Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Memórias constrangedoras

27/10/2009 na edição 561

‘A voz dos animais serve unicamente para expressar a vontade, em suas excitações e movimentos, mas a voz humana serve para expressar o conhecimento’ (Schopenhauer)

O telejornal de maior audiência no Brasil abriu a noite do último dia 22/10 contando a história de uma mãe que decidiu construir uma cela dentro de casa para impedir o filho, viciado em crack, de sair. Uma especialista foi convocada para explicar o caso e conversou com os apresentadores. Falou da droga e sua potência, do quanto é difícil lidar com a situação dentro de casa, deu dicas, mas nem tocou no óbvio: por quê?

O tempo de televisão é caro e o desse telejornal específico chega a custar mais de 300 mil reais em apenas 30 segundos. Mas se podem oferecer um programa inteiro ao espetáculo agendado (queda de aviões comerciais, morte do papa, Michael Jackson ou Olimpíadas), por que não ir fundo nos assuntos sugeridos? Deleuze explica que a imagem não é objeto, mas sim, processo. Esses equipamentos têm palavras de ordem clichês de uma sociedade de controle.

Esse artigo não tem a pretensão que o telejornal teve. Não busca responder uma questão médica e individual assim, de forma rápida. O que não apareceu na matéria por conveniência, é o que está levando jovens ao suicídio ético, moral e físico na maioria dos casos: o consumo e o medo.

O fim do sentido comum

Não há como tocar nesses dois assuntos num ambiente claramente construído sobre essas bases. Assassinatos aqui, bombas ali, Nobel da Paz, corta – intervalo (compra carro tal – abra uma conta neste banco, use essa marca, beba a cerveja que desce redondo) volta do intervalo – polícia invade morro, drogas, futebol – corta! Imperativos imorais. Essa prática interfere, sim, nas relações sociais e comete um equívoco irremediável de achar que vale tudo em nome do mercado livre.

No mesmo dia, crianças da quarta série de uma escola pública do interior gaúcho brincavam de traficante em plena sala de aula, usando giz em pó embalado para substituir a cocaína. Esse desarranjo espacial em que nada fica no lugar, e tudo parece ser estranho, não é novidade. Esse período é chamado por Nietzsche como a morte de Deus. O fim do sentido comum e o nascimento de um outro, onde não há espaço para a compreensão tradicional. É nesse contexto claustrofóbico que a comunicação deve atuar sem memórias constrangedoras.

Uma vida por um tênis

Liberdade é ter o real controle sobre as escolhas, e não fazê-las achando que tem. A liberdade é a essência da possibilidade humana de existir, mas ela não pode sucumbir diante de um meio que se desloca de seu eixo num revezamento cínico entre o fim e o começo.

A diferença entre o rato e o homem é a capacidade de comunicação da espécie. Foi essa ferramenta que nos manteve vivos e não pode ser usada para aprisionar as massas. As redefinições nietzschianas do homem apontam sermos ‘o animal mais corajoso’, o animal ‘mais cruel’ e o animal ‘mais sofredor’. Por que deixamos que abusem apenas das duas últimas expectativas?

Não é mais possível viver numa sociedade fundada na desconfiança. O consumo deve ser questionado. A quase totalidade da violência que somos obrigados a comprar diariamente é financiada pelo consumo. Não é a fome nem a miséria, é o petróleo, os minerais, as pedras preciosas, os negócios que matam e fazem matar. Uma vida por um tênis.

Ainda tem apresentador com coragem de dizer boa noite!

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Jornalista, blogueiro e apresentador de TV, Fortaleza, CE

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