Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

TV EM QUESTãO > TELEJORNALISMO 2006

Haverá TV nova no ano novo?

Por Franklin Berwig em 02/01/2006 na edição 362

Carlos Drummond de Andrade, certa vez, escreveu sobre a genialidade de quem teria inventado o ano de 365 dias – um tempo suficiente para qualquer um entregar os pontos, segundo ele, mas conseguir renovar as esperanças. Sou daqueles que, no fundo, acredita que muita coisa pode mudar com a troca de calendário. No fundo, porque no raso, na seca realidade da nossa televisão, estou encalhado faz tempo.

Para alguém que procura diariamente nos telejornais algo novo, uma abordagem que de tão inédita faça pensar vendo TV, só resta mesmo apoiar-me em convenções. Os noticiários noturnos são os campeões da mesmice. No ano que passou, nem a chegada de grandes âncoras a novos canais, com uma parcial liberdade para a criação de formatos, despertou as emissoras para o problema. Pelo contrário: graças ao alcance que tiveram, parecem as ter afundado ainda mais.

Tanto o Jornal da Band, de Carlos Nascimento, quanto o SBT Brasil, de Ana Paula Padrão, se copiam. A escolha das mesmas pautas, às vezes do mesmo roteiro, torna os programas mais perecíveis do que reza a própria natureza televisiva. Sequer serve de consolo o fato de irem ao ar antes do Jornal Nacional: navegam por águas tão conhecidas do público que se esquecem de prestar a atenção para o que ele realmente espera.

Nem o rico jornalismo político pôde servir de campo para novas pautas. Se o assunto era mais uma descoberta sobre o valerioduto, lá estavam todos os correspondentes tratando, linearmente, sobre o assunto. Não seria problema se, rigorosamente, todos o fizessem da mesma forma.

Padrões editoriais

Por trás disso tudo há o bom, mas pouco inovador, padrão Globo de jornalismo. Ao mesmo tempo em que privilegia a clareza, a correção textual e a postura de seriedade do repórter perante a câmera, ele acaba engessando seus profissionais com esse oceano de regras. E aqueles poucos que conseguem fazer de cada matéria um mundo novo, não atendem aos requisitos anteriores.

Essa cultura cinematográfica do telejornalismo brasileiro, em que todo VT precisa iniciar com um choque e terminar com um afago, ainda pode cativar muita gente, mas cada vez menos, podem ter certeza. É tanto clichê que, só de pensar que estamos em ano de Copa do Mundo e de eleições – onde o próprio calendário serve de álibi para a lengalenga –, já bate uma tristeza. Lá vamos nós embarcar novamente em reportagens sobre o país-do-futebol-que-pára-quando-a-seleção-entra-em-campo e sobre os ‘lanches inusitados’ (sempre os mesmos, aliás) que fazem os candidatos, forçados a uma rotina estafante de campanha.

A idéia da mesmice está tão disseminada que nem neste livre artigo pude escapar da referência à troca de ano, uma verdadeira praga das pautas dessa época. Mas talvez seja apenas um sintoma da constante exposição ao imutável.

Repito que, no fundo, ainda acredito que vá mergulhar com prazer em matérias que atentem para o lado humano sem serem assistencialistas; ao lado trágico sem serem fatalistas; e ao lado cômico sem serem jocosas. A solução pode estar em alguém que trace um caminho diferente para as Índias – contar histórias e estimular o espectador.

Que o ano novo seja realmente novo, especialmente para a televisão.

******

Jornalista

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