Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

TV EM QUESTãO > TVs PÚBLICAS

Novas tecnologias e o futuro da BBC

Por The Economist em 09/01/2007 na edição 415

Na década de 1930, ainda jovem, Norman Painting, filho de um ferroviário, vivia na região das Midlands e escutava o novo serviço de rádio da British Broadcasting Corporation. Sua mãe queria que ele conseguisse um emprego na mina, como gerente, mas aquelas vozes de Londres falando de assuntos internacionais, de cultura e de música deram-lhe outras idéias. ‘O rádio abriu uma porta para o mundo’, diz Painting, que foi para a Universidade de Oxford, com uma bolsa, e se tornou professor antes de trabalhar para a Radio 4, da BBC, no seriado The Archers. ‘Muitas vezes eu digo que, na realidade, fui educado pela BBC.’

A história de Painting ajuda a compreender a devoção que os ingleses têm pelo que chamam ‘serviço público de transmissão’ e por que o Estado gasta quantias crescentes – 5,9 bilhões de dólares de março de 2005 a março de 2006 – com a BBC. Em 2006, após um debate exaltado, o governo renovou o financiamento por mais dez anos através de uma licença-imposto compulsória (TV licence) para todas as residências com televisores. O montante exato a ser repassado para a emissora nos próximos seis anos será anunciado proximamente. Segundo relatórios recentes, a BBC terá que se conformar com aumentos anuais abaixo da taxa de inflação ao consumidor; menos, portanto, do que reivindicava. Assim mesmo, não deixa de ser auspicioso ter uma renda garantida por vários anos. Entre os países desenvolvidos, somente o governo alemão gasta mais com uma emissora pública do que o britânico. Nos Estados Unidos, os gastos são irrisórios, já que o governo prefere deixar os serviços por conta do mercado.

A situação da BBC parece segura para a próxima década. Entretanto, está ficando cada vez mais difícil argumentar que o Estado deve pagar por isso. O objetivo da BBC, segundo seu primeiro diretor-geral, John Reith, era o de ‘informar, educar e divertir’. ‘Fascinante, porém supérfluo’, disse Michael Jackson há cinco anos, quando comandava o Canal 4, uma emissora pública, financiada, porém comercial. Qualificou a missão de Reith como ‘um exercício paternalista em educação de adultos pelas classes dominantes’.

Queda de audiência

Procedente ou não a acusação, o fato é que a BBC já não tem o efeito educacional que tinha antigamente. Embora continue sendo a principal fonte de informações e o mais confiável produtor de programas de boa qualidade da Inglaterra, as mudanças que ocorreram na tecnologia e na mídia estão fragmentando sua audiência e tornando mais difícil produzir melhores programas, ao invés de mero entretenimento.

Foi fácil ganhar o interesse do jovem Painting para o projeto de John Reith porque, na época, não existiam opções. Hoje isso não corresponde à verdade. Em primeiro lugar porque surgiram novas emissoras: a ITV, à qual se seguiu o Canal 4 e o Canal 5. A partir da década de 1990, surgiram centenas de canais via satélite e por plataformas a cabo, criando um novo mundo de ‘multicanais’. A rápida ascensão da internet também fez soar um alerta aos antigos canais generalistas. As pessoas tendem a se afastar cada vez mais tanto da BBC, quanto de suas concorrentes de canais abertos.

Vinte anos atrás, a BBC detinha 47% da audiência de televisão, enquanto seus rivais – a ITV e o Canal 4 – partilhavam do restante. Atualmente, a BBC1 e a BBC2 – os dois canais abertos – detêm 33% da audiência e os serviços dos multicanais (que incluem a BBC3 e a BBC4, ambos canais digitais) representam 30%. Nas residências com parabólicas ou televisão a cabo, a presença da empresa é ainda menor: a BBC1 e a BBC2 têm apenas 23% da audiência, enquanto a BBC3 e a BBC4 alcançam 22%.

Segundo o Ofcom (Office of Communications, órgão que regulamenta as comunicações na Grã-Bretanha), principalmente os jovens estão abandonando os programas dos serviços públicos de radiodifusão. De acordo com dados divulgados, em 2001, pessoas com idade entre 16 e 24 anos passavam 74% do tempo em que assistiam à televisão vendo canais como a BBC e o Canal 4, mas em 2005 esse número já caíra para 58%.

Programas ‘exumados do passado’

A BBC tem dois excelentes canais digitais para crianças, o CBBC e o Cbeebies. Mas, por volta dos 12 anos, esse público já começa a procurar a MTV (canal de música pop) e novelas para adolescentes, como Hollyoaks, apresentada pelo Canal 4, diz Ian Parkinson, executivo da Radio 1. Atualmente, a idade média dos telespectadores da BBC1 e BBC2 é, respectivamente, de 53 e 54 anos – a mais alta entre as cinco principais emissoras de televisão.

Também os telespectadores mais pobres e com menos instrução estão se afastando. Uma programação séria sofre mais quando as pessoas procuram a televisão de multicanais – e principalmente em domicílios de menor renda, segundo o Ofcom. Os programas Correspondent, Newsnight e Horizon, da BBC – todos eles, de notícias – são assistidos por metade dos telespectadores, tanto dos que vêem multicanais, quanto televisão aberta. (…)

O resultado, como diz um executivo da BBC, é que ‘estamos oferecendo um serviço excessivo para uma audiência branca, de classe média e de 55 anos de idade’. A BBC vem tentando ampliar sua audiência. Em 2002, por exemplo, compreendendo que praticamente não alcançava o público negro jovem, lançou uma estação digital de rádio chamada 1Xtra, imitando as rádios-piratas.

Há quem diga que a BBC não atrai uma audiência jovem porque evita correr riscos. O Canal 4, também um serviço público, é um pouco mais atraente para a juventude: a idade média de seus telespectadores é de 45 anos. Kevin Lygo, seu diretor de televisão, diz que enquanto o Canal 4 é rebelde e polêmico, muitos programas da BBC são ‘absolutamente íntegros e inquestionáveis, mas também cautelosos, respeitosos, retrógrados e com toda aquela história da tradição’. Muitos dos novos programas anunciados pelo BBC, como ‘Doctor Who’, ‘Robin Hood’ ou ‘Sherlock Holmes’, são todos ‘exumados de um passado distante’. (…)

A TV on demand

A BBC vem há muito tempo tentando revezar programas mais intelectualizados com outros mais populares, num esforço para fazer com que o telespectador ali encontre o que não encontra em outro lugar. Mas a tecnologia, que influencia cada vez mais a opção do consumidor, complica essa tarefa.

A técnica do hammocking – que consiste em inserir bom material entre dois programas de sucesso (e cuja tradução literal seria ‘deitar na rede’) é tradicional na BBC. Uma adaptação recente de Bleak House, por exemplo, foi programada para logo após East Enders, uma telenovela muito popular. Mas o controle remoto e os gravadores de vídeo tornaram a técnica menos eficaz, diz Jana Bennett, diretora da BBC. ‘Atualmente, você não consegue trazer o cavalo para beber se não for realmente atraente.’ Futuramente, a senhorita Bennett irá tentar ganhar os telespectadores com o mesmo conteúdo, porém em vários canais e no site da BBC.

A BBC também vem tentando dissimular os serviços públicos entre a diversão. Sua abordagem para o tema das minorias étnicas consistia num talk-show maçante sobre discriminação, diz Simon Terrington, diretor e fundador da Human Capital, uma empresa de consultoria de mídia. Agora está mais ágil, diz ele, com programas como The Apprentice. Empresários ambiciosos são nocauteados semanalmente nesse reality show; muitos dos competidores bem-sucedidos são de minorias étnicas.

Se as novas tecnologias e as crescentes opções dos consumidores fazem a vida difícil para a BBC, também oferecem excelentes oportunidades. A empresa já conta com dez canais digitais e um site na internet com 6 milhões de páginas. Agora diz que precisa afastar-se da programação de 24 horas para entrar com a televisão on demand – tornando acessível pela internet tudo o que produziu até hoje, em grande parte grátis – ou correndo o risco de ficar para trás.

Investindo no público estrangeiro

Isso representaria um empreendimento enorme e caro. Mas ‘se a BBC não competir de modo bem-sucedido on demand‘, diz Richard Deverell, responsável pela TV, rádio e internet para crianças, ‘ela está fadada ao fracasso no longo prazo’. Em 2007, caso o Ofcom autorize, a BBC irá introduzir seu serviço ‘iPlayer’, que permitirá aos telespectadores assistirem a programas recentes que tenham perdido.

Passar para televisão on demand significa que a BBC poderia funcionar com muito menos dinheiro. Atualmente, levanta quantias expressivas de programas caros – 24 horas por dia – e torce para que os usuários que pagam imposto estejam em casa para vê-los. A empresa poderia gastar menos produzindo um número menor de programas on demand e garantindo que os telespectadores que pagam possam vê-los. ‘Temos que parar de competir em quantidade e gastar mais com menos programas de boa qualidade’, diz Deverell. Mark Thompson, diretor-geral da BBC, acredita que para alguns tipos de programa, como o noticiário, a previsão do tempo e informação em geral, a programação on demand irá exigir mais conteúdo, mas em outras categorias, como o teleteatro, é possível que a BBC gaste menos num número menor de programas e os torne mais acessíveis.

A adoção de novas tecnologias também poderia ajudar a BBC a ganhar mais dinheiro, principalmente no exterior, onde espera, no longo prazo, conseguir milhões de novos telespectadores e ouvintes. O braço comercial da BBC, BBC Worldwide, contribuiu com 145 milhões de libras para os cofres da empresa no ano passado e também amealhou centenas de milhões de libras em projetos de parceria com canais pagos, em joint ventures com empresas comerciais. Atualmente, a Worldwide planeja uma nova rede global de estúdios de produção que permitirá à BBC vender programas a mercados externos para empresas comerciais de mídia pelo mundo todo.

Contrato até 2016

Futuramente, a internet permitirá à empresa vender seus produtos diretamente aos consumidores estrangeiros, um projeto ainda mais lucrativo. Mark Thompson diz que a BBC está examinando produtos por assinatura, que poderiam ser vendidos no exterior. O site da BBC também recebe cerca de 1 bilhão de visitas por mês do exterior e a Worldwide começará em breve a ganhar dinheiro com usuários estrangeiros quando introduzir, no ano que vem, uma versão internacional com publicidade. ‘O ideal é que a BBC consiga que qualquer usuário estrangeiro nos possa pagar pelo benefício de gozar de uma televisão e rádio de boa qualidade em sua casa’, diz Simon Walker, ex-responsável pela estratégia da empresa.

Mas a empresa é ambivalente no que se refere a explicitar até onde está disposta a ir. Se, no exterior, se tornar muito lucrativa, as pessoas irão questionar por que precisa de tanto dinheiro em seu próprio país.

Há anos que se assiste a um debate acalorado sobre se a BBC deveria continuar sendo financiada por dinheiro público e, especificamente, pelo dinheiro do imposto pago por todos aqueles que têm um televisor. Afinal, muitas residências assistem ou escutam muito pouco de sua programação, mas quase todos os moradores pagam 131,50 libras anuais para ter o aparelho funcionando.

A BBC detesta a idéia de perder sua licença-imposto. Seus dirigentes preferem lutar pelo financiamento público, por décadas, se necessário, a se tornarem uma emissora comercial. Quais são as chances de que o governo decida que a BBC tem que se virar sozinha, cortando parte do subsídio público, quando o atual contrato só vence em 2016?

‘Mais forte do que nunca’

A rápida mudança para TV digital torna esse debate particularmente urgente. Dentro em breve, será prático e fácil para todo mundo optar se quer ou não fazer uma assinatura com a BBC, parcial ou integralmente.

Quando se aproximar o final do período de transição para a TV digital, o que deve ocorrer entre 2008 e 2012, o governo irá estudar outras formas de financiar a BBC após 2016. A mudança mais provável é a de que os serviços de televisão se tornem parcial ou integralmente financiados pelas assinaturas. Com o rádio levará mais tempo para se desacostumar do uso de dinheiro público, pois a maioria dos aparelhos de rádio ainda não tem a necessária tecnologia.

Abandonar o licença-imposto poderia ser complicado, politicamente: as pessoas gostam da BBC e mexer com ela pode ser perigoso. Uma pesquisa encomendada pelo governo e divulgada em setembro passado revela que a maioria dos usuários que pagam o licença-imposto estaria preparada para pagar mais pelos serviços que atualmente recebem – e muito mais, por novas opções.

Um argumento em defesa do financiamento de emissoras de serviços públicos está mais forte do que nunca, diz Mark Thompson – e os políticos do governo tendem a concordar. A fragmentação da audiência torna mais difícil para os meios de comunicação comerciais de investirem num conteúdo caro e de boa qualidade. A receita de publicidade da ITV, por exemplo, vem caindo rapidamente e, nos Estados Unidos, a NBC anunciou recentemente que iria suspender programas de roteiros caros entre 20h e 21h para enxugar custos. A maioria das pessoas concorda que a BBC faz os melhores programas de televisão e rádio do mundo. ‘O argumento de se ter um investimento combinado em qualidade irá comprovar que é persistente’, diz Thompson.

Televisão ‘ultra-local’

Um outro argumento também pode ser persuasivo. A BBC é um poderoso símbolo da cultura britânica, tanto no país, quanto no exterior. O governo, em especial, gosta da reputação da emissora em outros países. ‘Provavelmente, é mais importante para ganhar corações e mentes no exterior do que tudo o que faz o Ministério de Relações Exteriores’, diz um ministro.

Mas a BBC não é amada por todo mundo. Os mais ricos e mais velhos gostam mais do que os pobres e os jovens, os quais, na prática, são quem subsidia o acesso à televisão e rádio das residências mais prósperas.

Os concorrentes da empresa também não estão entusiasmados. Após oito décadas sustentada pelo dinheiro público, a BBC já ocupa um espaço considerável na televisão, rádio e revistas. Seu site na internet, prodigamente financiado, torna mais difícil a vida dos jornais online. Jornais regionais e estações de rádio locais estão preocupados com o projeto de expansão da BBC para televisão ‘ultra-local’. E a idéia de mudar para uma televisão on demand é particularmente inquietante para concorrentes comerciais, como a ITV e a BSkyB; eles pretendem oferecer produtos video-on-demand pela internet e receiam que o mercado poderia abortar se a BBC puser no ar milhares de horas de um conteúdo de arquivos gratuitos.

O impacto da BBC sobre seus concorrentes preocupa muito os políticos conservadores. David Cameron, líder do partido, disse, em maio do ano passado, que os pequenos negócios pela internet poderiam ser esmagados como formigas pela empresa. Pediu novas regras para impedi-la de se apoderar sorrateiramente de novos mercados. Caso os conservadores vençam as próximas eleições, a BBC poderia ficar em apuros.

(…) Mas poderia haver um clima de paz se os políticos, assim como a empresa, adotassem o princípio que é a chave-mestra do impacto da tecnologia na mídia – as opções do consumidor – e deixassem que as assinaturas bancassem pelo menos parte das despesas da BBC com a programação.

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http://www.economist.com

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