s seria capaz de atingir suas metas de crescimento no faturamento por unidade.

A idéia poderia funcionar sem Oliver. Mas, à medida que a proposta se desenrolava e a popularidade dele crescia, a AMV decidiu amarrar sua idéia a Oliver, e ‘teve muita sorte’ porque o homem que escolheu ‘virou santo’, de acordo com Souter.

Ao mesmo tempo, a Sainsbury’s se beneficiou de um exemplo acidental daquilo que o pessoal de publicidade vem designando como ‘branded content’ [conteúdo vinculado a marca].

Trata-se de um primo mais sofisticado da velha idéia do merchandising, sob qual produtos são exibidos durante um programa, e atrai mais atenção dos executivos, muitos dos quais acreditam que merchandising à moda tradicional irrita os consumidores.

O objetivo dessa nova tendência é criar personagens, em programas de entretenimento, que atendam a necessidades de marketing. ‘Jamie’s School Dinners’ demonstra que a idéia é factível, ainda que, nesse caso, o sucesso se deva provavelmente ao acaso.

‘Não sabíamos que Jamie evoluiria nessa direção’, diz Souter. ‘Nós tivemos sorte com um ou dois programas que vinculavam conteúdo à marca.’

A variável interessante nesse relacionamento é que ele parece funcionar com base na idéia de que Oliver mantenha certa distância da Sainsbury’s.

Ele visita a empresa regularmente e a cada mês oferece seus conselhos quanto a novos produtos, prestando atenção a detalhes tão específicos quanto o tamanho do moedor usado para moer carne de porco para salsichas.

Oliver também gosta de deixar claro que seu relacionamento com a Sainsbury’s foi crucial para seus outros projetos.

O dinheiro que ele recebe do supermercado permite que ele produza programas de televisão -não só ‘Jamie’s School Dinners’ como ‘Jamie’s Kitchen’, série na qual ele treinou 15 jovens pobres para trabalhar no Fifteen, seu restaurante em Londres.

‘Eu normalmente banco esses projetos’, diz. ‘Se não fosse a Sainsbury’s, para ser franco, eu jamais teria conseguido abrir o Fifteen e tampouco teria conseguido conduzir a campanha escolar. Não teria dinheiro suficiente.’

Mas ele também gosta de enfatizar que não pretende se aproximar demais da Sainsbury’s. Quando Jamie está sendo Jamie, ele interpreta o papel do cético, do homem que desconfia do sistema. ‘Minha relação com o público se baseia na honestidade’, diz. ‘Eu não minto. Se digo que algo é bom, sempre é.’

No momento, só existe um Jamie Oliver. A questão para o setor de publicidade de marketing é determinar se será possível criar novos Olivers.’



TELEVISÃO
Daniel Castro

Seu Creysson ‘negocia’ candidatura em 2006

‘Depois de apenas três semanas de férias (por causa das filmagens de um novo longa, em janeiro e fevereiro), os humoristas do ‘Casseta & Planeta’ voltam amanhã a gravar. O programa retorna à Globo no próximo dia 4.

Segundo Reinaldo (que interpreta Devagar Franco, Rubinho Pé de Chinelo e Ótima Bernardes), os carros-chefes da temporada 2006 do programa serão a Copa do Mundo e as eleições.

À Alemanha, serão enviados quatro cassetas _ou ‘quatro Ronaldinhos’. Será o retorno do programa a uma Copa _em 2002, eles não se ‘classificaram’.

A grande estrela da campanha eleitoral do humorístico será Seu Creysson (Claudio Manoel). A Folha apurou que ele será, sim, candidato à Presidência da República, embora seus ‘assessores’ escondam o jogo. ‘A candidatura ainda depende das coligações. Estamos estudando propostas’, brinca o ‘assessor’ Reinaldo.

Os cassetas também farão piada do astronauta Marcos Cesar Pontes. ‘Vamos mandar um de nós ao espaço’, adianta Reinaldo.

Também farão parte do repertório do ‘Casseta’ de 2006 uma versão do Pan-2007 (os ‘Jogos Pançamericanos’, para gordos), o quadro ‘Caçadores de Micos’ (sátira de ‘Caçadores de Mitos’, do ‘Fantástico’), a gripe aviária e o desenho animado ‘Pintinho Pinto Little’ (do filme ‘O Galinho Chicken Little’), sobre ‘portadores’ de pênis pequenos.

OUTRO CANAL

Talentos 1 A Globo não vai dar moleza para a Record, que assedia seu elenco. Jovens atores que estão se destacando em novelas ainda no ar estão fechando com a emissora novos contratos de três anos de duração. Assim, não poderão migrar já para a concorrente.

Talentos 2 São o caso de Marina Ruy Barbosa (Sabina) e Paola Oliveira (Giovana), de ‘Belíssima’. Paola, aliás, estreou numa novela da Record (que a emissora prefere esquecer), ‘Metamorphoses’. Recém-revelados em ‘Alma Gêmea’, Sidney Sampaio e David Lucas também serão da Globo até 2009.

Talentos 3 A lista dos que acabam de assinar por três anos com a Globo se completa com Emilio Orciollo Netto, Pedro Neschling, Thiago Rodrigues, Graziella Schimitt, Rita Guedes e Irene Ravache.

Money O SBT vai exibir neste ano uma série de documentários, em comemoração aos seus 25 anos. Mas o único custo que a rede de Silvio Santos terá será com a geração das imagens. Os documentários, produções independentes, serão bancados por incentivos fiscais, com apoio do Ministério da Cultura.

Retorno A revista ‘Monet’, dirigida a assinantes da Net, vai mudar sutilmente a partir de abril. Continuará ‘classuda’, mas será mais voltada à programação dos canais. Textos sobre beleza, viagens, carros e vinhos perderão espaço.’

Laura Mattos

Garotos em guerra

‘O ‘Fantástico’ desta noite será tomado por 16 meninos que trabalham para o tráfico de drogas. O programa da Globo exibirá um documentário de 58 minutos sobre jovens operários do crime, marcado por cenas da intimidade de crianças com metralhadoras, granadas, maconha e cocaína.

‘Falcão – Meninos do Tráfico’ resulta de 217 horas de imagens captadas pelo rapper carioca MV Bill e seu empresário, Celso Athayde, ao longo de seis anos, em favelas de vários Estados.

Falcão é o nome dado aos que têm a função de vigiar a favela e avisar os traficantes quando a polícia ou qualquer outro ‘inimigo’ se aproximar. ‘Falcão não dorme, ele só descansa’, explica um deles.

Dos 16 personagens centrais, 15 foram assassinados e tiveram seus enterros registrados pelas câmeras. O sobrevivente chegou a ser empregado pelos produtores, mas voltou ‘à atividade’ e, de acordo com as últimas informações obtidas por eles, está preso.

O objetivo agora é encontrá-lo para uma nova fase de gravações, já que, em 12 de outubro, Dia da Criança, ‘Falcão’ será lançado nos cinemas em forma de longa-metragem. Também faz parte do projeto ‘Meninos do Tráfico’ o lançamento de um livro, amanhã, com os bastidores das filmagens, e de um CD de MV Bill, em maio.

‘Falcão’ vai ao ar num momento em que se discute a ocupação dos morros cariocas pelo Exército e, por isso, em hora ‘oportuna’, segundo Athayde. Apesar de ter sido registrada pelo documentário bem antes disso, a declaração de um garoto com arma em punho é reveladora: ‘Pode vir alemão, Aeronáutica, Exército, Marinha, o que for, que nós ‘vai’ cair pra dentro. Nós ‘tem’ que proteger os moradores, nosso morro, nossa favela’. A cena está num trecho de três minutos ao qual a Folha teve acesso.

Segundo Athayde, a média de idade dos garotos retratados em ‘Falcão’ é de 16 anos, 90% deles não têm pai e já têm filhos. ‘Isso quer dizer que, como os meninos já morreram, essas crianças também não terão pais. Estamos vivendo um genocídio.’

Voz infantil

Os meninos estão à vontade diante da câmera de Bill, que já foi ‘do ramo’ e diz ter sido ‘salvo’ pelo hip hop, e de Athayde, também membro da comunidade. A eles, os garotos respondem sem medo aparente sobre propina à polícia, assassinatos, drogas, vida e morte. Com voz ainda infantil, pronunciam frases como ‘Nunca fico triste com nada, sempre tô ‘se’ drogando’, ‘Quando crescer, quero ser bandido’ e ‘A realidade da vida é que o bagulho é doido’.

O material é legendado e traz a tradução de gírias, como ‘arrego = propina’. Algumas poucas cenas foram gravadas em câmera VHS, mas a maioria é digital. Os ambientes são escuros e, em razão do risco, nada foi feito com grandes equipes, como as da TV.

Em alguns casos, os próprios meninos registravam imagens ou colaboravam com a produção ao posicionar o microfone de lapela em suas metralhadoras.

O documentário não tem narração, e o ‘Fantástico’ exibirá na seqüência os 58 minutos (metade da duração do programa, descontando os comerciais). Serão três blocos, cortados apenas por intervalos e não por outras reportagens. Há 33 anos no ar, o dominical jamais dedicara tanto espaço a uma produção independente.

Desentendimento

O documentário é o mesmo que, em 2003, foi objeto de desentendimento entre os produtores e a Globo (a nova versão tem apenas o acréscimo de mais três minutos). Bill e Athayde haviam autorizado a emissora a veicular o material, editado em parceria com a equipe do ‘Fantástico’.

A exibição chegou a ser divulgada na TV no domingo anterior e em anúncios de jornais. Mas, às vésperas do programa, o rapper e seu empresário suspenderam a autorização, alegando ‘questões de foro íntimo’. À época, especulou-se que teriam recebido ameaças de traficantes e que houve divergências em relação à edição. Em nota, a Globo falou em ‘enorme prejuízo financeiro e moral’.

Três anos depois, Athayde dá a sua versão: ‘As pessoas começaram a imaginar uma série de coisas, mas não foi nada mais do que a emoção do Bill em relação às mortes dos jovens e a incerteza de que aquele era o momento exato’.

Segundo Athayde, em 2003, ‘o documentário iria ao ar e nada mais iria acontecer’. ‘A gente ia ficar famoso e só. Seria um gesto irresponsável. Hoje estamos preparados para argumentar e fazer o país refletir de maneira mais objetiva sobre o assunto.’

Para ele, apesar do prejuízo financeiro mencionado pela Globo, ‘essa não é uma questão de negócio, mas de contribuição ao entendimento da realidade das favelas’. Athayde afirma que a Cufa (Central Única das Favelas), entidade da qual Bill é líder, absorverá os lucros com o projeto ‘Falcão’ (a exibição no ‘Fantástico’ não será paga, segundo eles, mas o faturamento virá com a venda do livro, do CD e com o cinema).

Desta vez, a emissora se cercou de cuidados para não colocar novamente em jogo o nome de um de seus programas de maior audiência, com mais de 24 milhões de telespectadores no Brasil.

Apesar de Luiz Nascimento, diretor do ‘Fantástico’, afirmar desconhecer a existência de um contrato, Athayde revelou à Folha que ele e MV Bill assinaram um compromisso de exibição.’

Marcos Augusto Gonçalves

Quem vamos convocar a seguir? Rambo?

‘O documentário que o ‘Fantástico’ exibe hoje, sobre o envolvimento de crianças e adolescentes com o tráfico de drogas, dificilmente deixará de chocar os milhões de espectadores da Globo. É possível antever reações fortes. Quem sabe, até notícias no exterior.

A estupidez que a ‘lei’ do narcotráfico impõe ao cotidiano das favelas cariocas e de outras áreas pobres do país já é conhecida, mas será mostrada em sua face mais cruel e intolerável, que é o aniquilamento da infância. ‘Cidade de Deus’ enfocou o assunto, mas em se tratando de documentário -e não de uma obra ficcional- a tendência é que o impacto seja ainda mais potente.

É bom que a sociedade se choque com essa realidade estúpida que se ergueu sobre a incompetência e a corrupção dos poderes públicos. A pressão social é um elemento importante para que as coisas possam mudar.

A questão é saber para que tipo de mudança esse sentimento de saturação será dirigido. A falta de visão e a torturante incapacidade dos governantes de formular e implantar um projeto de restauração da cidadania e do Estado nos territórios ocupados pelo tráfico têm inclinado setores da população a projetar o alívio do problema em ações militares -já que as policiais se mostram pouco eficientes.

A exibição do documentário na seqüência da operação do Exército no Rio talvez reforce o apoio a novas intervenções semelhantes.

As Forças Armadas têm um papel a cumprir no processo de restauração -ou de implantação- da República nessas áreas controladas pelo narcotráfico. Mas apenas se esse papel estiver inscrito no contexto de um projeto maior, que de fato faça sentido.

A repetição pura e simples do teatro (em todas as acepções) de guerra a que temos assistido, poderia levar à contaminação pelo tráfico de setores militares (o que, aliás, já vai ocorrendo) e à posterior constatação de que o Exército por si só não irá resolver a questão. Se a população, já descrente da polícia, não tiver suas expectativas atendidas pelas invasões militares, quem chamaremos a seguir? Mr. Rambo?’

Marcelo Bartolomei

Manias de Monk chegam à 4ª temporada

‘Em sua quarta temporada na TV paga, o detetive atrapalhado, porém eficiente, Adrian Monk (Tony Shalhoub) mostra que tudo é possível na TV -compartilhando da mesma teoria de seriados americanos de sucesso como ‘Lost’ e ‘24 Horas’.

Imagine: além de conviver com o TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), ele sofre de amnésia num episódio após ser atingido na cabeça. Ao ser levado para uma pequena cidade ao lado de San Francisco, onde tradicionalmente ocorre a ação da série, Monk sabe que só bebe uma marca de água, mas não lembra qual; percebe que tem medo de altura, mas não imagina o motivo; sabe que não sai por aí apertando a mão de todo mundo na rua, mas acha isso estranho.

Novos episódios do humorístico estréiam no Universal Channel na próxima quarta-feira (às 23h). Na TV aberta, a Record exibe, às sextas (às 23h15), a primeira temporada. Entre os episódios inéditos, o de estréia, ‘Mr. Monk Goes to a Fashion Show’ (Sr. Monk vai a um desfile de moda), também mostra o quão o personagem pode ir longe, ao tentar tirar o filho de uma costureira de uma grande indústria de confecções da cadeia. Sua ligação ‘afetiva’ com a costureira existe porque ele só compra camisas produzidas por ela -identificadas no número de série da etiqueta- e nas mesmas cores e com as mesmas listras. E, de repente, percebe que elas estão todas com pequenos defeitos.

Vida longa

Tão popular por seu ‘estranho’ personagem nos EUA, Shalhoub -consagrado com dois prêmios Emmy de ator de comédia e com um Globo de Ouro- disse, em entrevista, que a série tem garantidas mais duas temporadas, cada uma com 16 capítulos. Agora que ele também é produtor da série, começou a gravar a quinta temporada em fevereiro, em Los Angeles, e a sexta ainda está no papel, mas seu contrato foi assinado.

‘Uma das coisas que funciona é que somos capazes de encontrar o tom a cada episódio, que se torna mais denso e escuro. A maioria das séries é seqüencial, mas Monk não, pois cada episódio pode ser assistido separadamente. Eu acho também que o personagem ganha o público por ter muitos obstáculos para vencer e sempre consegue. Desafios e pessoas com dificuldades chamam a atenção do público’, avalia o ator.

‘O personagem já virou gíria. Tem gente que diz que está num momento Monk. Já ouvi gente falar: ‘Ah, hoje eu estou meio Monk’. Eu nunca me imaginei como ele, mas atualmente tenho percebido que hesito em apertar a mão de algumas pessoas’, conta o ator de 52 anos e uma lista grande de filmes (‘Homens de Preto 2’ e ‘Contra Tudo e contra Todos’, entre outros) e algumas participações televisivas na carreira.

‘Acho que todo mundo tem uma coisa ou outra que o faz distrair durante um momento em que deveria estar concentrado. Ou alguma mania. Não posso ir para a cama se minha cozinha não estiver completamente limpa, para que eu acorde e encontre tudo perfeito no dia seguinte’, diz Shalhoub, se divertindo com seu jeito Monk de ser. No entanto, ator acha que com ‘Monk’ e outros seriados ou filmes, o público reconheceu que é preciso tratar o TOC, mas que a maior dificuldade ainda é identificar a doença.

A série é dividida em duas partes nos EUA, onde é apresentada no canal USA Network, com os episódios exibidos em lotes de oito capítulos cada um, maneira escolhida para exibição aqui também. Segundo Shalhoub, um romance, campo tão inexplorado na vida de Monk, deve ser o próximo investimento do seriado.’

Lúcia Valentim Rodrigues

‘The Closer’ recicla tabu feminino na delegacia

‘‘The Closer’ não cria, prefere reciclar. A série, que estréia hoje na TNT, explora o velho tabu da chefe mulher num universo essencialmente machista. A loira Brenda Johnson (Kyra Sedgwick), treinada pela CIA e vinda de outra cidade, chega para assumir o comando do departamento de homicídios de Los Angeles. Em meio a um bando de homens, ela vai ter de rebolar (ainda que não literalmente) para ser respeitada.

O título do programa remete à própria Brenda, considerada uma ‘fechadora’ de casos, que arranca com destreza e inteligência as confissões dos culpados.

Os fãs da franquia ‘CSI’ vão sentir falta das evidências sendo analisadas pela equipe, porque aqui o crime se desenvolve prioritariamente na cabeça da detetive, enquanto ela nos distrai com sua compulsão por doces e outras guloseimas supercalóricas. As dicas principais são reveladas aos poucos, em meio a conversas banais, num estilo que lembra os romances de Agatha Christie.

Mas não faz jus à inspiração com que acena a ‘CSI’, esse, sim, um seriado inovador no formato e no desenvolvimento dos personagens, que segue sem substituto nem competidor na TV.

A agente Brenda vai fazer o estilo ‘linha-dura’, como mostra um dos diálogos do episódio piloto: ‘Se eu gostasse de ouvir que estou fazendo drama à toa, ainda estaria casada’. Realmente, ela não faz questão de entrar no gênero de miss Simpatia. Contudo, ao investigar crimes de famosos, ela mesma se tornará uma celebridade e entrará no ritmo hollywoodiano, com vestidos e penteados.

É entretenimento honesto no mundo policialesco, com a variação de se passar em Los Angeles, que tem um funcionamento próprio de festas, alta sociedade e muito dinheiro rolando solto. E a série também vai brincar com a ética, ao revelar o envolvimento de Brenda com um homem casado (seu chefe no passado, que volta a contratá-la atualmente).

The Closer

Quando: estréia hoje, às 20h, na TNT (depois da estréia, episódios novos serão exibidos às ter., às 22h, e aos sáb., às 17h)’

Bia Abramo

‘Cidadão Brasileiro’ e a identidade nacional

‘Começou bem a nova novela da Record, ‘Cidadão Brasileiro’. A audiência foi OK (não ótima, não tem conseguido ‘segurar’ o que recebe de ‘Prova de Amor’), tem produção que acerta (mas erra também) e, ah, é uma novela de Lauro César Muniz, ao fim e ao cabo.

Muniz, nos anos 70, na Globo, escreveu alguns dos roteiros mais instigantes do período, como ‘O Casarão’ e ‘Escalada’, e, na virada dos anos 80/90, criou ‘O Salvador da Pátria’. É quase que o autor canônico do falecido padrão Globo de qualidade: tem perfeito domínio da narrativa melodramática, intuição para captar tipos humanos e perspicácia para dar um sentido histórico às sagas individuais.

Levou para Record o mesmo ímpeto, ao criar uma novela que se desdobra por 50 anos da história do Brasil e por três cidades (São Paulo, Brasília e a fictícia Guará).

A Record, na arrancada ‘rumo à liderança’, garante minimamente as condições necessárias para a história emplacar.

O que tem cheiro de dar errado em ‘Cidadão Brasileiro’ é a ambição da história e a intenção bastante clara de, por meio do protagonista Antônio, ensaiar uma interpretação das questões nacionais do últimos 50 anos.

O herói, ambíguo como convém nos dias de hoje, é talhado para representar o sujeito na luta pela ascensão social em um país refratário a qualquer projeto de construção que dure tempo o suficiente para se realizar.

Tudo isso parece muito interessante, e é, mas talvez não haja mais lugar na novela para uma história que exija tanto fôlego e dedicação. Não por uma questão de má educação (ou má vontade) da audiência, que acaba sendo culpada de tudo, mas por que, talvez tenha simplesmente se esgotado esse modelo.

De certo modo, a possibilidade de a novela oferecer um espaço imaginário de construção da identidade nacional talvez tenha se estreitado, se estiolado e, por fim, sido transferida para as minisséries paradidáticas. Como hipótese, talvez essa possibilidade só tenha podido existir plenamente quando havia um grupo de produtores/autores mais ou menos homogêneo em termos geracionais, que tenha partilhado cenários culturais mais coesos. A ver.

Muniz, entretanto, não é bobo e já se prepara para enfrentar as vicissitudes da audiência com humor (meio fácil, por ora) e, claro, sexo, num nível de ousadia inaudito para a emissora.

Agora, alguém precisa dizer a Lucélia Santos que interpretar uma balzaca (de 50, segundo o site da novela) meio vigarista, meio misteriosa, com voz de Lolita é um pouco bizarro. Gabriel Braga Nunes, carismático no papel de homem comum, é uma espécie de surpresa. E, talvez, gente como Paloma Duarte, que nunca foi muito bem aproveitada na Globo, encontre seu lugar ao sol na Record.’



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Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

O Globo

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IstoÉ

Época

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Folha de S. Paulo

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Fabio Schivartche e Conrado Corsalette

Alckmin dobra gastos com publicidade

‘O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, escolhido pelo PSDB para disputar a sucessão presidencial neste ano, acelerou seus gastos com propaganda nos últimos meses.

De janeiro a setembro de 2005, a média de liquidação (liberação do pagamento mediante reconhecimento do serviço prestado) das despesas com propaganda do gabinete de Alckmin era de R$ 2,3 milhões mensais. De outubro a fevereiro deste ano, a média dobrou, chegando a R$ 4,6 milhões.

O aumento das despesas com propaganda coincide com o momento em que Alckmin iniciou sua luta pela candidatura tucana à Presidência. A aceleração dos gastos obrigou, inclusive, o governo a suplementar (em dezembro do ano passado) o orçamento destinado à publicidade: passou de R$ 40 milhões para R$ 45 milhões.

Há duas semanas, a Folha revelou que o prefeito da capital, José Serra (PSDB), que até terça-feira passada disputava com Alckmin a vaga de presidenciável tucano, também acelerou seus gastos com propagandas no final de 2005.

Prestações de contas

Assim como fez a prefeitura, a Secretaria de Comunicação do governo Alckmin negou que o aumento esteja atrelado ao calendário eleitoral. Disse que os gastos publicitários sempre aumentam no final do ano, por conta de prestações de contas à população.

Em 2003, ano em que Alckmin tomou posse, os gastos foram, sim, maiores em dezembro.

Mas em 2004, quando houve eleição municipal, a média de gastos no último trimestre não superou a do restante do ano. Na ocasião, Alckmin era cabo eleitoral de Serra, então candidato à prefeitura. Os gastos publicitários foram maiores no período da campanha, em agosto e setembro.

Os números usados na comparação dos últimos 14 meses são oficiais e se referem apenas às despesas da Casa Civil do Estado, responsável pela propaganda institucional do governo Alckmin.

A publicidade para as áreas de Saúde e Educação, por exemplo, não estão incluídas -apesar de terem ocorrido. No ano passado, essas áreas tiveram, juntas, despesas com propaganda da ordem de R$ 4 milhões. Os gastos também se concentraram nos últimos meses do ano.

Ficam ainda de fora do cálculo os gastos com propagandas das estatais. A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), por exemplo, gastou, só em dezembro de 2005, quase R$ 3 milhões em propagandas -os gastos também se concentraram no final do ano.

Outra empresa do governo que tem gastos elevados com publicidade é a Nossa Caixa. O banco, porém, prefere não divulgar os valores mensais de 2005, afirmando se tratar de informações financeiras sigilosas.

Obras do Tietê

Nos últimos dias o Estado passou a veicular em emissoras de TV uma peça publicitária sobre a conclusão das obras no rio Tietê. Trata-se de uma das principais bandeiras do governador, que deve usá-la na campanha para tentar derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Segundo a Secretaria de Comunicação de Alckmin, os gastos com essa campanha devem ficar em torno de R$ 1,3 milhão. As peças sobre o Tietê serão exibidas em todo o Estado de São Paulo.’



***

Secretaria nega caráter eleitoral de publicidade

‘A Secretaria de Comunicação do governo Geraldo Alckmin alega que o aumento de gastos no final do ano se deve ao fato de a administração estadual fazer campanhas de prestação de contas.

Em 2005, além dos gastos normais, houve campanhas educativas para a prevenção da febre aftosa no interior do Estado. Sobre a concentração de gastos entre agosto e setembro de 2004, ano em que José Serra disputou a prefeitura paulistana, a secretaria alega que o gasto ocorreu por causa de uma campanha intitulada ‘Respeito Pela Gente’. Nega que tenha caráter eleitoral.

Já sobre os R$ 11,2 milhões liquidados no final do ano passado, a alegação é que o valor reflete o acúmulo de pagamentos de dois meses: dezembro de 2005 e janeiro de 2006 (mês que teve liquidação zero, de acordo com o Sigeo, o sistema de execução orçamentária do Estado). A secretaria afirma que os gastos da administração Alckmin com publicidade são os menores do setor público brasileiro: ‘Especialmente quando se considera que o governo de São Paulo leva informação de interesse público para um universo de 40 milhões de cidadãos e lida com os maiores custos de mídia do país’.’

Elio Gaspari

‘Banho de ética’? Use sabonete internet

‘O candidato do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin, oferece ‘um banho de ética’ à política nacional. Ele poderia começar a limpeza anunciando que colocará a contabilidade de sua campanha na internet, desafiando Lula a fazer o mesmo.

O PSDB e o PT sabotaram uma iniciativa nesse sentido, patrocinada pelo PFL. Argumentam, com alguma razão, que a divulgação dos nomes dos doadores durante a campanha inibe a ajuda de simpatizantes sinceros.

(Delúbio Soares já disse que ‘transparência assim é burrice.’)

Alckmin pode propor a Lula o seguinte:

1) Os dois candidatos divulgam semanalmente todas as doações, identificando o boleto e a data do depósito. Coisa assim: dia 20 de agosto, doação de R$ 10 mil, bilhete nº 123.456. O nome do doador fica preservado até a noite do dia 3 de outubro. Fechadas as urnas, abrem-se os nomes. Esse é o pedaço menos relevante. Pelo sistema atual, os nomes dos doadores são conhecidos poucos meses depois da eleição.

2) Muito mais importante é a divulgação das despesas. A exposição dos gastos permite que se detectem os efeitos do caixa dois e impede a propagação de lorotas. Exemplo: na sua prestação de contas de 2002, Lula disse que gastou R$ 21 milhões, dos quais R$ 7 milhões pagaram ‘produções audiovisuais’ (leia-se Duda Mendonça). Admitindo-se que o marqueteiro tenha comido todos os lanches da campanha (R$ 23 mil) e que tenha ficado com tudo o que ‘nosso guia’ gastou em cachês, honorários e serviços de terceiros, chega-se a um total de R$ 8 milhões. A cifra não faz sentido, é um elefante de 200 gramas. Para ter uma idéia da escala eleitoral dos companheiros, Duda transferiu ilegalmente para a conta Dusseldorf cerca de R$ 10 milhões.

Alckmin e Lula podem chegar a um compromisso pelo qual divulgam suas despesas protegendo (até o dia seguinte à eleição) aspectos do sigilo comercial dos fornecedores. Se quiserem, é possível chegar a um acordo em benefício da moralidade e da transparência. Se um quiser, faz sozinho. Se ninguém quiser, tudo bem, mas o banho fica para depois.’



PUBLICIDADE
Gary Silverman

Oliver confunde marketing e entretenimento

‘DO ‘FINANCIAL TIMES’ – Os tempos são assustadores para os anunciantes. Novas tecnologias como os gravadores digitais de vídeo estão dando aos consumidores a capacidade de evitar mensagens de marketing, e isso significa que a publicidade do futuro terá de fazer mais.

Não será mais suficiente que as empresas interrompam programas de televisão para informar os telespectadores sobre seus produtos. Elas terão de produzir comunicações de várias espécies, que sejam tão divertidas ou de tamanha utilidade que os consumidores na verdade desejem assisti-las.

É uma empreitada difícil, mas não impossível, como vem demonstrando Jamie Oliver, 30, que ganhou celebridade com seus programas de culinária.

Ele vem produzindo uma combinação de ativismo social, entretenimento e publicidade tão poderosa que se tornou uma das figuras mais populares do Reino Unido.

Oliver é um proprietário de restaurantes que vem produzindo há anos uma série de livros de culinária e programas de televisão muito populares, cuja peça central é a idéia de que não existe nada tão bom quanto produtos alimentícios britânicos frescos.

Mas sua ‘pièce de resistance’ foi uma série de programas exibidos pelo Channel 4, no ano passado, sob o título ‘Jamie’s School Dinners’, que retratavam seus esforços para melhorar a qualidade da comida nas escolas públicas do Reino Unido.

Presença política

Filmados ao estilo de documentários, os programas obtiveram sucesso de audiência e exerceram importante impacto cultural, garantindo a posição de Oliver como figura política e solidificando seu status como porta-voz publicitário muito bem remunerado.

Enquanto políticos como o primeiro-ministro Tony Blair corriam para demonstrar sua preocupação quanto à qualidade da comida nas escolas, a cadeia de supermercados Sainsbury’s renovava seu contrato com Jamie Oliver, que continuará a representar a empresa pelo sexto ano consecutivo, por um cachê anual superior a 1 milhão de libras.

A agência de publicidade que atende a cadeia de varejo, Abbott Mead Vickers BBDO, produziu uma campanha de marketing que ecoa a linguagem e o espírito da série ‘Jamie’s School Dinners’.

Como parte de seu trabalho para melhorar a qualidade das refeições escolares, Oliver distribuía aos alunos etiquetas que diziam ‘experimentei algo novo’. Agora, em nome da Sainsbury’s, ele está convidando os consumidores a ‘experimentar algo novo hoje’.

A capacidade de Oliver para parecer convincente nas duas funções é testemunha tanto do potencial dessa forma de comunicação quanto de seus limites.

Trata-se de uma situação de difícil reprodução. A estratégia de Oliver pode ser resumida como ‘deixar que Jamie seja Jamie’.

Em entrevista na sede da Sainsbury’s em Londres, Oliver disse que o processo que conduziu à série de televisão foi ‘muito simples. Fui ao Channel 4 e disse que queria conduzir uma campanha para mudar radicalmente a comida que servimos às nossas crianças nas escolas. Acredito apaixonadamente nessa causa. Qualquer coisa que envolva a palavra ‘apaixonadamente’ em geral atrai a atenção deles, porque sabem que, quando Jamie se apaixona por alguma coisa, isso pode resultar em algo valioso para eles’.

O sucesso da campanha de Oliver nas escolas suscita a questão quanto a uma possível colaboração entre Oliver e as equipes de marketing da Sainsbury’s, no Reino Unido, e da AMV, uma subsidiária do grupo Omnicom nos Estados Unidos, para conceber o projeto. Mas a seqüência dos eventos sugere que seu triunfo se deve em larga medida ao improviso, se não ao acaso.

Antiesnobe

No momento em Oliver estava deliciando as audiências de televisão com seus esforços para convencer crianças a comer algo mais saudável do que hambúrgueres e batatas fritas, a Sainsbury’s estava estudando encerrar sua colaboração com a AMV, que atendia sua conta há 25 anos.

Os últimos cinco anos desse período já incluíam Oliver como colaborador, recrutado depois que uma campanha anterior da Sainsbury’s para veicular receitas pela televisão foi considerada como ‘esnobe demais’, diz Peter Souter, vice-presidente do conselho da AMV.

Ao convidar a JWT para disputar a conta com a AMV, a Sainsbury’s parecia ela mesma disposta a experimentar algo novo.

Ambas as agências foram convidadas a propor idéias para a ‘evolução da marca Sainsbury’s’, de acordo com Gwyn Burr, diretora de serviços ao consumidor. Era a espécie de disputa que a agência titular de uma conta costuma perder, de acordo com os analistas.

A AMV concentrou sua proposta nos números. Uma loja típica da cadeia Sainsbury’s tem em estoque cerca de 30 mil itens, e o comprador médio adquire apenas 120 deles. A AMV calculou que, se os compradores fossem persuadidos a adquirir um item a mais, a Sainsbury’s seria capaz de atingir suas metas de crescimento no faturamento por unidade.

A idéia poderia funcionar sem Oliver. Mas, à medida que a proposta se desenrolava e a popularidade dele crescia, a AMV decidiu amarrar sua idéia a Oliver, e ‘teve muita sorte’ porque o homem que escolheu ‘virou santo’, de acordo com Souter.

Ao mesmo tempo, a Sainsbury’s se beneficiou de um exemplo acidental daquilo que o pessoal de publicidade vem designando como ‘branded content’ [conteúdo vinculado a marca].

Trata-se de um primo mais sofisticado da velha idéia do merchandising, sob qual produtos são exibidos durante um programa, e atrai mais atenção dos executivos, muitos dos quais acreditam que merchandising à moda tradicional irrita os consumidores.

O objetivo dessa nova tendência é criar personagens, em programas de entretenimento, que atendam a necessidades de marketing. ‘Jamie’s School Dinners’ demonstra que a idéia é factível, ainda que, nesse caso, o sucesso se deva provavelmente ao acaso.

‘Não sabíamos que Jamie evoluiria nessa direção’, diz Souter. ‘Nós tivemos sorte com um ou dois programas que vinculavam conteúdo à marca.’

A variável interessante nesse relacionamento é que ele parece funcionar com base na idéia de que Oliver mantenha certa distância da Sainsbury’s.

Ele visita a empresa regularmente e a cada mês oferece seus conselhos quanto a novos produtos, prestando atenção a detalhes tão específicos quanto o tamanho do moedor usado para moer carne de porco para salsichas.

Oliver também gosta de deixar claro que seu relacionamento com a Sainsbury’s foi crucial para seus outros projetos.

O dinheiro que ele recebe do supermercado permite que ele produza programas de televisão -não só ‘Jamie’s School Dinners’ como ‘Jamie’s Kitchen’, série na qual ele treinou 15 jovens pobres para trabalhar no Fifteen, seu restaurante em Londres.

‘Eu normalmente banco esses projetos’, diz. ‘Se não fosse a Sainsbury’s, para ser franco, eu jamais teria conseguido abrir o Fifteen e tampouco teria conseguido conduzir a campanha escolar. Não teria dinheiro suficiente.’

Mas ele também gosta de enfatizar que não pretende se aproximar demais da Sainsbury’s. Quando Jamie está sendo Jamie, ele interpreta o papel do cético, do homem que desconfia do sistema. ‘Minha relação com o público se baseia na honestidade’, diz. ‘Eu não minto. Se digo que algo é bom, sempre é.’

No momento, só existe um Jamie Oliver. A questão para o setor de publicidade de marketing é determinar se será possível criar novos Olivers.’



TELEVISÃO
Daniel Castro

Seu Creysson ‘negocia’ candidatura em 2006

‘Depois de apenas três semanas de férias (por causa das filmagens de um novo longa, em janeiro e fevereiro), os humoristas do ‘Casseta & Planeta’ voltam amanhã a gravar. O programa retorna à Globo no próximo dia 4.

Segundo Reinaldo (que interpreta Devagar Franco, Rubinho Pé de Chinelo e Ótima Bernardes), os carros-chefes da temporada 2006 do programa serão a Copa do Mundo e as eleições.

À Alemanha, serão enviados quatro cassetas _ou ‘quatro Ronaldinhos’. Será o retorno do programa a uma Copa _em 2002, eles não se ‘classificaram’.

A grande estrela da campanha eleitoral do humorístico será Seu Creysson (Claudio Manoel). A Folha apurou que ele será, sim, candidato à Presidência da República, embora seus ‘assessores’ escondam o jogo. ‘A candidatura ainda depende das coligações. Estamos estudando propostas’, brinca o ‘assessor’ Reinaldo.

Os cassetas também farão piada do astronauta Marcos Cesar Pontes. ‘Vamos mandar um de nós ao espaço’, adianta Reinaldo.

Também farão parte do repertório do ‘Casseta’ de 2006 uma versão do Pan-2007 (os ‘Jogos Pançamericanos’, para gordos), o quadro ‘Caçadores de Micos’ (sátira de ‘Caçadores de Mitos’, do ‘Fantástico’), a gripe aviária e o desenho animado ‘Pintinho Pinto Little’ (do filme ‘O Galinho Chicken Little’), sobre ‘portadores’ de pênis pequenos.

OUTRO CANAL

Talentos 1 A Globo não vai dar moleza para a Record, que assedia seu elenco. Jovens atores que estão se destacando em novelas ainda no ar estão fechando com a emissora novos contratos de três anos de duração. Assim, não poderão migrar já para a concorrente.

Talentos 2 São o caso de Marina Ruy Barbosa (Sabina) e Paola Oliveira (Giovana), de ‘Belíssima’. Paola, aliás, estreou numa novela da Record (que a emissora prefere esquecer), ‘Metamorphoses’. Recém-revelados em ‘Alma Gêmea’, Sidney Sampaio e David Lucas também serão da Globo até 2009.

Talentos 3 A lista dos que acabam de assinar por três anos com a Globo se completa com Emilio Orciollo Netto, Pedro Neschling, Thiago Rodrigues, Graziella Schimitt, Rita Guedes e Irene Ravache.

Money O SBT vai exibir neste ano uma série de documentários, em comemoração aos seus 25 anos. Mas o único custo que a rede de Silvio Santos terá será com a geração das imagens. Os documentários, produções independentes, serão bancados por incentivos fiscais, com apoio do Ministério da Cultura.

Retorno A revista ‘Monet’, dirigida a assinantes da Net, vai mudar sutilmente a partir de abril. Continuará ‘classuda’, mas será mais voltada à programação dos canais. Textos sobre beleza, viagens, carros e vinhos perderão espaço.’

Laura Mattos

Garotos em guerra

‘O ‘Fantástico’ desta noite será tomado por 16 meninos que trabalham para o tráfico de drogas. O programa da Globo exibirá um documentário de 58 minutos sobre jovens operários do crime, marcado por cenas da intimidade de crianças com metralhadoras, granadas, maconha e cocaína.

‘Falcão – Meninos do Tráfico’ resulta de 217 horas de imagens captadas pelo rapper carioca MV Bill e seu empresário, Celso Athayde, ao longo de seis anos, em favelas de vários Estados.

Falcão é o nome dado aos que têm a função de vigiar a favela e avisar os traficantes quando a polícia ou qualquer outro ‘inimigo’ se aproximar. ‘Falcão não dorme, ele só descansa’, explica um deles.

Dos 16 personagens centrais, 15 foram assassinados e tiveram seus enterros registrados pelas câmeras. O sobrevivente chegou a ser empregado pelos produtores, mas voltou ‘à atividade’ e, de acordo com as últimas informações obtidas por eles, está preso.

O objetivo agora é encontrá-lo para uma nova fase de gravações, já que, em 12 de outubro, Dia da Criança, ‘Falcão’ será lançado nos cinemas em forma de longa-metragem. Também faz parte do projeto ‘Meninos do Tráfico’ o lançamento de um livro, amanhã, com os bastidores das filmagens, e de um CD de MV Bill, em maio.

‘Falcão’ vai ao ar num momento em que se discute a ocupação dos morros cariocas pelo Exército e, por isso, em hora ‘oportuna’, segundo Athayde. Apesar de ter sido registrada pelo documentário bem antes disso, a declaração de um garoto com arma em punho é reveladora: ‘Pode vir alemão, Aeronáutica, Exército, Marinha, o que for, que nós ‘vai’ cair pra dentro. Nós ‘tem’ que proteger os moradores, nosso morro, nossa favela’. A cena está num trecho de três minutos ao qual a Folha teve acesso.

Segundo Athayde, a média de idade dos garotos retratados em ‘Falcão’ é de 16 anos, 90% deles não têm pai e já têm filhos. ‘Isso quer dizer que, como os meninos já morreram, essas crianças também não terão pais. Estamos vivendo um genocídio.’

Voz infantil

Os meninos estão à vontade diante da câmera de Bill, que já foi ‘do ramo’ e diz ter sido ‘salvo’ pelo hip hop, e de Athayde, também membro da comunidade. A eles, os garotos respondem sem medo aparente sobre propina à polícia, assassinatos, drogas, vida e morte. Com voz ainda infantil, pronunciam frases como ‘Nunca fico triste com nada, sempre tô ‘se’ drogando’, ‘Quando crescer, quero ser bandido’ e ‘A realidade da vida é que o bagulho é doido’.

O material é legendado e traz a tradução de gírias, como ‘arrego = propina’. Algumas poucas cenas foram gravadas em câmera VHS, mas a maioria é digital. Os ambientes são escuros e, em razão do risco, nada foi feito com grandes equipes, como as da TV.

Em alguns casos, os próprios meninos registravam imagens ou colaboravam com a produção ao posicionar o microfone de lapela em suas metralhadoras.

O documentário não tem narração, e o ‘Fantástico’ exibirá na seqüência os 58 minutos (metade da duração do programa, descontando os comerciais). Serão três blocos, cortados apenas por intervalos e não por outras reportagens. Há 33 anos no ar, o dominical jamais dedicara tanto espaço a uma produção independente.

Desentendimento

O documentário é o mesmo que, em 2003, foi objeto de desentendimento entre os produtores e a Globo (a nova versão tem apenas o acréscimo de mais três minutos). Bill e Athayde haviam autorizado a emissora a veicular o material, editado em parceria com a equipe do ‘Fantástico’.

A exibição chegou a ser divulgada na TV no domingo anterior e em anúncios de jornais. Mas, às vésperas do programa, o rapper e seu empresário suspenderam a autorização, alegando ‘questões de foro íntimo’. À época, especulou-se que teriam recebido ameaças de traficantes e que houve divergências em relação à edição. Em nota, a Globo falou em ‘enorme prejuízo financeiro e moral’.

Três anos depois, Athayde dá a sua versão: ‘As pessoas começaram a imaginar uma série de coisas, mas não foi nada mais do que a emoção do Bill em relação às mortes dos jovens e a incerteza de que aquele era o momento exato’.

Segundo Athayde, em 2003, ‘o documentário iria ao ar e nada mais iria acontecer’. ‘A gente ia ficar famoso e só. Seria um gesto irresponsável. Hoje estamos preparados para argumentar e fazer o país refletir de maneira mais objetiva sobre o assunto.’

Para ele, apesar do prejuízo financeiro mencionado pela Globo, ‘essa não é uma questão de negócio, mas de contribuição ao entendimento da realidade das favelas’. Athayde afirma que a Cufa (Central Única das Favelas), entidade da qual Bill é líder, absorverá os lucros com o projeto ‘Falcão’ (a exibição no ‘Fantástico’ não será paga, segundo eles, mas o faturamento virá com a venda do livro, do CD e com o cinema).

Desta vez, a emissora se cercou de cuidados para não colocar novamente em jogo o nome de um de seus programas de maior audiência, com mais de 24 milhões de telespectadores no Brasil.

Apesar de Luiz Nascimento, diretor do ‘Fantástico’, afirmar desconhecer a existência de um contrato, Athayde revelou à Folha que ele e MV Bill assinaram um compromisso de exibição.’

Marcos Augusto Gonçalves

Quem vamos convocar a seguir? Rambo?

‘O documentário que o ‘Fantástico’ exibe hoje, sobre o envolvimento de crianças e adolescentes com o tráfico de drogas, dificilmente deixará de chocar os milhões de espectadores da Globo. É possível antever reações fortes. Quem sabe, até notícias no exterior.

A estupidez que a ‘lei’ do narcotráfico impõe ao cotidiano das favelas cariocas e de outras áreas pobres do país já é conhecida, mas será mostrada em sua face mais cruel e intolerável, que é o aniquilamento da infância. ‘Cidade de Deus’ enfocou o assunto, mas em se tratando de documentário -e não de uma obra ficcional- a tendência é que o impacto seja ainda mais potente.

É bom que a sociedade se choque com essa realidade estúpida que se ergueu sobre a incompetência e a corrupção dos poderes públicos. A pressão social é um elemento importante para que as coisas possam mudar.

A questão é saber para que tipo de mudança esse sentimento de saturação será dirigido. A falta de visão e a torturante incapacidade dos governantes de formular e implantar um projeto de restauração da cidadania e do Estado nos territórios ocupados pelo tráfico têm inclinado setores da população a projetar o alívio do problema em ações militares -já que as policiais se mostram pouco eficientes.

A exibição do documentário na seqüência da operação do Exército no Rio talvez reforce o apoio a novas intervenções semelhantes.

As Forças Armadas têm um papel a cumprir no processo de restauração -ou de implantação- da República nessas áreas controladas pelo narcotráfico. Mas apenas se esse papel estiver inscrito no contexto de um projeto maior, que de fato faça sentido.

A repetição pura e simples do teatro (em todas as acepções) de guerra a que temos assistido, poderia levar à contaminação pelo tráfico de setores militares (o que, aliás, já vai ocorrendo) e à posterior constatação de que o Exército por si só não irá resolver a questão. Se a população, já descrente da polícia, não tiver suas expectativas atendidas pelas invasões militares, quem chamaremos a seguir? Mr. Rambo?’

Marcelo Bartolomei

Manias de Monk chegam à 4ª temporada

‘Em sua quarta temporada na TV paga, o detetive atrapalhado, porém eficiente, Adrian Monk (Tony Shalhoub) mostra que tudo é possível na TV -compartilhando da mesma teoria de seriados americanos de sucesso como ‘Lost’ e ‘24 Horas’.

Imagine: além de conviver com o TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), ele sofre de amnésia num episódio após ser atingido na cabeça. Ao ser levado para uma pequena cidade ao lado de San Francisco, onde tradicionalmente ocorre a ação da série, Monk sabe que só bebe uma marca de água, mas não lembra qual; percebe que tem medo de altura, mas não imagina o motivo; sabe que não sai por aí apertando a mão de todo mundo na rua, mas acha isso estranho.

Novos episódios do humorístico estréiam no Universal Channel na próxima quarta-feira (às 23h). Na TV aberta, a Record exibe, às sextas (às 23h15), a primeira temporada. Entre os episódios inéditos, o de estréia, ‘Mr. Monk Goes to a Fashion Show’ (Sr. Monk vai a um desfile de moda), também mostra o quão o personagem pode ir longe, ao tentar tirar o filho de uma costureira de uma grande indústria de confecções da cadeia. Sua ligação ‘afetiva’ com a costureira existe porque ele só compra camisas produzidas por ela -identificadas no número de série da etiqueta- e nas mesmas cores e com as mesmas listras. E, de repente, percebe que elas estão todas com pequenos defeitos.

Vida longa

Tão popular por seu ‘estranho’ personagem nos EUA, Shalhoub -consagrado com dois prêmios Emmy de ator de comédia e com um Globo de Ouro- disse, em entrevista, que a série tem garantidas mais duas temporadas, cada uma com 16 capítulos. Agora que ele também é produtor da série, começou a gravar a quinta temporada em fevereiro, em Los Angeles, e a sexta ainda está no papel, mas seu contrato foi assinado.

‘Uma das coisas que funciona é que somos capazes de encontrar o tom a cada episódio, que se torna mais denso e escuro. A maioria das séries é seqüencial, mas Monk não, pois cada episódio pode ser assistido separadamente. Eu acho também que o personagem ganha o público por ter muitos obstáculos para vencer e sempre consegue. Desafios e pessoas com dificuldades chamam a atenção do público’, avalia o ator.

‘O personagem já virou gíria. Tem gente que diz que está num momento Monk. Já ouvi gente falar: ‘Ah, hoje eu estou meio Monk’. Eu nunca me imaginei como ele, mas atualmente tenho percebido que hesito em apertar a mão de algumas pessoas’, conta o ator de 52 anos e uma lista grande de filmes (‘Homens de Preto 2’ e ‘Contra Tudo e contra Todos’, entre outros) e algumas participações televisivas na carreira.

‘Acho que todo mundo tem uma coisa ou outra que o faz distrair durante um momento em que deveria estar concentrado. Ou alguma mania. Não posso ir para a cama se minha cozinha não estiver completamente limpa, para que eu acorde e encontre tudo perfeito no dia seguinte’, diz Shalhoub, se divertindo com seu jeito Monk de ser. No entanto, ator acha que com ‘Monk’ e outros seriados ou filmes, o público reconheceu que é preciso tratar o TOC, mas que a maior dificuldade ainda é identificar a doença.

A série é dividida em duas partes nos EUA, onde é apresentada no canal USA Network, com os episódios exibidos em lotes de oito capítulos cada um, maneira escolhida para exibição aqui também. Segundo Shalhoub, um romance, campo tão inexplorado na vida de Monk, deve ser o próximo investimento do seriado.’

Lúcia Valentim Rodrigues

‘The Closer’ recicla tabu feminino na delegacia

‘‘The Closer’ não cria, prefere reciclar. A série, que estréia hoje na TNT, explora o velho tabu da chefe mulher num universo essencialmente machista. A loira Brenda Johnson (Kyra Sedgwick), treinada pela CIA e vinda de outra cidade, chega para assumir o comando do departamento de homicídios de Los Angeles. Em meio a um bando de homens, ela vai ter de rebolar (ainda que não literalmente) para ser respeitada.

O título do programa remete à própria Brenda, considerada uma ‘fechadora’ de casos, que arranca com destreza e inteligência as confissões dos culpados.

Os fãs da franquia ‘CSI’ vão sentir falta das evidências sendo analisadas pela equipe, porque aqui o crime se desenvolve prioritariamente na cabeça da detetive, enquanto ela nos distrai com sua compulsão por doces e outras guloseimas supercalóricas. As dicas principais são reveladas aos poucos, em meio a conversas banais, num estilo que lembra os romances de Agatha Christie.

Mas não faz jus à inspiração com que acena a ‘CSI’, esse, sim, um seriado inovador no formato e no desenvolvimento dos personagens, que segue sem substituto nem competidor na TV.

A agente Brenda vai fazer o estilo ‘linha-dura’, como mostra um dos diálogos do episódio piloto: ‘Se eu gostasse de ouvir que estou fazendo drama à toa, ainda estaria casada’. Realmente, ela não faz questão de entrar no gênero de miss Simpatia. Contudo, ao investigar crimes de famosos, ela mesma se tornará uma celebridade e entrará no ritmo hollywoodiano, com vestidos e penteados.

É entretenimento honesto no mundo policialesco, com a variação de se passar em Los Angeles, que tem um funcionamento próprio de festas, alta sociedade e muito dinheiro rolando solto. E a série também vai brincar com a ética, ao revelar o envolvimento de Brenda com um homem casado (seu chefe no passado, que volta a contratá-la atualmente).

The Closer

Quando: estréia hoje, às 20h, na TNT (depois da estréia, episódios novos serão exibidos às ter., às 22h, e aos sáb., às 17h)’

Bia Abramo

‘Cidadão Brasileiro’ e a identidade nacional

‘Começou bem a nova novela da Record, ‘Cidadão Brasileiro’. A audiência foi OK (não ótima, não tem conseguido ‘segurar’ o que recebe de ‘Prova de Amor’), tem produção que acerta (mas erra também) e, ah, é uma novela de Lauro César Muniz, ao fim e ao cabo.

Muniz, nos anos 70, na Globo, escreveu alguns dos roteiros mais instigantes do período, como ‘O Casarão’ e ‘Escalada’, e, na virada dos anos 80/90, criou ‘O Salvador da Pátria’. É quase que o autor canônico do falecido padrão Globo de qualidade: tem perfeito domínio da narrativa melodramática, intuição para captar tipos humanos e perspicácia para dar um sentido histórico às sagas individuais.

Levou para Record o mesmo ímpeto, ao criar uma novela que se desdobra por 50 anos da história do Brasil e por três cidades (São Paulo, Brasília e a fictícia Guará).

A Record, na arrancada ‘rumo à liderança’, garante minimamente as condições necessárias para a história emplacar.

O que tem cheiro de dar errado em ‘Cidadão Brasileiro’ é a ambição da história e a intenção bastante clara de, por meio do protagonista Antônio, ensaiar uma interpretação das questões nacionais do últimos 50 anos.

O herói, ambíguo como convém nos dias de hoje, é talhado para representar o sujeito na luta pela ascensão social em um país refratário a qualquer projeto de construção que dure tempo o suficiente para se realizar.

Tudo isso parece muito interessante, e é, mas talvez não haja mais lugar na novela para uma história que exija tanto fôlego e dedicação. Não por uma questão de má educação (ou má vontade) da audiência, que acaba sendo culpada de tudo, mas por que, talvez tenha simplesmente se esgotado esse modelo.

De certo modo, a possibilidade de a novela oferecer um espaço imaginário de construção da identidade nacional talvez tenha se estreitado, se estiolado e, por fim, sido transferida para as minisséries paradidáticas. Como hipótese, talvez essa possibilidade só tenha podido existir plenamente quando havia um grupo de produtores/autores mais ou menos homogêneo em termos geracionais, que tenha partilhado cenários culturais mais coesos. A ver.

Muniz, entretanto, não é bobo e já se prepara para enfrentar as vicissitudes da audiência com humor (meio fácil, por ora) e, claro, sexo, num nível de ousadia inaudito para a emissora.

Agora, alguém precisa dizer a Lucélia Santos que interpretar uma balzaca (de 50, segundo o site da novela) meio vigarista, meio misteriosa, com voz de Lolita é um pouco bizarro. Gabriel Braga Nunes, carismático no papel de homem comum, é uma espécie de surpresa. E, talvez, gente como Paloma Duarte, que nunca foi muito bem aproveitada na Globo, encontre seu lugar ao sol na Record.’



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O Estado de S. Paulo – 1

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