Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > TELEVISÃO FRANCESA

Madame Sarkozy recebe em palácio

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 13/10/2010 na edição 611

Quando um canal de TV pública (a França tem diversos, e até 1987 todos os canais de televisão eram estatais subordinados à ORTF – Office de Radiodiffusion Télévision Française) faz um documentário sobre a mulher do presidente da República para mostrá-la sob ângulos desconhecidos, mas sempre favoráveis, como não reagir com críticas ou com ironia?


Pois não foi outra a reação da imprensa francesa ao documentário La voie de Carla (O caminho de Carla), título que faz um trocadilho com voix, voz. O autor do perfil da primeira-dama, Marc Berdugo, deve ter-se achado genial pela trouvaille. Desde o início, tem-se a impressão de que se trata de obra de encomenda. Mas nada disso. No Palácio do Eliseu, sede do governo, ninguém nunca encomendou nada. Que perfídia. O autor diz que o filme foi uma idéia totalmente sua, pois conheceu Carla há vinte anos quando ela era manequim e ele estudante de jornalismo. Ah, bom.


No texto em que comenta o documentário sobre madame Sarkozy, o jornal Libération adotou o tom irreverente que o caracteriza. A começar pelo título, ‘Madame est servie’, frase que as empregadas ou os mordomos dizem para avisar à patroa que a mesa está posta. Mas a frase tem um duplo sentido. Alguém está a serviço dos interesses de madame.


Apenas um passo


O documentário mostra uma primeira-dama elegante e discreta em seus deslocamentos no estrangeiro ou recebendo em jantares de gala no Eliseu. Poliglota, ela conversa com a rainha da Inglaterra em inglês e se dirige aos italianos da cidade de Áquila num italiano perfeito de quem nasceu em Turim. Além do mais, ela é capaz de encantar um público americano no Radio City Music Hall ao cantar ao lado de Dave Stewart num espetáculo em homenagem aos 91 anos de Nelson Mandela, em julho deste ano. A fina flor da música americana como Aretha Franklin, Steve Wonder e Cyndi Lauper subiu ao palco naquela noite.


Quando aparece no camarim e quando a escuta na platéia, o marido presidente é um fã discreto mas subjugado pelo charme de madame. Eles trocam palavras carinhosas, carícias e atenções o tempo todo em que ele aparece.


E aparece pouco, pois o filme foi feito como hagiografia de madame. Que, aliás, pode ser vista em uma saída noturna do Samu Social, grupo de trabalhadores sociais que recolhe pessoas sem-teto das ruas de Paris para levá-las a abrigos aquecidos. Carla se veste de uniforme de trabalho, põe um boné e fica ao lado dos profissionais, agachada, discreta, tentando passar despercebida, enquanto eles tentam convencer um sem-abrigo a passar a noite num local fechado e protegido. Para Madre Teresa de Calcutá é um passo.


Junto ao poder


Em recente artigo sobre a mídia brasileira, o jornalista Mino Carta escreveu :




‘Resta ver se o Brasil estaria maduro para uma TV estatal, nascida do entendimento de que esta há de ser uma instituição permanente a servir à nação em lugar do governo do momento. Sinceramente, não aposto nesta maturidade.’ 


Pois se nem mesmo a França, uma democracia mais que calejada, berço da revolução chamada francesa que nos deu a declaração dos direitos humanos, está madura, como estaria o Brasil?


Se o diretor-geral de France Télévision, a holding que engloba todos os canais públicos, é escolhido pelo próprio Sarkozy, que independência tem ele para fazer uma televisão totalmente desvinculada do poder?

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Jornalista

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