Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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ENTRE ASPAS >

Invente, tente, assista algo diferente

Por Fernando Schweitzer, de Buenos Aires em 15/09/2009 na edição 555

Me chamou atenção ao ler no jornal extra online a matéria de Leonardo Ferreira [09/09], sobre como estamos em um país de libertinagens e com zero de liberdade. Alheio ao fato, tardiamente me embasbaquei ao ler a seguinte nota:

‘O autor José Louzeiro prepara um livro sobre os bastidores da proibição de sua novela O marajá, que seria exibida pela Manchete em 1993. A trama contava com humor a trajetória de Fernando Collor e foi impedida de ir ao ar poucas horas antes da estreia. Mesmo sem ter visto nenhum capítulo do folhetim, o ex-presidente conseguiu impedir na Justiça a exibição, num caso claro de censura prévia. Ele teria se sentido ofendido pelo que nunca viu. Depois disso, as fitas sumiram. `A novela se perdeu em trambiques, com muito dinheiro envolvido. Acho que nunca veremos essa história´, diz Louzeiro.’

Um dos detalhes revelados no livro é que o próprio departamento comercial da emissora, segundo Louzeiro, ajudou a boicotar a novela. Sem que os autores nem o diretor da história (Marcos Schetman, que dirige hoje Caminho das Índias) fossem consultados, foi posta no ar uma chamada de O marajá considerada, mesmo nos dias de hoje, muito forte. Nela, uma enfermeira levava numa bandeja de prata supositórios com cocaína para o ex-presidente. A chamada foi o que alertou Collor, que logo depois entraria com uma ação para impedir a exibição da novela.

Um sotaque demasiado particular

Vendo os índices das novelas baixos hoje em dia, penso no que pode estar faltando para que as mesmas voltem aos patamares estratosféricos de anos atrás. Pois seja por falta de qualidade de atores, muitos meros seres que tiveram momentos íntimos com diretores de elenco, produtores e afins; seja por remakers de histórias batidas e que já tiveram milhões de versões como a colombiana Betty, a Feia, que no Brasil fora exibida a anos atrás pela Rede TV!, depois teve La Fea Más Bella exibida pelo SBT em versão dublada, na adaptação feita pela mexicana Televisa que hoje exibe pela tarde a versão original colombiana. Mas o pior é o que se passa hoje, neste momento temos Ugly Betty, versão americana realizada pela tradicional ABC, no ar pelo SBT. E ainda uma versão em horário nobre na Rede Record, Bela, a feia.

Mas quem pensa que a coisa está assim só no Brasil se engana quadradamente. A grande exportadora Televisa hoje tem como opção comprar roteiro de novelas argentinas e colombianas para diversificar os temas de sua novela, coisa que a Globo jamais fará por ego exacerbado. O último caso é a exitosa novela exibida pela rede Telefe e produzida pela Endemol/Underground em parceria com a emissora. Los exitosos Pells, que no México se chama Los Exitosos Pérez devido ao sobrenome Pells não existir no México. Novela essa que teve, segundo apontam alguns sítios portenhos, direitos de exibição comprados pelo SBT que exibira a partir de dezembro uma adaptação e tinha em mente para agosto a exibição da versão dublada, mas engavetou a exibição pensando na possibilidade de produzi-la.

A novela, que tem seis prêmios ‘Martin Fierro’, o principal da Argentina na área artística, englobando TV e teatro em seu rol de prêmios, quase não iria ao ar, pois era uma produção independente da Endemol argentina para o mercado latino, e não especificamente para a Argentina. A substituição, exibida às 22:00, de segunda a quinta-feira, como a maioria das novelas no país, teve como protagonista Carla Peterson, a mesma do sucesso La Lola, também já exibida no Brasil. Ainda em exibição existem versões na Espanha, Chile, Equador e México devido à compra depois de assistir ao piloto pela Telefe, mudança de atores que ocasionou uma porteñización, como trataram os meios do país, da trama e principalmente do sotaque e gírias utilizadas. Ocorre que o sotaque argentino é demasiadamente particular e utiliza até mesmo de tempos verbais distintos da maioria dos países de língua espanhola.

A fórmula do sucesso

Aqui temos na Rede Globo a antropofagia do horário das 6, como o remake de Paraíso e tantas outras, algumas raramente feitas por outras emissoras, como Mulheres de Areia, da TV Excelsior. Temos também lá Walcir Carrasco com a milésima novela que parece copiar o texto e piadas de suas próprias novelas anteriores. Glória Pérez com suas emboladas tramas sem rumo que se guiam mais pelas pesquisas de público da emissora do que pela intuição e suposto talento da autora. Isso vem constatar a dura realidade de que o povo consome muitas vezes mesmice com roupa nova. A questão é de quem sabe melhor disfarçar isso.

O SBT tem um redundante fracasso com a adaptação de Vende-se um véu de noiva, de Janete Clair, novela escrita inicialmente para o rádio. Talvez aí o grande problema. Não acredito que o canal tenha reambientado dramaturgicamente para a linguagem de TV a obra, e sim, meramente atualizado poucas coisas da história e filmado os diálogos.

Foi-se o tempo da foice em que o novo era o que mais vendia. Hoje a sociedade está pasteurizada e com lomba de pensar. O que vende hoje é a repetição. Como citação ilustrativa de um sábio que há muito percebeu o quanto o povo se deixa levar irracionalmente pelos meios de massa: ‘Quer fazer sucesso? É só repetir qualquer coisa no cocuruto do povo…’, em Gota d´água, de Chico Buarque, onde uma personagem aconselha o sambista Jazão, ensinando-lhe a fórmula do sucesso.

Bons títulos

Poder Paralelo é um retumbante fracasso de Ibope, hoje com média de 5 pontos a 7, no máximo. O detalhe é que a produção e trama são impecáveis. Ainda o elenco conta com monstros da interpretação, como Beth Coelho e Antonio Abujamrra dentre vários outros. E mesmo assim, Caminho da Índias, com a ‘atriz profissional’ Juliana Paes, sabe Deus como se formou, batendo recordes de audiência.

Acredito piamente que O marajá deveria ser refeita, hoje em dia se faz e se refaz tanta porcaria que seria de muita valia. Ou isso ou fazer uma novela em estilo grande épico, como Cidadão Brasileiro, de Lauro Cezar Muniz, onde as personagens foram retratadas pelos mesmos atores dos 20 até a morte – alguns, claro. Se não sobre Collor, talvez sobre seu antecessor, hoje envolvido em alguns escândalos, nosso querido José Sarney. Creio que vou registrar dois nomes possíveis: 1) Brasileiros e Brasileiras; 2) Planos Cruzados. E no caso Collor: ‘Impeachment, por que?’; ‘Caçador de Marajás’, ‘O Confisco’, ‘Cadê minha poupança?’… Mas um que me interessaria muito que fora aprovado por alguma emissora é ‘Ressurreição’: afinal de contas, nosso ex-mal-presidente é senador eleito.

Se alguém me contratar me junto a um par de colaboradores, escrevo uma novela. Bons títulos, já tenho.

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Ator, diretor teatral, cantor, escritor e jornalista

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