Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ENTRE ASPAS > DOMINGO ESPETACULAR

Luiz Carlos Merten

27/04/2004 na edição 274

‘Há mais de 30 anos no ar – estreou oficialmente em agosto de 1973 -, o Fantástico virou a grande revista da TV brasileira. Todo domingo, ligar a TV na Globo para assistir ao ‘show da vida’ faz parte dos hábitos de milhões de brasileiros (e que se traduzemestáveis 35 pontos de audiência). Durante todo este tempo, o Fantástico expandiu o conteúdo jornalístico sem abandonar a linha de shows da emissora. É um mix variado, noqualo telespectador sabe que vai encontrar de tudo, da notícia ao humor,sem esquecer da música, do circo.

Um crítico do programa disse certa vez que se trata de umbaú de mágico. Ele disse isto pejorativamente, mas a definição colou e, com o tempo, adquiriu outra conotação.O baú de mágico, com seus altos e baixos, é um fenômeno de resistência na história da TV brasileira. A Record está criando agora o seu baú para concorrer com o daGlobo. Essa definição do baú é boa porque engloba o da Felicidade, de Sílvio Santos, que há anos briga com a Globo pela audiência noturna do domingo.

Embora seja mais uma arma do bispo Edir Macedo contra a poderosa Globo, o Domingo Espetacular, que começou na semana passada, adota a fórmula do ‘show da vida’ sem trombar diretamente com o Fantástico. Vai ao ar, estrategicamente, entre 18 e 20 horas, e termina justamente quando soam, na rival, os acordes do programa que há mais de três décadas vem sendo vistoporgeraçõesdebrasileiros.

A fórmula é igualzinha e a primeira edição do Domingo Espetacularfoi caprichada. No quesito ‘jornalismo’,o programa trouxe imagens impressionantes na guerra do Iraque. No quesito show, você não precisa cantar no coro damúsica sertaneja para ver o quanto o especial sobre Chitãozinho e Xororó foi bem feito – o repórter Otaviano Costa leva jeito para reportagens humoradas e descontraídas. No quesito ‘esporte espetacular’, Eduardo Elias também fez das suas, commergulho e rapel.

Talvez seja o bom e o ruim do Domingo Espetacular – o programa é muito calcado no Fantástico (e ainda tem um ex-global, como Celso Freitas, na condução). Tecnicamente, não perde na comparação e só precisa dosar as atrações, o que a turma do Fantástico faz melhor porque, afinal, está há um tempão noramo.Éobom- eoruim, porque é Fantástico demais e, se é para ver omesmo programa, talvezseja preferível ficarcomoantigo. Emboa hora aRecord antecipou sua atração. Corria o risco de perder pontos, trombando no horário.

O importante é que não se pode nem se deve ver um projeto ambicioso como este da Record isoladamente. O controvertido bispo Macedo sempre que pode esgrime suas armas contra a Globo. E gosta de recorrer a produtoras independentes, que garantem a boa qualidade técnica de seus produtos. A Casablanca é parceira na novela Metamorphoses, que é cuidada, masa trama é um horror e aquelas imagens de cirurgias inseridas no enredo não ajudam a melhorar o que é um produtomeio Frankenstein. A Casablanca, por sinal, é uma parceira ‘muy amiga’. Não liberou Nill Marcondes, que estava sendo anunciado como um dos destaques da equipe, porque ele está preso à Turma do Gueto.

Com ou sem desfalque, o Domingo Espetacular não desonra o nome. Feito pela própria linha de programação da emissora, tem brilho na imagem, se bem que o entardecer na fazenda de Chitãozinho e Xororó foi muito ‘cosmético’, para pegar carona numa terminologia com freqüência empregada no cinema brasileiro. Os filmes estão cosmetizando a fome e a miséria. Ambas ficam fora da fazenda – produtiva – da dupla sertaneja. Graças a Deus, como disse o repórter, e Chitãozinho e Xororó responderam – Amém.’



TV / AUDIÊNCIA
Etienne Jacintho

‘Quando a grife vale mais que o ibope’, copyright O Estado de S. Paulo, 25/04/04

‘Em uma era que se acusa a TV de usar os números do Ibope como parâmetro único para pautar sua programação, qual seria o termômetro de canais que oscilam entre 0,1 e 2 pontos de audiência, no máximo, numa praça como a Grande São Paulo? Isso não é propriamente um drama, muito pelo contrário. Sintonizados via UHF, emissoras como a MTV, a Rede 21, a Rede Vida e a Rede Mulher acabam dando um peso muito maior que as emissoras convencionais (via VHF) a e-mails, cartas ou telefonemas de telespectadores.

Além disso, como são abertas mas apresentam números similares ao de um canal pago, essas emissoras recebem do Ibope dois relatórios de audiência: um com os índices absolutos, mencionados juntamente com os das TVs abertas, e outro que só considera o universo de TV por assinatura.

Mas é justamente a audiência modesta que permite a essas emissoras oferecer um cardápio mais direto ao seu público para conquistar fidelidade e anunciantes.

A MTV, por exemplo, não tem medo de se arriscar, já que seu público jovens de 15 a 29 anos – também não tem medo de experimentar o novo. Tanto que o canal não deixa uma fórmula, mesmo que bem-sucedida, por longa temporada no ar. ‘Temos de inventar o tempo todo. Os programas não têm vida longa’, conta o diretor de Programação, Zico Góes.

A marca MTV é muito forte. Isso, aliado ao fato de que o público do canal é tão facilmente identificado, incentiva o contato com anunciantes, que podem ver claramente o alvo de seus produtos. ‘Muitas vezes funciona assim: ‘Dá o ibope que eu te dou a grana’. Na MTV não é assim’, explica Góes. O que se vende é a grife. Não precisamos de medição do Ibope, conseguimos barulho de outras formas.’

A Rede 21, apesar de transmitir noticiários, séries, filmes, esportes e programas de variedades, defende que também é uma emissora segmentada. Seu diferencial está no público seleto, de classes A e B. ‘Temos uma audiência consistente devido à sua qualidade’, fala o diretor-geral da Rede 21, Mário Baccei. ‘Não vamos chegar a níveis globais, até porque teríamos de popularizar a programação e não é esse o nosso objetivo.’

Para decidir a grade de programação, Baccei conta que a emissora usa pesquisas específicas. As armas mais eficazes da Rede 21 são as séries novas – Sex and the City, Will&Grace e Seinfeld -, os filmes, o jornalismo e o programa americano de entrevistas Larry King Live, que é transmitido com diferença de apenas uma semana em relação ao que é mostrado na CNN dos EUA. Todas as atrações internacionais são exibidas com legenda.

Pesquisa extra – A Rede Mulher encomendou recentemente uma pesquisa ao Ibope sobre os hábitos de seu público-alvo, as mulheres. ‘Temos uma programação que interage com a mulher’, afirma o superintendente comercial da emissora, Cláudio Soller. Essa interação com que a Rede Mulher receba muitas visitas em seu site – cerca de mil por mês – e e-mails de telespectadores. ‘Não há grandes estrelas na Rede Mulher, como a Vera Fischer e etc., mas há pessoas que sabem falar com a mulher’, fala Soller.

Comercialmente, a segmentação da Rede Mulher é um trunfo. ‘O cliente começa a notar a relação custo-benefício de anunciar em um canal que tem ampla cobertura e um público segmentado e fiel’,diz.

Já a Rede Vida aposta no catolicismo na família para conquistar público. Quando a emissora passou do canal 40 para o 34, panfletos foram entregues em paróquias da capital. Mas o canal não é só voltado igreja. ‘Os programas religiosos ocupam 35% da grade. Os outros 65% são compostos por filmes, programas de entrevistas, futebol e infantis’, fala o diretor Rede Vida, Monteiro Neto. A Rede Vida até lançou um astro: padre Marcelo Rossi, que celebra missas nas manhãs da emissora.

Para Monteiro Neto, não haverá diferença entre UHF e VHF para telespectador. ‘Muita gente nem se lembra de que a MTV é UHF’,fala. ‘E com a chegada da TV digital, não haverá mais essa diferença.’

Ibope – Os números do Ibope não são tão importantes para os canais em UHF até porque nem em todos os televisores que possuem medidor de audiência há conversor para UHF ou antena para a captação desses canais. ‘Na prática, a medição de audiência é a mesma, mas há domicílios que têm acesso a essas emissoras’,explica o diretor do Ibope Mídia, Antonio Ricardo. Ele diz que a medição é feita independentemente de os televisores terem ou não capacidadede sintonizar determinado canal.’



SITCOM NEGRA
Etienne Jacintho

‘Idéia de Netinho tem similares de sucesso’, copyright O Estado de S. Paulo, 25/04/04

‘Há algum tempo, Netinho sonha em emplacar uma sitcom sobre uma família negra de classe média na TV brasileira. A Record é quem negocia com Netinho o formato da atração, que, segundo a assessoria da Record, ainda está no papel. No final do ano passado, o apresentador até organizou um workshop com profissionais americanos para formar escritores capacitados para escrever diferentes roteiros e oferecê-los às emissoras. E americano entende do assunto. Nos Estados Unidos, duas grandes séries com esse perfil, ambas da NBC, foram sucesso de audiência: The Cosby Show, nos anos 80, e The Fresh Prince of Bel-Air, nos anos 90.

The Cosby Show, protagonizado por Bill Cosby, ficou no ar de 1984 a 1992. A série mostra a vida de uma família de classe média em ascensão no Brooklyn – bairro negro nova-iorquino. Cosby é o ginecologista e obstetra Cliff Huxtable. Sua mulher, Clair, é advogada e mãe de cinco filhos. Unida, a família enfrenta as questões do dia-a-dia com muito bom humor. O sucesso foi tão grande que foi lançado até livro com análise cultural, social, legal e histórica da atração. A atriz que interpretava a menina Olivia, Raven Symone, hoje adolescente, ganhou até um programa com seu nome (As Visões de Raven, no ar pelo Disney Channel) Já The Fresh Prince of Bel-Air deu estrelato a seu protagonista, o ator e rapper Will Smith. A série, que ficou em cartaz de 1990 a 1996, conta as trapalhadas de Will Smith, o Fresh Prince, que abandona a Filadélfia para morar com os tios e os primos em uma mansão em Los Angeles. Will, seu tio Phillip Banks – um famoso advogado – e sua família brincam, muitas vezes, com a questão do preconceito racial.

As duas séries já foram canceladas – o canal Warner ainda exibe reprises de The Fresh Prince of Bel-Air -, mas continuam sendo referência para muitos outros projetos. Um deles, My Wife and Kids, está no ar atualmente no canal Sony e apresenta o cotidiano de uma família negra de classe média e seus ‘agregados’ – o amigo da filha, a namorada do filho… Alguns atores da série se dizem fã de Bill Cosby e têm seu show como fonte de inspiração para realizar, quem sabe, a sitcom que marcará esta década.

Mulher e filhos – Diferentemente de The Fresh Prince of Bel-Air, My Wife and Kids não entra em questões raciais. Os Kyles são pessoas e ponto. Não são negros nem amarelos nem vermelhos… Michael Kyle (Damon Wayans) e sua mulher, Jay (Tisha Campbell-Martin), só querem educar bem seus três filhos – Claire, Junior e Kady – e manter apimentado o casamento. E, para educar os filhos, Michael aplica métodos nada convencionais. Está aí o tempero da série.

Junior (George O. Gore II), o filho mais velho, é burro de dar dó – quase uma versão masculina de Kelly Bundy, Christina Applegate em Married With Children. E o personagem convence tanto que George conta que as pessoas quase não falam com ele nas ruas porque elas pensam que ele é um pouco devagar. ‘Mesmo quando dou entrevistas, os jornalistas não me perguntam muitas coisas porque acham que eu não conseguiria emplacar uma conversa coerente e inteligente’, conta o ator, que já dirigiu um dos episódios da série.

Jennifer Freeman vive Claire, a filha mais velha, que sofre com a superproteção do pai e do irmão. A atriz confessa ser monitorada por todos os homens do elenco, assim como sua personagem. ‘Eles estão sempre fazendo piadas dos garotos de quem eu gosto.’ Jennifer, quando questionada sobre seus programas favoritos na TV, não hesita em responder: ‘Eu assisto The Cosby Show desde pequena.’

A atriz mirim Parker McKenna Posey, que interpreta Kady, a caçula, também cita o show de Bill Cosby, mas acrescenta que na maior parte do tempo assiste a desenhos animados na TV. Já Andrew McFarlane, que vive Tony, o namorado de Claire, lembra de The Fresh Prince of Bel-Air como um de seus shows preferidos.

Vida real – As linhas que conquistam o público em uma sitcom geralmente vêm de experiências da vida real. No caso de My Wife and Kids, os escritores colocaram na história a questão da gravidez na adolescência. A namorada de Junior, Vanessa (Brooklyn Sudano), está grávida e Michael e Kay serão avós. ‘Não acho ruim ser avó, pois eu nasci quando minha mãe tinha 16 anos’, conta Tisha Campbell-Martin, que vive a Jay. ‘E eu sou avô na vida real e tenho 42 anos’, completa Damon Wayans, o Michael. ‘É daí que vem a história.’

Com um elenco de jovens talentos, My Wife and Kids faz sucesso nos Estados Unidos – país acostumado a programas do gênero -, mas ainda não é um fenômeno como suas duas antecessoras. Agora, aqui no Brasil, resta saber o que Netinho terá de enfrentar para que sua sitcom caia no gosto do público.’

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