Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

TV EM QUESTãO > VER TV

Mas, bah, tchê, tu não vês: é ela quem te vê!

Por Hugo Santos e Deonísio da Silva em 18/04/2006 na edição 377


Parte I


Muito já se disse ou se escreveu sobre a estética da programação da televisão brasileira. Diante disto, eventuais juízos de valor exalados nesse texto não têm o fim de apontar caminhos ou nortear o conteúdo dos programas das televisões brasileiras. O que pretendemos é apenas uma reflexão sobre os valores e imagens que apresentam apelos a uma estesia tipicamente grotesca e desviante dos padrões estéticos convencionais, observados todos os dias na programação televisiva, principalmente nos programas que são direcionados ao público jovem.


É lícito, pois, que profissionais que atuam no campo teórico ou prático da televisão busquem compreender, por meio de análises conceituais pertinentes, os fenômenos estéticos presentes no meio televisivo, que se apresentam como relevantes em termos de consumo e produção, direcionados preferencialmente ao público jovem.


É de se perguntar quais os motivos dessa apologia do mau gosto, presente todos os dias na televisão brasileira. Que temas e estratégias se escondem por trás da estética do escatológico? Há um receptor ideal para o qual convergem valores como ruptura, choque, estranheza e quebra de padrões?


Beatriz Sarlo, em Cenas da Vida Pós-moderna preconiza que ‘a juventude não é uma idade e sim uma estética da vida cotidiana’ (1997:36). Talvez não seja mau começo iniciar nossa reflexão sobre o tema proposto, a partir de autores que se demoraram em analisar o estonteante e vertiginoso mundo da televisão, em que a velocidade é a grande marca.


Também as questões propostas por Derrick de Kerckhov em The Skin of Culture (Toronto, Somerville House Books, 1995), já publicado também em Portugal (A Pele da Cultura (Lisboa, Relógio D’Água Editores, 1997), refletem uma rica experiência sobre a posição de cobaia em que se visava analisar as reações fisiológicas das pessoas a qualquer coisa que lhes fosse mostrada. Em verdade, ‘qualquer coisa, todas as coisas e, especialmente, a televisão’. O que fosse levado ao ar.


Nessa experiência, Kerckhove foi ligado a um computador dotado de dispositivos destinados a medir as suas reações por meio de sensores afixados em sua pele. Um dos sensores estava ligado ao dedo médio esquerdo, para ler a condutividade da pele do sujeito da experiência, outro estava ligado à testa – provavelmente para analisar sua atividade cerebral – um terceiro, ligado ao pulso esquerdo, para medir as pulsações, e um último, ligado sobre a zona do coração, para monitorizar a circulação da cobaia, no caso o próprio autor, Derrick de Kerckhove.


Na mão direita foi-lhe dado um joystick que, ao ser empurrado para frente ou para trás, indicava se Kerckhove havia gostado ou não do que estava vendo. O teórico ficou sozinho na sala, enquanto lhe era apresentada uma sucessão rápida de sequências de imagens: de sexo, publicidade, notícias, talk shows ou de imagens já previamente marcadas por sentimentalismo e tédio.


Linhas agitadas


Os cortes surgiam de 15 em 15 segundos. Não é uma velocidade excessiva se compararmos à média da televisão, apesar de Kerckhove, no papel de crítico por reflexo, ter tido dificuldades em manter o ritmo com o joystick.


Ao final dos 20 minutos que durou a experiência, Kerckhove sentiu-se frustrado por não ter conseguido exprimir muito mais que movimentos pouco convincentes do pulso de aprovação ou desaprovação. Em alguns momentos, ele sequer conseguiu ter tempo de ‘exprimir fosse o que fosse’. Ele ou uma hortaliça teria tido a mesma reação, o que nos leva a supor que o público preferencial dos programas de televisão, sem nenhum preconceito, pode ser composto de vastos canteiros de repolhos, alfaces e outras verduras, sobretudo o público jovem, provavelmente mais vulnerável do que pessoas de faixas etárias mais adiantadas, que têm a seu favor pelo menos a experiência de vida.


Quando os dois cientistas responsáveis pelo experimento (Rob e Stephen) voltaram para a sala onde estava Kerckhove, ele relatou o seu sentimento de impotência por não ter conseguido exprimir sua vontade sobre o que tinha sido visto por ele.


Neste momento, os cientistas rebobinaram a fita de vídeo cassete que havia sido apresentada ao teórico e a colocaram em sintonia com os registros absorvidos pelo computador, a partir das possíveis reações de Kerckhove.


Kerckhove ficou espantado com o que estava vendo: cada corte, cada movimento, cada mudança de plano tinham sido percebidos por um ou por outro sensor e registrado no computador, mesmo que o teórico não tivesse tido tempo para movimentar o joystick.
Os gráficos mostravam linhas agitadas que correspondiam à condutividade de sua pele, ritmo cardíaco, circulação e as ‘misteriosas’ reações da testa.


Em suma, enquanto Kerckhove lutava para conseguir exprimir uma opinião, o seu corpo inteiro tinha ouvido, visto e reagido instantaneamente.


Falta de tempo


Como primeira conclusão dessa experiência, Kerckhove observou que a televisão fala, em primeiro lugar, ao corpo e não à mente. Com efeito, a partir do momento em que a tela de vídeo tem um impacto tão direto sobre o sistema nervoso e sobre as emoções – com tão pouco efeito aparente sobre a mente – conclui-se que a maior parte do processamento da informação se realiza na tela.


Isso significa dizer que a televisão é hipnoticamente envolvente. Qualquer movimento na tela atrai nossa atenção tão automaticamente como se alguém tivesse nos tocado. Os nossos olhos são atraídos pela tela como ‘o ferro é por um imã’.


Complementando as suas conclusões, Kerckhove remete o leitor ao trabalho sobre as reações cognitivas à televisão, desenvolvido pela teórica alemã dos media, Hertha Sturm, quando fez uma importante observação: quando vemos TV nos é negado o tempo necessário para integrar a informação a um nível de consciência completo.


Apresentações em mudança rápida bloqueiam a verbalização. O espectador torna-se, por assim dizer, uma vítima de uma força externa, da rapidez, da montagem audiovisual. A televisão elimina o intervalo entre estímulo, a reação e o tempo de processar a informação no nosso consciente. Sugere-se que a televisão nos deixa pouco (se é que deixa algum) tempo para refletir sobre o que estamos vendo.


Ora, esta falta de tempo para a reflexão e verbalização sobre o que estamos vendo pode ser associada a um outro fator: as crianças que hoje estão sendo ou foram criadas na era da televisão utilizam-se deste meio para ‘aprender a aprender’. Especialmente em países como o nosso onde a maior parte das crianças é apresentada à TV sem nunca terem visto um livro.


Parte II


Tome-se o caso de um programa emblemático, da modelo e apresentadora de programa infantil na televisão, Maria da Graça Meneghel, mais conhecida como Xuxa.


Que tipo de relação com a palavra escrita têm tido as crianças crescidas depois da era Xuxa? Depois do relato dos experimentos de Derrick de Kerckhove, é possível refazer o itinerário de nossas reflexões.


Sim, o objetivo óbvio, subjacente não apenas aos programas destinados preferencialmente às crianças, mas a todos os programas, é vender. No Brasil, medir o ibope da televisão é medir os anúncios e as vendas deles resultantes. Mas que tipo de formação ou deformação vitima as crianças?


Diz Kerckhove: ‘A televisão ensina as crianças pequenas a ‘aprender a aprender’de uma forma muito especial, em alguns casos antes de saberem falar e, em muitas famílias de um baixo estrato sócio-econômico ou sociedades semiletradas, antes mesmo de terem visto um livro’. Visto. Não é nem lido, mas visto! ‘Nesses casos’, acrescenta o autor, ‘a criança aprende a aprender por olhadelas rápidas. (…) Mais tarde ‘tenta compreender a palavra impressa através de olhadelas rápidas. Não funciona. Aprender a ler é um processo difícil, duro e – o que pode ser uma surpresa – algo que em muitos casos é intolerável’.


Em resumo, seja dito por fim que no Brasil qualquer teoria que não levar em conta sutis complexidades, algumas das quais apenas anunciadas nesse artigo, presentes na peculiar estética que nossa televisão moldou ao longo de décadas, nada poderá ser entendido satisfatoriamente se olhado apenas com o ‘olho armado’ da teoria.


Advertência outra


Em sociedades como a brasileira, não é o telespectador que vê a televisão. É ela o sujeito, sendo o objeto o telespectador, especialmente o público jovem.


Por fim, o título desse artigo, marcado por variação quase dialetal da língua portuguesa, remete ao Brasil meridional, onde a menina Xuxa viveu seus primeiros anos de vida, já que é natural de Santa Rosa, interior do Rio Grande do Sul, o estado que tem a melhor rede de ensino fundamental e médio. Programas de televisão, especialmente aqueles destinados preferencialmente ao público jovem, seja qual for o formato, bem-vindos ou não, já se tornaram inevitáveis. É dever dos intelectuais reporem para exame as questões que os envolvem, sob pena de nos tornarmos todos manipulados também por aqueles estratagemas que pensamos denunciar.


Vivemos, no mínimo, uma época em que domina, soberano, um olhar panóptico, semelhando o antigo triângulo com um olho no meio, posto à entrada de salas de aula. Esse olho que tudo vê não dá aviso explícito nenhum. Sequer avisa como advertem os letreiros ostentados em tantos recintos hoje em dia ‘sorria, você está sendo filmado’. Não. Não isso apenas, nenhum aviso. Se explícita, a advertência seria outra: ‘Televisão: aqui você está sendo visto, ouvido, medido, qualificado, embalado e vendido!’.


[Este artigo é versão resumida do que foi publicado na revista Libero, da Faculdade Cásper Líbero, de São Paulo.]

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Respectivamente, doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ, professor titular e diretor da Escola de Publicidade & Propaganda da Universidade Estácio de Sá; escritor, doutor em Letras pela USP, professor e diretor do Curso de Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá

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