Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Hamlet e a lógica

27/10/2009 na edição 561

‘Ser ou não ser, eis a questão.’ Esta frase do personagem trágico de Shakespeare define perfeitamente as contradições e dilemas do Jornal Nacional. Em 19 de outubro, o JN levou ao ar um verdadeiro exemplo de jornalismo hamletiano (ver aqui).

Ao fazer a cobertura do suposto conflito entre Lula e o presidente da mineradora Vale, o JN fez uma longa defesa da livre iniciativa empresarial contra a estatização da companhia. Vários líderes da oposição foram entrevistados (dentre os quais um ex-ministro de FHC) para ilustrar a impossibilidade do presidente da República interferir no cotidiano de uma empresa privada. Ao final da matéria foi exibida uma entrevista com Roger Agnelli. O administrador da Vale minimizou o conflito e disse:

‘O presidente está no papel dele. Ele tem que dar estímulo e cobrar para que o país continue crescendo. Ele é um craque neste ponto.’

A peça jornalística do JN é comparável a um ato de Hamlet e pode ser resumida nas seguintes proposições:

1. O presidente da República não deve interferir no cotidiano de uma empresa privada.

2. Lula quer interferir na administração da Vale e o administrador da companhia entende que o presidente está fazendo bem o papel dele.

3. Lula está errado ao interferir no cotidiano da empresa, mas o administrador da companhia diz que ele está certo. Portanto, Lula está errado e certo.

Contradições e politização

A lógica, coisa que Hamlet não tinha (ou aparentava deliberadamente não ter) é cruel. O formato adotado na matéria do JN comentada é absolutamente incoerente.

‘Incoerência é um conceito muito importante em lógica e na análise da argumentação. Tachar um argumentador de incoerente é uma forma muito forte de crítica ou condenação de sua posição. Um conjunto de proposições é incoerente quando permite a dedução de uma contradição através de argumentos válidos. Uma contradição é uma conjunção de uma proposição e sua negação’ (Lógica informal, Douglas N. Walton, Martins Fontes, 2006, 1ª edição, pág. 174).

Ao servir de palanque para a oposição, o JN sacrificou a coerência e sua credibilidade. O efeito desta politização do JN ainda pode ser perverso. Afinal, as contradições do JN e sua politização podem e devem ser utilizadas pela situação. Quando estiver sob um verdadeiro ataque do governo, o JN não terá como se defender de muitas das acusações que lhe forem lançadas.

Penso que os responsáveis pelo JN deveriam estudar Walton e rever Hamlet. Afinal, ao sacrificar a lógica para se vingar, o maior perdedor de Hamlet é o próprio príncipe da Dinamarca.

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Advogado, Osasco, SP

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