Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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ENTRE ASPAS >

Leila Reis

16/03/2004 na edição 268

‘Depois de 15 anos, Paulo Betti saiu da Globo para fazer cinema. Na próxima semana volta ao vídeo como um agente policial incorruptível e romântico na novela Metamorphoses, que estréia neste domingo, na Record.

Produzida fora da emissora, a novela é, para o ator de 51 anos, uma aventura que pode abrir mercado de trabalho para atores e técnicos e gerar uma boa concorrência: ‘Gosto de jogar na segunda divisão para tentar levar o time para a primeira’. No intervalo de uma gravação em Santana do Paranaíba, Betti falou com o Caderno 2 sobre TV, cinema e inquietude.

Estado – Por que você saiu da Globo?

Paulo Betti – Tinha um contrato longo, de 15 anos, mas pedi para sair para fazer o meu filme.

Estado – Não teve medo?

Paulo – Claro. Fiz análise esses dois anos para saber se eu não tinha ficado louco. Mas o medo, se não for muito grande, é bom, dá uma temperada na vida.

Mas eu queria fazer o filme. Ou você acredita em seus projetos ou fica imobilizado. Eu sou meio inquieto.

Estado – Como é esse filme que tirou você da Globo?

Paulo – Chama-se Cafundó. O argumento é meu e o roteiro é de Clóvis Bueno, que assina a direção comigo. É sobre um líder carismático, João Camargo, um ex-escravo que viveu na região onde nasci, perto do Sorocaba. Morreu em 1942, aos 84 anos de idade. O protagonista é Lázaro Ramos. No elenco estão Leandro Firmino da Hora e Alexandre Rodrigues (ambos do elenco de Cidade de Deus), Leona Cavalli, Francisco Cuoco, Luís Mello. Está em fase de montagem e, até o final do ano, estréia. Foi investimento pessoal grande, mas não me arrependo, foi um aprendizado enorme. Como esta grande aventura da qual estou participando, chamada Metamorphoses.

Estado – Por que aventura?

Paulo – Porque é uma produção independente, uma novela feita fora de uma emissora. É um novo conceito dentro da TV brasileira. A Record teve a coragem de embarcar nesta aventura. Acho participar dela muito saudável. Eu estava há 18 anos morando fora de São Paulo e estava com saudade. Trabalhar com a Tizuka Yamasaki é maravilhoso. Gosto de jogar na segunda divisão para tentar levar o time para a primeira.

Estado – Antes da Record você esteve em negociação com o SBT para trabalhar em ‘Canavial de Paixões’. O que não deu certo?

Paulo – Fazer novela traduzida é chato, não gostei e por isso não topei.

Diferente de Metamorphoses, que tem texto original e é uma ousadia. Gravamos com câmera de alta definição como se fosse cinema. Temos três grandes diretores de fotografia, as cineastas Tizuka e Tânia Lamarca. É uma produção sofisticada. Além do mais, trabalho com Myriam Muniz, a melhor atriz brasileira que foi minha professora na Escola de Artes Dramáticas (EAD) e Gianfrancesco Guarnieri, fundador do Arena.

Estado – Como é o seu personagem?

Paulo – Faço um agente da Polícia Federal sério, incorruptível, que vai investigar os crimes da máfia japonesa. Ele começa solitário mas vai se envolver com a personagem de Francisca Queiroz, que vai cuidar do filho dele. Mora em um sítio, mas depois vai para a cidade. Estou torcendo para que dê certo, porque a TV precisa de uma concorrência boa no campo das novelas, porque abre mercado de trabalho. É bom para os atores, para o público, para todo mundo. Muita gente de dentro da Globo está torcendo para o projeto dar certo.

Estado – Por que o brasileiro gosta tanto de novela?

Paulo – As novelas têm lances rocambolescos, mas também mostram situações parecidas com que o telespectador vive no seu cotidiano. Antônio Cândido diz que é necessidade fundamental do ser humano consumir histórias simuladas.’



Carol Knoploch

‘De boas intenções ‘Metamorphoses’ está cheia’, O Estado de S. Paulo, 14/03/04

‘As pretensões da Record são altas: beliscar a audiência da Globo.

Assim, ao voltar a investir em novela, anuncia que optou por inovação em vez de imitação. Metamorphoses entra no ar hoje (20 horas), um domingo, com pretensões de cinema e misturando reality show com folhetim – o elenco inteiro assistirá à estréia no Teatro Record. A direção-geral é da cineasta Tizuka Yamasaki, que assina Gaijin, seu primeiro e mais famoso longa. Ela grava em quatro frentes, cada qual com o seu mentor – todos do cinema, como Tânia Lamarca – e apenas uma câmera.

O objetivo é tirar a novela da cidade cenográfica. Para este time, Tizuka convidou a badalada Fátima Toledo, que fez a preparação de elenco (atores e não atores) de Pixote, Cidade de Deus, Central do Brasil, Desmundo, Boleiros, Dois Córregos, entre outros, e que agora está com Wagner Moura e Lázaro Ramos em Cidade Baixa.

‘Não ensino nada. Estou junto com os atores para que eles descubram possibilidades dentro de um projeto. Meu trabalho no cinema não é de atuação. É exatamente o contrário. A minha proposta é fazer com que os atores não interpretem e sim vivam eles mesmos os papéis. É potencializar as sensações que os atores têm, tirar as máscaras. Atuar, para mim, é viver uma situação com verdade, uma situação que não é sua’, explica Fátima, para quem esta proposta é inédita na televisão. Explica que o que faz não está relacionado a clínicas para se adaptar a uma determinada profissão, aprimorar um sotaque ou aprender uma nova língua.

De acordo com ela, o elenco de Metamorphoses está experimentando seu método desde dezembro – exceto Paulo Betti, que viverá Marcos Ventura, um policial honesto. Citou Luciene Adami (famosa médica Diana), Luciano Szafir (dr.

Lucas), Zé Carlos Machado (Carlos, marido de Diana), Domingos Meira (Diogo, filho de Diana), Talita Cardoso (Nina, namorada de Diogo) e Tallyta Cardoso (será ela mesma) como os ‘alunos’ mais assíduos. Acostumada a lidar com atores inexperientes e não atores, Fátima se questionou como os famosos iriam reagir à sua proposta. ‘Já havia trabalhado com o Stênio Garcia (Brincando nos Campos do Senhor) e com a Simone Spoladore (Desmundo), mas com um elenco inteiro de TV não. No início, há um certo caos porque é difícil entender a proposta. Faço eles buscarem dentro de si o que são. É um trabalho orgânico, sensorial, humano. O texto é a última fase. No cinema, nem trabalho o roteiro’, comenta Fátima. ‘A Luciene chegou desconfiada e depois se entregou. Acho que os atores vêm fazendo novela atrás de novela e isso mais parece funcionalismo público. Se acomodam, têm vícios. Isso sem contar os papéis que se repetem.’

Reality – Metamorphoses, que irá ao ar de domingo a sexta-feira e cujos anunciantes são Casas Bahia e detergente Ypê, terá como espinha dorsal uma clínica de cirurgia plástica. Logo no segundo capítulo, serão mostradas as imagens das verdadeiras operações de nariz e para a colocação de silicone da atriz Tallyta Cardoso. O mesmo ocorrerá com a ex-Miss Brasil/Beleza Internacional 92, Cristiane Rebello, que fez lipoescultura. Diferentemente de Tallyta, Cristiane não será personagem.

Segundo o dr. Ewaldo Bolivar de Souza Pinto, consultor para assuntos médicos do folhetim, outras várias operações serão exibidas, incluindo a do menino Daniel Nascimento Viana, de 5 anos.

‘Ele não queria ir mais para a escola porque os amiguinhos caçoavam muito dele’, conta a mãe de Daniel, Marilsa Luciano do Nascimento Viana, de 31 anos, sobre a dificuldade do filho em conviver com as orelhas de abano.

Cenas de Daniel com os amiguinhos antes e depois da cirurgia já foram gravadas. ‘Quando o irmão dele nasceu, há um ano, a coisa piorou. O Natan tem as orelhas perfeitinhas’, afirmou Marilsa.

Robson de Paula Viana, de 32 anos, foi quem conseguiu a cirurgia para o filho. Ele é frentista em um posto de gasolina perto da clínica do dr.

Ewaldo, em Santos. ‘Pedi para ele operar o meu filho. Só ganho R$ 500 por mês e não tinha condições de pagar. Nem com plano médico.’ Daniel, que teria de desembolsar R$ 12 mil para a cirurgia reconstrutora, mandou uma carta para a Casablanca, que é a responsável pela produção da novela, e Arlette Siaretta, a dona da produtora, resolveu ajudá-lo.

Arlette talvez seja a ‘personagem’ mais interessante, com mais histórias, deste folhetim. É dela a idéia do enredo, que mistura as cirurgias com o mistério de uma jóia, criação do francês George Bracque. Arlette, porém, não escreve uma só linha: senta-se à frente de um grupo de roteiristas, batizado de Charlote K., e diz o que quer no capítulo seguinte – esse time, aliás, deve ser mostrado no capítulo 5. Outro reality dentro da trama? Ninguém sabe.

José Louzeiro, assim como Mario Prata, já esteve à frente desta equipe e chegou a admitir ao Estado que era ele quem encabeçava a misteriosa equipe de ghostwriters. Mas, na semana passada, a reportagem já não conseguiu localizá-lo na produtora. Comenta-se nos bastidores que Louzeiro pulou fora e que até o capítulo 10 ou 15, as coisas vão mais ou menos: muito do que Louzeiro escreveu foi preservado. O problema é que os capítulos seguintes não estariam agradando ao elenco – que conta com Myriam Muniz (Aspásia, avó de Diana e Circe), Vanessa Lóes (Lia, meia-irmã de Diana e Circe e que oferece seu rosto a Circe para ser transplantado, imagine só), Gianfrancesco Guarnieri (dr. Eugênio, uma espécie de pai para Diana e Circe), Zezé Motta (Prazeres, anestesista da clínica), Joana Fomm (Margot, mãe de Tallyta), entre outros.

A Record nega que uma crise esteja tomando conta dos bastidores. Segundo a assessoria de imprensa da emissora, o diretor Artístico e de Operações, Del Rangel, vem acompanhando pessoalmente a edição dos capítulos. Por contrato, a Casablanca tem de entregar à Record 144 capítulos em HDTV (alta definição).’



Laura Mattos

‘Record declara guerra contra Globo com o ‘apoio’ da máfia japonesa’, Folha de S. Paulo, 14/03/04

‘Tudo tem jeito de completa piração da TV comandada pela Igreja Universal do Reino de Deus e seu bispo Edir Macedo.

A novela ‘Metamorphoses’ estréia na Record hoje -sim, num domingo-, mas as invencionices já estão no ar faz tempo. A começar pela escolha do nome, que só não supera a esquisitice de Silvio Santos e sua ‘Pícara Sonhadora’.

Mas isso é pouco perto do que a Record preparou a fim de tentar atrair os holofotes e roubar um pedaço da audiência da teledramaturgia da TV Globo.

Desta vez, a emissora usou e abusou de jogadas de marketing. Vai pegar carona na onda dos ‘reality shows’ e incluir na história imagens reais de duas atrizes sendo submetidas a cirurgias plásticas. As transformações físicas, aliás, são o eixo da trama e justificam o título -e até o ph de ‘Metamorphoses’ é para atrair a atenção do telespectador.

A empreitada marqueteira pautou também a inclusão de mafiosos japoneses na história, que irão protagonizar cenas de ação à la Takeshi Kitano, diretor do filme ‘Brother – A Máfia Japonesa Yakuza em Los Angeles’ (2000).

Nem a autoria de ‘Metamorphoses’ ficou de fora. A emissora inventou uma autora fictícia, Charlote K., e diz que irá revelar esse ‘mistério’ na própria novela.

Maluquice? Longe disso: ‘Tudo em ‘Metamorphoses’ -do nome à história- é feito para chamar a atenção’, explicita Del Rangel, diretor artístico da Record. ‘Estamos retomando o mercado de teledramaturgia. Como fazer barulho com mais uma novela?’

Outra arma será a tecnologia. Os 144 capítulos serão rodados em HDTV (TV em alta definição). É um recurso caro, que dá mais qualidade à imagem da televisão, aproximando-a do cinema.

Com o sistema, cada episódio não sairá por menos de US$ 40 mil, o que significa um custo total de US$ 5,76 milhões (cerca de R$ 17 milhões) para a novela.

Diante desse valor, não soa nada maluco o acordo feito entre a Record e a Casablanca, que produzirá a novela fora da emissora. Segundo a Folha apurou, foi assinado um contrato de risco, que vincula o pagamento da produtora ao desempenho da novela. Se ‘Metamorphoses’ for sucesso, a Record paga os US$ 40 mil/capítulo. Mas diminuirá o repasse se vier um fiasco. Quanto mais baixa a audiência, menor será a verba.’



Laura Mattos e Márvio dos Anjos

‘Operação reversível’, Folha de S. Paulo, 14/03/04

‘Uma das principais novidades propagadas pela Record sobre ‘Metamorphoses’ é o esquema de produção independente. Diferente da Globo -que construiu central de estúdios e cidades cenográficas para dar conta de produzir sua teledramaturgia-, a Record optou por deixar o trabalho com a produtora Casablanca.

O formato já é uma tendência nos Estados Unidos e na Europa e começa a ganhar espaço na TV brasileira. Mas não é exatamente com esses olhos ‘futurísticos’ que a Record enxerga a parceria.

O presidente da rede, Dennis Munhoz, disse à Folha que, se ‘Metamorphoses’ fizer sucesso, a emissora irá ampliar a teledramaturgia na programação -e voltar a produzir tudo em casa.

‘A partir do momento que notarmos que novela é o produto que estamos dispostos a fazer, que deu um bom retorno de audiência, começará a ser financeiramente viável produzir aqui. Se fizermos três, quatro novelas por ano, é mais viável ter essa estrutura de produção montada’, disse.

Ele afirmou que a decisão por produção independente se deve ao custo do projeto. ‘Se a gente fosse fazer aqui uma novela agora, o custo inicial seria muito maior, porque teríamos de investir em equipamentos, estúdios. Estamos fazendo um produto de ponta, no nível das novelas da Globo.’

A Casablanca detém a cara tecnologia de câmeras de alta definição, o que irá facilitar a exportação de ‘Metamorphoses’ para países que já possuem TV digital. Um deles é o Japão -o país da máfia inserida na história.

‘Temos uma boa perspectiva de venda. Além disso, a Record internacional já está nos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Portugal e outros países’, disse.

Fora isso, o esquema de produção independente traz à emissora a vantagem do contrato de risco: se der certo, paga mais à produtora e amplia a parceira. Se der errado, reverte-se a operação.

Plástica

A dona da produtora Casablanca, Arlete Siaretta, 50, é o cérebro de grande parte das jogadas de marketing de ‘Metamorphoses’ e do próprio enredo mirabolante.

À Folha, ela disse, por e-mail, que se submeteu a apenas uma cirurgia plástica. E assumiu toda a responsabilidade pela trama.

‘Metamorphoses’ é um projeto que vem sendo maturado por mim há dois anos. A Casablanca criou um núcleo de roteiristas que recebe minha orientação’, disse.

Um deles é José Louzeiro, autor das novelas ‘Corpo Santo’ (1987) e ‘Guerra sem Fim’ (1994/94), da extinta TV Manchete. ‘Os roteiristas exercem papel importante nessa novela. Na condição de responsável pelo produto final negociado com a Record, estou à frente. O contrato deixa claro o que se pretende em termos de enredo e mensagem com a novela.’

Ela diz não temer a rejeição do público com as inovações. Cobiça 20 pontos no Ibope -o dobro da maior audiência hoje obtida pela Record- apostando alto na metamorfose do gosto popular.’




Xico Sá


"‘Metamorphoses’ é drama em busca de autor", Folha de S. Paulo, 16/03/04


"Nos primeiros minutos, imagens de impressionar, alta definição, coisa de cinema. A chamada qualidade técnica, esse fetiche publicitário nascido com o ‘padrão Globo’, segue firme até o fim. Mas, ao abrirem a boca, os personagens não tinham o que falar. Não havia uma frase interessante, nem mesmo a fábrica de clichês dos teledramas foi acionada. Quase uma novela muda.


Se uma produção com um autor do ramo e mais uma boa equipe de colaboradores fixos enfrenta piripaques para segurar o ritmo de uma trama, imaginem uma novela que se tornou célebre por enxotar um escritor atrás do outro? Mesmo sendo muito generosa na exibição de tetas, o que surpreende em uma emissora de orientação evangélica, ‘Metamorphoses’ acabou, por conta da pré-novela da autoria, não conseguindo nem apresentar direito os seus personagens em sua estréia.


A ética de dona Circe -isso é lá batismo de personagem?- não foi nada convincente, uma vez baseada apenas na honra do diploma médico. E por que somente depois de casada ela descobriu a tatuagem, símbolo da máfia japonesa, nas costas do marido? Ou ele acabou de entrar para a Yakuza? São questões mínimas que podem ser importantes para o acordo de verossimilhança que a novela assina com o telespectador.


Talvez as cirurgias plásticas ‘de verdade’, anunciadas pela emissora, consigam substituir um pouco a ausência de texto. Mas para isso não carecia fazer novela, bastava um reality show.


A louvável ousadia técnica da Casablanca, responsável pela produção do drama, merecia um melhor cuidado com as palavras. Não que as telenovelas precisem de Balzacs, mas pelo menos 10% de Gilberto Braga, disparado o melhor do gênero na era pós-Janete Clair, deveriam ser obrigatórios para quem se atrevesse a enfrentar esse ramo. Essa história de fazer da própria autoria da novela um mistério pode ser um bom álibi metalingüístico para romance de vanguarda, não para um folhetim de TV. Na estréia, ‘Metamorphoses’ não fez jus ao seu ‘ph’."

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