Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
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Logo criado em guardanapo ‘é matador’

Por Silas Martí em 28/04/2015 na edição 848

“Não é folclore. Isso é real. Ele nasceu num guardanapo de avião”, diz o designer Hans Donner, 66, sobre como rabiscou a primeira versão do símbolo que até hoje identifica a TV Globo. “Tem a pretensão de mostrar o mundo com uma tela dentro, que é a televisão. É difícil superar. Esse é um conceito simples e matador.”

Matador ou não, a esfera com um retângulo colorido envolvendo outra bolinha, o famoso “plim-plim”, reina absoluto na linguagem visual do canal líder do país, que chega hoje aos 50 anos.

Era 1974 quando Donner, um austríaco de 25 anos que acabava de pôr os pés numa terra ainda vista na Europa como “país de bananas e macacos”, foi escalado para dar uma identidade à rede, uma “potência da comunicação que estava nascendo, mas ainda não tinha uma cara”.

Suas marcas metalizadas, cheias de cores e movimento acabaram sintetizando não só uma marca, mas viraram sinônimo visual do chamado “padrão Globo de qualidade”.

Estética popularesca

Querendo ou não, Donner se tornou o grande arquiteto visual por trás da Vênus Platinada, apelido que colou na emissora por causa das formas brilhantes, rechonchudas, histéricas e por vezes cafonas criadas por ele.

“Tudo tem a ver com essa pele que ele inventou”, diz o designer Ricardo Leite, que partiu dos conceitos de Donner para criar a identidade visual da GloboNews. “Ele chegou com gradientes de cor, muito brilho, muito 3D. É uma estética popularesca, de varejo, mas TV é isso, é popular.”

Donner vê sua obsessão por esferas, volumes, brilho e –acima de tudo– mulheres curvilíneas dançando como fruto do cruzamento de um design clean, de matriz europeia, com a exuberância do Rio, onde vive até hoje.

“No Brasil, o design é recebido de coração aberto, adoram formas, cores”, diz o designer. “Quando cheguei aqui, percebi que tinha de corresponder a essa natureza e comecei a buscar a cor, a beleza feminina. Nesse ponto, sou como Niemeyer, porque ele também se inspirou nas formas perfeitas das mulheres.”

Tão perfeitas que Donner se casou com uma de suas musas, Valéria Valenssa, bailarina imortalizada como mulata do Carnaval estrelando as vinhetas “Globeleza” do canal.

Carambola madura

Outra musa do designer, a atriz Isadora Ribeiro também foi elemento mais do que central em aberturas como a que fez para o “Fantástico” em 1987 –aquela em que saía da água com uma espécie de raio metálico na testa– e para a novela “Tieta”, de 1989, em que surgia toda tortuosa, como uma carambola madura.

Muito da estética de Donner, aliás, está ancorada nesse receituário básico, de formas geométricas, mulheres voluptuosas e cores estridentes. Quando surgiram os computadores, algumas de suas modelos se tornaram virtuais e suas vinhetas ganharam mais brilho, volume e cor.

“Naquela época, ainda não existia ‘Exterminador do Futuro’, ‘Game of Thrones’, ‘Nemo’, nada”, lembra Donner. “O impacto que causamos com uma mulher que, ao girar, virava árvore, em ‘Pedra sobre Pedra’, hoje não surpreende mais. Virou comum. Mas, em 1983, na abertura do ‘Fantástico’, juntamos computação gráfica com pessoas dançando. Foi uma odisseia.”

Suas jornadas mais impressionantes, no entanto, prescindiram da tecnologia. Donner diz que na Globo nunca foi censurado, mesmo causando discussões acaloradas por causa do tamanho do biquíni de suas musas e do bumbum do homem pelado da abertura de “Brega & Chique”. Também conta que nunca teve restrições orçamentárias.

Lamaçal

Tinha carta branca para inventar o que fosse na hora de criar uma vinheta, a ponto de comparar seu encontro com o então todo-poderoso do canal, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, com a união de Michelangelo com o papa.

Mas de tudo que inventou à frente do comando do design na Globo, talvez sua capela Sistina seja a nada edificante abertura da novela “Deus nos Acuda”, de 1990, em que convidados de uma festa chiquérrima afundam –de verdade– num enorme lamaçal, traje de gala e tudo.

Sem efeitos especiais, o cenário todo foi mergulhado numa piscina de barro para gravar a vinheta, os vestidos das mulheres presos ao piso para não levantar com a inundação criada por Donner.

“Era simples a ideia, pediram que eu imaginasse uma festa em Brasília”, conta Donner. “O Brasil estava próximo do impeachment e coloquei a lama entrando na boca das pessoas no meio de uma festa. Só que elas continuavam tomando champanhe, indiferentes à lama.”

Também antes das possibilidades da computação, Donner criou telefones e chaleiras gigantes de resina para a abertura de “Meu Bem, Meu Mal”, de 1990, em que os atores da trama precisavam ser refletidos em tamanho real em objetos de design.

Essa época heroica, em que tudo se fazia com as mãos, deixou saudades. Donner considera os anos 1980 e 1990 como seu auge criativo. Já afastado da produção de aberturas e vinhetas e agora à frente da imagem institucional da emissora, o designer voltou todas as suas forças para modernizar uma linguagem que envelheceu.

“Tudo o que o homem faz envelhece. Brasília tem 50 e poucos anos e é a cidade mais envelhecida dos últimos tempos”, diz Donner. “Os estilos têm um limite de tempo.”

Nos últimos anos, o símbolo do canal se tornou branco e perdeu um pouco do brilho, seguindo a tendência de simplificação no design mundial, mas a ideia segue intocada.

“Ele marcou uma época e um território”, diz o designer Milton Cipis, sobre a obra de Donner. “Tem uma certa cafonice, que a própria Globo tem, mas ele fez o que ninguém tinha feito, revolucionou a linguagem do design na TV.”

***

Silas Martí, da Folha de S.Paulo

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