Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > TV & JUVENTUDE

Maurício Thuswohl

27/04/2004 na edição 274

‘A 4ª Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes foi aberta nesta terça (20) no Rio. Evento traz à tona temas como exclusão digital e os efeitos da violência e do erotismo em crianças e adolescentes.

Rio de Janeiro – ‘O intercâmbio de idéias é fundamental. As experiências existentes em cada cantinho do mundo fazem com que a gente cresça e avance’. A declaração da coordenadora da 4ª Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes, Beth Carmona, dá a dimensão do evento, que teve sua solenidade de abertura realizada nesta terça-feira (20) na Escola Naval do Rio de Janeiro. Com dois mil delegados vindos dos mais diversos pontos do planeta e realizado pela primeira vez na América Latina, o encontro aposta na interação entre atores sociais distintos – estudantes, educadores, pesquisadores, representantes das empresas de mídia etc. – para buscar caminhos que garantam quantidade e, sobretudo, qualidade na produção de mídia para criança e adolescentes.

Com o tema ‘Mídia de Todos, Mídia para Todos’, a 4ª CMMCA será uma caixa de ressonância para propostas e análises visando à melhora da qualidade da produção voltada para os jovens, sobretudo nos países pobres. Um dos objetivos do encontro é incentivar a realização de co-produções entre os países e buscar a viabilização de redes de distribuição internacionais para os produtos desenvolvidos. Durante os quatro dias de evento, que se encerra em 23 de abril, acontecerão sessões especiais com fomentadores e patrocinadores de produções independentes para os jovens, entre eles a The Children´s Television Trust International (CTTI), a Unesco e o Unicef. A idéia é buscar, através da troca de experiências, a viabilização de novos projetos de parceria: ‘Queremos projetos que levem em conta a responsabilidade social que a mídia tem para com as crianças e adolescentes’, afirmou Jorge Whertein, representante do diretor-geral da Unesco, Koichiro Matsura, na solenidade de abertura.

O último dia do encontro pode trazer algumas definições relativas a compromissos de financiamento para produção, difusão e distribuição dos produtos de mídia para crianças e adolescentes. Antes do encerramento, os delegados irão divulgar as Cartas Multimídias do Rio de Janeiro, elaboradas a partir das discussões e propostas surgidas durante a 4ª CMMCA. As cartas, segundo a coordenação do evento, servirão como guia para o desenvolvimento de produção de qualidade por e para os jovens e deverão ser utilizadas pelos governos e pela industria de mídia, além de embasar futuras discussões sobre acordos globais de procedimento no que se refere a essa produção. No último dia também será definido o país que irá sediar a próxima Cúpula, muito provavelmente na África.

USP e Uerj apóiam Centro de Mídia

Pelo menos um bom fruto esta 4ª CMMCA já deu. Foi anunciada a criação do Centro de Referência em Mídia para Crianças e Adolescentes, que reunirá pesquisas e trabalhos do Brasil e demais países da América Latina e funcionará no Rio de Janeiro. A iniciativa conta com a chancela do Unicef e o apoio da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). A intenção é transformar o centro num pólo difusor de iniciativas bem sucedidas em toda a região: ‘A mídia não existe apenas para entreter os adolescentes, mas também para ajudá-los em seu crescimento’, lembrou, durante a solenidade de abertura, a diretora-executiva do Unicef, Carol Bellamy, talvez a maior estrela do evento que contou ainda com a participação do secretário nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, e do vice-prefeito do Rio, Marco Antonio Vales.

A programação da quarta edição da CMMCA compreende também a realização de plenárias com quatro eixos temáticos e de sessões paralelas sobre diversos temas. Neste ano, as principais discussões tratarão de temas como a influência que as doses excessivas de violência e erotização das produções exercem na formação da criança e do adolescente e a exclusão digital e midiática dos jovens dos países pobres. Outros temas interessantes, como a produção de conteúdo de mídia para jovens em situação de conflito armado, étnico ou religioso, também serão abordados. Além dos brasileiros, as atividades terão expositores de países como Colômbia, Albânia, Tanzânia, México, Inglaterra, Austrália, África do Sul, Argentina, Bolívia, Itália e EUA, entre outros.

Na série batizada como Panorama Mundial, 150 jovens de diversos países – com experiência na produção de mídia – exibirão e debaterão os trabalhos produzidos por todos. As exibições acontecerão em dez sessões diárias, antes do debate aberto ao público. A presença dos jovens e o acúmulo político e profissional por eles trazido, alias, é o que faz da CMMCA um encontro importante, uma vez que a mídia, como todo mundo sabe, é um dos principais instrumentos de dominação política, econômica e social de nossos tempos. Se depender do entusiasmo juvenil, a esperança de transformações é grande: ‘Com as novas tecnologias, a época do silêncio acabou. Temos uma voz forte e determinada e podemos transformar, recriar e inovar. O presente está em nossas mãos’, diz, num feliz trocadilho, o texto escrito pela delegação de jovens que foi lido durante a solenidade de abertura.’



Laura Mattos

‘Superficial, TV teen vira exemplo’, copyright Folha de S. Paulo, 25/04/04

‘‘Malhação’ passa a ser a novela das oito, no lugar de ‘Celebridade’. Serginho Groisman vai para a Record e apresenta seu ‘Altas Horas’ no horário do policial ‘Cidade Alerta’. A Globo põe no ar os programas da MTV.

A Folha enlouqueceu? Não. O parágrafo acima dá algumas ‘notícias’ do que seria uma TV de qualidade, segundo um estudo divulgado na quarta passada.

A pesquisa, realizada pela Andi (Agência de Notícias dos Direitos da Infância) e pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), concluiu que a televisão seria melhor se toda a programação seguisse os bons exemplos de atrações voltadas ao público jovem.

Em palavras menos otimistas, a tese do levantamento, batizado de ‘Remoto Controle’, é a seguinte: ainda que superficiais e centrados em estereótipos -ricas mocinhas loiras e galãs fortões-, programas teens conseguem ser melhores do que a média da TV.

Foram avaliados dez do gênero, entre eles ‘Altas Horas’, ‘Malhação’ (Globo), ‘Meninas Veneno’ (MTV), ‘Sobcontrole’ (Band) e ‘Atitude.com’, da TVE do Rio.

A seleção começou com as próprias emissoras, que informaram aos pesquisadores quais de seus programas são direcionados a teens. Duas indicações não foram aceitas: um quadro do ‘Curtindo uma Viagem’, de Celso Portioli, do SBT, e o ‘É Show com Adriane Galisteu’, da Record. De acordo com a pesquisa, eles não focam preferencialmente os jovens.

Ao todo, foram avaliadas cem horas de programação. Nove consultores -entre eles, a apresentadora Soninha e o sociólogo Laurindo Lalo Leal, da ONG TVer- assistiram a 15 episódios de cada um dos dez escolhidos. Decuparam as fitas, contaram segundos, viram e reviram, discutiram e tabularam os dados. A conclusão surpreendeu os pesquisadores.

‘Percebemos que não são abobrinhas, assuntos irrelevantes. A pesquisa ajuda a desconstruir o mito de que a programação para jovens é vazia’, diz Veet Vivarta, diretor-editor da Andi, uma ONG especializada em análises sobre mídia para jovens e crianças.

Para sustentar essa idéia, um dado: do conteúdo avaliado, 81,1% abordaram temas ‘socialmente relevantes’, como prevenção à Aids, gravidez e emprego.

Outro ponto positivo: a programação jovem não costuma explorar gratuitamente a sexualidade e a violência. Só 21% mostraram cenas violentas, sendo que metade delas era contextualizada.

Mas será que uma TV teen, mesmo com seus problemas, poderia de fato influenciar positivamente a programação geral? ‘Seria sensacional se a programação da TV dos adultos tivesse a qualidade da TV das crianças e dos adolescentes’, diz à Folha o apresentador Marcelo Tas, criador do repórter Ernesto Varela e um dos idealizadores de ‘Castelo Rá-Tim-Bum’ e ‘Vitrine’ (Cultura).

Ele, no entanto, acha difícil que isso ocorra na TV. ‘Adultos são seres cansados e se deixam enganar facilmente. São capazes de assistir a uma novela molenga por meses a fio sem reclamar. Com o público infantil e adolescente, não há meio termo. Quando não gostam de algo, mudam de canal ou trocam a TV pelo videogame, internet ou telefone’, afirma.

Na opinião de Tas, a programação teen é melhor porque os jovens são ‘seres mais exigentes’. ‘Não perdem tanto tempo com bobagens. São mais inteligentes e menos falsos do que os adultos.’

O cientista político Guilherme Guerra, consultor da Andi, acredita que seja necessária uma nova regulamentação para que o lado bom dos programas jovens prevaleça em toda a TV. ‘As TVs sempre falam em censura quando se tenta interferir de alguma maneira na programação.’

A pesquisa foi publicado no livro ‘Remoto Controle – Linguagem, Conteúdo e Participação nos Programas de Televisão para Jovens’ (330 págs., R$ 33, editora Cortez, tel. 0/xx/11/3864-0111) e chegará nesta semana às livrarias.’

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‘Marca ainda é superficialidade e estereótipos’, copyright Folha de S. Paulo, 25/04/04

‘Nem tudo são flores na programação jovem. Um dos principais problemas, que a própria pesquisa aponta, é a superficialidade.

Dentre as discussões abordadas, mais de 60% tiveram tratamento superficial, na opinião dos especialistas.

‘É um desafio incluir um conteúdo profundo em formatos frenéticos, na estética do videoclipe. Os programas costumam só dar uma pincelada em vários assuntos, de forma fragmentada’, diz Veet Vivarta, diretor da Andi, realizadora do estudo.

Outra crítica é o fato de os jovens serem estereotipados e seguirem um padrão de beleza. ‘Malhação’ é citada nesse contexto pelos consultores e por jovens que participaram de grupos de discussão. ‘Ou o jovem é supercertinho ou destrambelhado; ou é um ‘nerd’ ou um bonitão’, disse um dos garotos entrevistados. ‘Fazem programas para o jovem que só pensa em sair, comprar, querer tudo o que não pode ter’, afirmou outro.

Ivana Bentes, professora de comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, entrevistada na ‘Remoto Controle’, fez coro: ‘O panorama geral, tanto para crianças como para jovens, parece ser o de programas feitos por adultos com uma visão muito estereotipada, numa repetição infinita de idéias prontas, produzidas sem muita investigação’.

Para o cineasta Cao Hamburger, diretor do ‘Castelo’, não há nada muito inovador na TV para teens. Mesmo assim, diz, essas atrações podem dar bons exemplos às dirigidas ao público em geral. ‘Qual é a diferença entre ‘Meninas Veneno’ [Marina Person, MTV] e ‘Hebe’ [SBT]? E entre ‘Malhação’ e qualquer novela? Na verdade, os formatos são completamente iguais, e os programas jovens conseguem ter um conteúdo melhor.’

Quanto à chance de uma TV melhor obter audiência, Cao é otimista: ‘Qualidade não é inverso de sucesso’.

Esse casamento, no entanto, ainda é uma raridade. Dos dez programas analisados pela pesquisa ‘Remoto Controle’, cinco já saíram do ar (veja quadro ao lado).

Os pesquisadores atribuem o fato à ‘volatilidade da TV’. Os grupos de discussão organizados pelo estudo também demonstram que a audiência não está tão perto da TV ideal. Apenas um dos programas avaliados -e elogiados- aparece na lista dos mais assistidos pelos jovens: ‘Malhação’.

A novelinha e o ‘Altas Horas’, da Globo, são os únicos com uma audiência significativa: de janeiro a abril deste ano, foram sintonizados, respectivamente, por 66% e 42% das TVs ligadas em seus horários de exibição.’

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‘Apresentador ‘magro’ leva elogio’, copyright Folha de S. Paulo, 25/04/04

‘Léo Almeida, 22, não é exatamente fortão e teria pouca chance como mocinho protagonista de ‘Malhação’. Mas ele tem seus fãs.

O estudante de comunicação é apresentador do ‘Atitude.com’, veiculado pela TVE do Rio -ligada ao governo federal-, além de TV a cabo, satélite e outras educativas do país. A exemplo da maior parte das atrações teens alternativas, o programa possui um público restrito para os padrões das grandes redes (‘Costumo medir a audiência na rua’, diz Léo).

Na pesquisa ‘Remoto Controle’, foi enaltecido por dar espaço à participação de jovens e de bandas iniciantes. Léo recebeu elogio, de certa forma, às avessas: ‘Não tem porte de galã, é magro, interessa-se por rock, mas também por literatura e questões sociais’.

‘Atitude.com’ exibe debates, entrevistas, reportagens e shows. É ‘filhote’ do extinto ‘Caderno Teen’, também comandado por Léo -que há cinco anos é apresentador da educativa carioca.

Transmitido de segunda a sexta, às 19h30, vai na contramão de outros programas jovens, que costumam ficar fora do horário nobre.

Será que ‘Atitude’ daria certo na Globo? ‘Não consigo me imaginar numa TV comercial, sem liberdade para chamar as bandas que quiser’, diz Léo.’



Patricia Faria

‘Jovens pedem mídia que respeite diferenças’, copyright O Globo, 23/04/04

‘Depois de quatro dias de debates e palestras envolvendo três mil especialistas, produtores e formadores de opinião de cerca de 60 países, será divulgada hoje a Carta Multimídia do Rio de Janeiro. A apresentação do documento marcará o fim da 4 Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes, na Escola Naval, no Rio, e o começo de uma jornada em defesa de uma mídia que respeite crenças e culturas dos jovens de todo o planeta.

A carta será enviada aos líderes de todos os países participantes, à Unesco, ao Unicef e para diretores de canais de televisão e de sites voltados para o público infanto-juvenil. Pela primeira vez, um país da América Latina é sede do evento, que tem o apoio da Prefeitura do Rio. Também é inédita a participação de países como Índia, Palestina, Malásia e Paquistão.

Outra novidade este ano foi a presença de 150 jovens, que divulgarão a Carta dos Adolescentes com propostas para melhorar a mídia. Na plenária de ontem, Hania Bitar, da ONG Pyalara, instituição que se preocupa em dar voz aos adolescentes da Palestina, mostrou que, apesar das dificuldades de um país em permanente conflito, é possível transmitir imagens que não sejam apenas de guerra:

– Temos uma emissora de TV estatal e conseguimos, depois de muito trabalho, mostrar uma programação feita exclusivamente pelos jovens.

O vídeo retrata uma juventude que, apesar de tudo, busca a felicidade. Também mostra um pouco da Palestina. Os jovens, que aparecem em trajes típicos, fazem entrevistas, montam peças de teatro e, com roupas ocidentais, explicam que querem ser como outros adolescentes do mundo, em busca de paz.

– Consultamos os jovens e demos voz a eles. Eles querem uma mídia para entreter e informar. Mas também querem participar da construção da sociedade que, é claro, pode ser muito melhor – disse, emocionada, a palestina, muito aplaudida pela platéia.

Hania destacou que as alianças locais são indispensáveis para a realização destes programas, cuja grade diária é de três horas na TV estatal da Palestina. Até bem pouco tempo, o debate em torno da qualidade de mídia para crianças e adolescentes naquele país não existia. A ONG Pyalara, criada em 1999, foi a pioneira nesta direção.

Na primeira palestra de ontem da 4 Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes, Albert Alcouloumbre Júnior, diretor de Planejamento e Projetos Sociais da Central Globo de Comunicação, mostrou números que dão a gravidade do quadro social brasileiro: 15 milhões de analfabetos, 32 milhões de analfabetos funcionais e 5,4 milhões de crianças e adolescentes trabalhando. Diante dessa situação, Alcouloumbre enfatizou a responsabilidade da televisão, em especial da Rede Globo, líder de audiência no país, e citou os investimentos da emissora em campanhas sociais gratuitas. Somente em 2003, a Rede Globo investiu em 178 campanhas sociais gratuitas, incluindo despesas com veiculação e produção, cerca de US$ 120 milhões (R$ 360 milhões).’



Beatriz Coelho Silva

‘Discovery, Televisa e CTW querem produzir episódios para a América Latina e EUA’, copyright O Estado de S. Paulo, 25/04/04

‘O Discovery Channel anuncia hoje, na 4.ª Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes, no Rio, um convênio com a rede mexicana Televisa e a Children Television Workshop (CTW) para a produção de três séries anuais, com 65 programas cada, do seriado infantil Plaza Sésamo (que aqui no Brasil já foi exibido como Vila Sésamo, nos anos 70), em espanhol, para exibição em 30 países da América do Sul , do Caribe e em espanhol, nos Estados Unidos.

‘é a primeira associação desse porte, que atingirá 12 milhões de lares ‘, comemora o responsável pela comunicação da Discovery na América Latina e Península Ibérica, Henrique Martinzes. ‘Desta vez, a participação das crianças será gravada separadamente em cada região do continente para valorizar as diversidades regionais.’

O acordo não vale para o Brasil, onde o Vila Sésamo não é exibido há várias décadas, depois de ter sido produzido durante anos pela Rede Globo, que agora negocia sua produção pelo Canal Futura. ‘Também estamos negociando sua produção em português, mas há detalhes a serem tratados pois sua exibião tem um foco em potencial de 3 milhões de casas’, adianta Martinez, que não fala em cifras. ‘Por contrato com a CTW, não falamos nos custos dos programas.

Cada parte do acordo entra com a mesma quantia.’

O Plaza Sésamo latino-americano será exibido no Discovery Kids, canal voltado para o público entre 2 e 6 anos. ‘Temos programas específicos para essa idade, como o Boo, que mostra objetos às crianças, e o Rubber Dubbers, animação com brinquedos de borracha. O objetivo é sempre desenvolver e incentivar a imaginação’, explica. ‘Não existia programação específica para essa faixa durante todo o dia. À tarde e à noite, a criança pequena acompanhava a faixa etária maior ou então o que os adultos viam.’

Martinez lembra que os dois pontos a serem discutidos na 4.ª Cúpula, a relação lucro e qualidade de programação e a diversidade cultural, são preocupações constantes do seis canais Discovery. ‘A solução éoferecer programação de qualidade que o anunciante vem’, concluiu ele.’



O Globo

‘Escolas debatem a violência’, copyright O Globo, 18/04/04

‘Como essa violência vista na TV, nos jornais e nas revistas deve ser trabalhada com as crianças? Segundo Eliana Garcia, coordenadora pedagógica do Miraflores, elas se preocupam principalmente com a solução do problema, e nessa solução entram solidariedade e união.

– Quando a questão é o que cada um deles pode fazer para melhorar isso, a resposta é sempre uma variante de ‘não brigar com o amigo’ – diz ela, que nota um certo alívio nas crianças depois que elas debatem o tema e falam o que pensam. – É uma realidade que não se pode esconder, está o tempo todo no ar, então os professores e os pais têm que fazer seu papel e ajudá-los a lidar com isso.

Numa escola municipal da Zona Oeste, a professora Alzira Teixeira da Silva também nota que a diferença entre conversar ou não conversar sobre o que os alunos vêem na mídia é marcante no comportamento deles. Segundo Alzira, quando a mensagem é recebida sem reflexão, as crianças acabam adotando os padrões de violência. Se o assunto é tratado em sala, eles avaliam outras possibilidades. Quando os jornais e a TV mostraram o rosto ferido do policial civil Túlio da Costa, que tentou separar uma briga numa boate de Ipanema, e as imagens de um dos agressores dando um tchauzinho debochado para as câmeras ao deixar a delegacia, houve quem se identificasse com ‘o pitboy que se deu bem’. Depois que a professora estimulou o debate sobre o que significava aquele comportamento – e principalmente quando eles souberam que o arruaceiro acabou sendo preso – as opiniões mudaram.

– Vejo que eles têm dificuldade de resolver seus problemas, de decidir entre o que é certo e errado, de estabelecer valores. Com esses debates, a gente tenta ajudá-los nessa busca de autonomia. Até para que exercitem a capacidade de reflexão e não sejam manipulados – diz a professora. – Seria importante que em casa os adultos também os ajudassem. Às vezes noto que muitos estão perdidos.

Debate na escola estimula crítica da violência

A designer Luciana Araújo, mãe do menino Gabriel Fonseca, exerce uma certa censura sobre o que o filho vê ou não na TV. Segundo ela, porque acredita que há horários e programas que não são adequados para a idade dele. Sozinho, Gabriel só pode ver o que a mãe antes já avaliou, como a programação de certos canais a cabo voltados exclusivamente para crianças. A outros programas ela assiste junto com ele, e não se furta a esclarecer tudo o que ele pergunta, por exemplo, quando na tela aparecem imagens violentas ou polêmicas.

– Mas quando noto certos programas que o deixam excitado demais, procuro evitar que ele veja. Sou um pouco linha dura – diz ela.

Na última semana, os colegas de turma de Gabriel se impressionaram com as imagens da guerra do tráfico na Rocinha e levaram para a sala de aula sua preocupação com o tema. Além de quase todos recordarem o helicóptero da polícia nas cenas de violência que desenharam, muitos procuraram dar uma solução para o problema. Num dos desenhos, uma menina de 6 anos pôs um bandido atirando na filha da governadora, porque assim, segundo ela, a governadora tentaria ajudar as outras pessoas. Outra se retratou telefonando para o presidente, para pedir ajuda.

– Sempre que debatemos problemas como violência, fome, pobreza, elas procuram encontrar soluções. As crianças são muito imediatas. E demonstram uma certa decepção com os atos dos adultos – diz a coordenadora pedagógica Eliana Garcia.

Doutoranda em psicologia da PUC, com uma pesquisa sobre como as crianças se apropriam dos discursos dos desenhos animados em suas brincadeiras, Raquel Salgado acredita que censurar o que a criança vê na mídia não é um bom caminho. Mas para isso os pais e os professores também não podem sair de cena e deixar a TV ser soberana na vida dos pequenos.

– Censurar impede que o diálogo entre crianças e adultos aconteça, o que tem sido cada vez mais raro nas situações cotidianas.

Professora do programa de pós-graduação em psicologia clínica da PUC e da Faculdade de Educação da Uerj, Solange Jobim e Souza não acha que a mídia hoje seja mais violenta do que em tempos passados, mas acredita que ela tem efeitos negativos quando se liga demais aos interesses do mercado, promovendo o individualismo e enfraquecendo laços sociais.

– Algumas formas de utilização da criança na publicidade, a erotização da infância na mídia e imagens que incentivam o preconceito são formas de violência simbólica que desencadeiam violência física – diz ela, que ainda assim não defende que se proíba ou evite o debate sobre a violência. – Mas não se deve aceitar sem reservas as formas espetaculares de violência exibidas pela TV. Há programas que exploram a imagem da infância com interesses comerciais, e estas são formas de violência simbólica que desembocam em violência física.

Andrea Cecília Ramal, doutora em educação pela PUC, acredita que a integração da mídia na educação escolar é a saída para esse impasse. Segundo ela, não se pode ignorar que nem todas as famílias têm tempo para assistir à TV com os filhos e cumprir o papel de estimular neles o pensamento crítico. Isto a escola pode fazer, desde que se volte para a apropriação inteligente e crítica do potencial das tecnologias de comunicação.

– Isso vai desde o professor que seleciona um capítulo da novela para debater com os alunos, discutindo os valores que são veiculados, até as escolas que contam com núcleos de mídia-educação, que estimulam os estudantes a terem ‘idéias na cabeça e uma câmera na mão’, ensinando-os a se expressarem com novas linguagens – diz ela.

No Rio, a Empresa Municipal de Multimeios (Multirio), desenvolve projetos especiais com crianças de escolas municipais, começando pelas localizadas em áreas de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Um desses projetos é o Cartas Animadas pela Paz, coordenado por Patrícia Alves Dias, em que as crianças criam em conjunto histórias sobre o lugar onde vivem, fazem os desenhos em workshops comandados por educadores e profissionais de animação, e depois a Multirio se encarrega de finalizar os trabalhos, que são exibidos em escolas, sessões de cinema e até no exterior.

Crianças aprendem a filmar sua visão do real

Um desses filmes, ‘Paz em Jacarezinho’, foi premiado como melhor filme de crianças em outubro passado no Festival de Animação de Ottawa, no Canadá, junto com o escocês ‘Joey’s adventure’.

– Nesse projeto a criança é realizadora. Ao desmistificar o processo de produção de mídia, ela se torna capaz também de entender melhor e refletir sobre o que lhe chega pela TV e por outros canais de comunicação – diz Patrícia.

Os filmes produzidos nesse projeto, além de outros criados a partir de mitos e lendas brasileiros (‘Juro que vi’), serão apresentados em sessões paralelas na 4ª Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes. Coordenadora do comitê de pesquisadores do evento, Solange Jobim e Souza considera que a ocasião será boa para se discutir o conceito de qualidade da mídia, que para ela envolve a definição de valores.

Um dos participantes internacionais do evento, o colombiano Germán Franco Diez falará de sua experiência com a produção de documentários ao lado de jovens vítimas da violência do cartel de drogas de Medellín. Para ele, a forma como a violência vista na mídia vai interferir sobre crianças e jovens depende de como ela será tratada.

– Filmes que tratam com profundidade o ambiente em que se desenvolve a violência são vistos como importantes. Mas produções que caricaturizam personagens na polarização entre bons e maus falam de uma realidade que os jovens percebem como distante – diz.’



Notícias Adital

‘Adolescentes e crianças discutem sobre a mídia no mundo’, copyright Notícias Adital, 24/04/04

‘A 4ª Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes, o maior evento do gênero no mundo, terminou ontem, depois de 5 dias de debates, exposições e palestras. O evento aconteceu na Escola Naval, de 19 a 23 de abril, e reuniu duas mil pessoas, entre representantes da indústria global de mídia, pesquisadores, educadores e estudantes dos cinco continentes. Entre as atividades, aconteceram 47 sessões de debates e a apresentação de 86 trabalhos, entre pesquisas, estudos de casos e produções em TV, rádio e Internet. O evento organizado pela MultiRio – Empresa Municipal de Multimeios do Rio de Janeiro e pela ONG Midiativa – Centro Brasileiro de Mídia para Crianças e Adolescentes, teve o apoio da Agência de Notícias para o Direito da Infância (ANDI), do Centro de Criação de Imagem Popular (CECIP) e de outras organizações nacionais e internacionais.

Segundo a diretora executiva do Unicef, Carol Bellamy, o evento serviu para debater as obrigações e para escutar os jovens. ‘A mídia não existe apenas para entreter os adolescentes, mas também para ajudá-los em seu crescimento’, afirmou Carol.

O evento, na verdade, não resolverá o problema da mídia direcionada para adolescentes e crianças, no entanto, indubitavelmente, abriu um espaço para o debate sobre o tema. Na plenária de encerramento, os participantes definiram uma série de compromissos para o financiamento, a produção e distribuição de mídia de qualidade para crianças e jovens através da Carta do Rio e da Carta dos Adolescentes. Estes documentos foram elaborados a partir de reflexões feitas durante os três dias de trabalho da Cúpula por representantes da indústria da mídia, governos e organizações não-governamentais. a Carta do Rio, documento final do encontro, com as propostas e sugestões de ações a serem desenvolvidas por uma mídia de qualidade, será encaminhada à indústria, aos governos de todos os países, e às organizações nacionais e internacionais que trabalham direta ou indiretamente com produção de mídia. O objetivo das cartas é servir de subsídio para as presentes e futuras gerações.A próxima cúpula acontecerá na África do Sul.

A cúpula do Rio teve um foco muito intenso na América Latina, o que é muito importante, pois reuniu pessoas de diversos países para ouvir e falar sobre suas experiências locais. Pela primeira vez a pesquisa acadêmica e institucional sobre a influência dos meios de comunicação de massa no modo de vida social foi introduzida oficialmente nas discussões promovidas pelas Cúpulas Mundiais de Mídia para Crianças e Adolescentes. A programação desta 4ª cúpula, incluiu a análise dos estudos realizados por pesquisadores de todo o mundo e, também, pela própria indústria do entretenimento.

Nils Kastberg chamou a atenção para a responsabilidade da mídia em relação às crianças e aos adolescentes e citou uma série de princípios humanitários e éticos que devem ser respeitados pelos meios de comunicação. O diretor regional do Unicef para a América Latina e o Caribe criticou os meios de comunicação que mostram os jovens como criminosos e jamais chegam aos adultos que, na verdade, estão por trás dos crimes.

Nils citou exemplos de como a mídia trata as questões relacionadas às drogas, crianças-soldados, adoção, entre outras, em diversos países, incluindo o Brasil. Segundo ele, muitas vezes os meios de comunicação distorcem a realidade e influenciam negativamente a opinião pública. Ao falar sobre a criminalidade, disse que a mídia brasileira, quando mostra as instituições onde jovens cumprem medidas sócio-educativas, não deixam claro que apenas 3% desses adolescentes estiveram envolvidos com o homicídio. Dessa forma, o público passa a crer que todos os adolescentes reclusos são homicidas.

A palestrante Carla Camurati, da Copacabana Filmes, ressaltou a diferença brutal das realidades de crianças da periferia e de classe média / alta e o acesso que elas têm a tantas mídias diferentes. ‘Nem as professoras estão preparadas para atender estas crianças carentes, desgostosas com a situação em que vivem. A gente exige que esses meninos e meninas tenham um valor moral, mas eles crescem vendo o roubo, o tráfico, a violência como coisas normais. Se a gente não começar a mudar isso de alguma forma, o que fazer no futuro? Este fato é ignorado pelo poder público e pelas empresas de comunicação, que podem fazer muito para diminuir esta disparidade’, disse.

Durante o evento, os participantes analisaram entre outros meios, o rádio como instrumento para integrar e educar meninos e meninas no mundo inteiro. O artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que diz que todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão, foi citado durante a sessão paralela ‘O rádio e suas possibilidades’. Esse direito inclui a liberdade de ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

Ontem, no encerramento do evento, foi lançado um site que reunirá trabalhos acadêmicos, abrindo um espaço permanente, via internet, para troca de experiências internacionais na área. Também, durante o encontro, foi lançado o livro Remoto Controle – Linguagem, Conteúdo e Participação nos Programas de Televisão para Adolescentes, durante a sessão ‘Análise da Programação Infanto-juvenil’. Trata-se de uma análise detalhada e inédita sobre as produções da televisão brasileira voltadas ao público adolescente, fruto de uma pesquisa que contou com a colaboração de especialistas nas áreas de mídia, educação e adolescência. A obra amplia a discussão sobre linguagens e formatos dessas produções, abordando também educação voltada à área e a participação da sociedade civil, crianças e adolescentes na produção de mídia. Mais informações no site: www.andi.org.br.’

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