Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

TV EM QUESTãO > JORNAL DO ALMOÇO

Metamorfose insípida

Por Jorge Eduardo Padilha em 08/03/2005 na edição 319

Para todo telespectador gaúcho, vem sendo impossível não reparar na decadência do jornalístico Jornal do Almoço, apresentado diariamente ao meio-dia pela afiliada da Rede Globo aqui no Rio Grande do Sul, a RBS TV. Já se foi o tempo em que este programa tinha um laço real com a comunidade. Quem não se lembra dos tempos áureos do JA com Maria do Carmo, Mendes Ribeiro e Lauro Quadros, quando o formato de revista regional o tornava praticamente imbatível no horário do meio-dia? O clima era mais espontâneo, os apresentadores mais carismáticos e o telespectador podia de fato estabelecer um vínculo com o telejornal que, de uns anos para cá, vem sofrendo metamorfose. É impossível negar que o Jornal do Almoço tornou-se mais insípido. E sabe-se que existe o dedo da Rede Globo neste esforço para deixar o jornal mais sisudão.

Para começo de conversa, a cobertura extremamente estadualizada do programa faz com que o telespectador assista a notícias que não são da sua área de origem, portanto acaba não se relacionando diretamente com elas. Seria muito mais interessante para o público de Porto Alegre e região que o programa falasse mais daqui, daquilo que acontece em nossas ruas e esquinas, não sobre aquilo que se passa em Uruguaiana. E a recíproca é verdadeira para o público de Uruguaiana, que dispõe de uma RBS TV com status de geradora e possibilidade de produção local. Infelizmente, isso acontece por não se tratar de um formato jornalístico, mas sim, econômico. A fim de se fazer um jornal mais porto-alegrense, novas equipes deveriam ser contratadas e, assim, mais dinheiro investido.

Além de falar daquilo que não nos importa, o JA deve ter estabelecido um recorde mundial de intervalos comerciais. São seis ao todo num lapso de 45 minutos de programa no ar. São seis, mas poderiam ser cinco. Explico: é sabido no meio que a Rede Globo permite no máximo dois programas locais nesta faixa. E cada um deles pode comportar até dois patrocinadores, por razões de ordem comercial que não conheço.

Ninguém assistiria

Então, o que a RBS fez? Fez com que o Jornal do Almoço comece caracterizado como Jornal do Almoço e termine como JA Notícias, para que cada título comporte os dois patrocinadores permitidos. Imagine se a RBS vai perder a chance de embolsar um pouquinho mais… Novamente, um modelo comercial implantado. Poderiam ser cinco intervalos, porque aquele que faz a transição entre um título e outro não precisaria realmente existir. Certamente, o JA é o único jornalístico da TV mundial que começa com um nome e termina com outro.

Agora, o ponto que mais me chama a atenção. Muito surpreendeu a estréia de um quadro duvidoso chamado ‘Radicci Repórter’, cuja pretensão é ter um olhar bem-humorado de eventos e lugares. Acho que essa é a prova cabal de como o jornal está em decadência. Conduzido pelo chargista Iotti, o tal quadro tem humor questionável (quando tem), que apenas poucas pessoas conseguem compreender.

Sou bem franco: não gosto do quadro e no meu círculo social ninguém gosta também. Para piorar, esses tempos estava vendo uma gravação feita na Praia do Lami quando o apresentador debochou da forma física de uma senhora que estava tomando banho no Rio Guaíba. Não bastando toda a cultura doente que a nossa sociedade tem em ser preconceituosa com pessoas cujo aspecto físico é diferente, temos que agüentar isso na TV também. Em linhas gerais, estão querendo forçar a barra com um quadro que não está sendo engraçado, unicamente para alavancar os produtos do Radicci com a marca da RBS, segundo consta.

Para fechar o raciocínio, coloco na mesa a razão pela qual o Jornal do Almoço ainda não despencou de vez: nenhuma outra emissora tem coragem de fazer investimento de longo prazo numa revista jornalística (de boa qualidade, é bom que se diga) na faixa do meio-dia. Se não tem concorrência, o rei segue com sua majestade absoluta. E que não venha a RBS TV dizer que não é bem assim porque o ibope (pontos de audiência) é tanto e o share (participação no universo de televisores ligados) é quanto, porque se o JA fosse apresentado do jeito que está em outra emissora ninguém assistiria. Só é assistido da maneira que é porque está na RBS TV.

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Gerente de comunicação, Novo Hamburgo, RS

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