Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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Honestidade na TV brasileira

Por Alexander Goulart em 02/03/2004 na edição 266

Algo de novo está no ar. Desde que passou a ser comandado por Clodovil, o mais polêmico apresentador da televisão brasileira, o programa A casa é sua (Rede TV!) tem nos brindado com momentos, no mínimo, inusitados. O diferencial do programa é o apresentador. Clodovil não aceita passivamente as convenções impostas pela nossa televisão. Sua rebeldia se manifesta através de um valor há muito esquecido pela mídia e pela classe artística: a honestidade.

Clodovil não engana a ninguém, nem a si mesmo. Diz o que pensa, mesmo que a mensagem respingue na própria emissora. Sua ousadia encanta o telespectador mais atento, aquele que percebe a ironia das palavras e dos olhares. Por vezes ele não é nada sutil – por exemplo, quando chamou Suzana Alves de infantil e profetizou que sua vida futura seria infeliz. Suzana não entendeu nada, apenas ficou com os olhos marejados. Mas o público perspicaz compreendeu que Clodovil falava a uma Suzana que não conseguiu sobreviver fora do mito da Tiazinha. O mesmo público que a elegeu rainha agora a abandonou. Era disso que o apresentador falava.

Por quanto tempo

Recentemente, ele criticou a palhaçada apresentada no programa de Luciana Gimenez, quando Inri Cristo bateu boca com o padre Quevedo. Clodovil disse, nas entrelinhas, que o espaço privilegiado da televisão não deveria ser usado para esse tipo de bobagem, que todos sabem não passar de uma farsa. Sua crítica à televisão não é velada, mas explícita. Por outro lado, ele mesmo afirma precisar de emprego e, por conseguinte, de audiência, então, é obrigado a fazer parte do lixo eletrônico em que se tornou a nossa televisão, de modo geral. Mas Clodovil não mente ao público; demonstra sua indignação em ter de abrir espaço para assuntos como Big Brother, por exemplo.

Honesto, não faz de conta que aprecia os inúmeros merchandisings do programa, ao contrário, mostra-se incomodado, mas declara que o dinheiro é necessário. E quem ele culpa pelo estado em que se encontra a TV? O público que aprecia a má qualidade e a superficialidade sensacionalista. Em parte, Clodovil tem razão, porém não pode esquecer da ineficiência administrativa e da pobreza criativa na maioria absoluta das emissoras brasileiras.

Resta-nos saber por quanto tempo Clodovil permanecerá no ar. A honestidade e a crítica não são bem aceitas num veículo que tanto preza a mediocridade e a auto-suficiência, como a televisão.

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