Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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O adeus do rei da noite

Por Dave Itzkoff em 19/05/2015 na edição 851

Num único salto, David Letterman pareceu atravessar todo o comprimento do palco do Ed Sullivan Theater disparando dos bastidores como se tivesse sido atirado para frente pela charanga tocada por seu bandleader de longa data, Paul Shaffer e sua CBS Orchestra, e pelo estardalhaço de seu anunciador, Alan Kalter, berrando seu nome – “Daaaaai-vid Le-terrrrr-maaaaaan!”

Era uma rotina que Letterman, 68 anos, executou vezes sem conta, mas não repetirá mais após o dia 20 de maio, quando comandará seu último episódio do Late Show, o programa da CBS que ele criou e apresenta desde 1993. Como o arremessador veterano que vem ao campo de beisebol para praticar rebatidas, ele estava aqui nesta tarde de abril em parte para aquecer sua ginga com alguns arremessos fáceis, mas, principalmente, para preparar um programa.

Nenhum espectador caseiro estava assistindo quando ele girou seu microfone como um laço no Velho Oeste, puxou-o como se fosse um cachorro pelo chão e se inclinou sobre uma dispendiosa câmera de transmissão. Era um ritual pré-gravação que Letterman estava fazendo só para as poucas centenas de membros da plateia no teatro. Ou talvez estivesse fazendo só para si mesmo.

“Tudo OK em casa?”, ele perguntou ao público. “Tudo OK no trabalho?” Recebido com aplausos e gritos de entusiasmo, ele riu e acrescentou: “Vocês não estão sentindo uma certa saudade? Será que estamos emocionalmente estáveis?”. Mas como estes fãs poderiam não estar angustiados sabendo que, nesta semana, Letterman dará um comovido boa noite a tudo isso após mais de 33 anos corridos na televisão de fim de noite – mais tempo até do que o mandato de três décadas de seu mentor, Johnny Carson. Após esse último programa, ele seguirá para casa com a mulher, Regina, e o filho de 11 anos, Harry, e tentará imaginar o que vem em seguida.

A televisão de fim de noite sentirá a perda de David Letterman, um de seus apresentadores mais inovadores e imprevisíveis que, em 1982, pegou um horário sonolento da NBC depois do programa Tonight de Carson e o transformou numa presença incessante para Listas dos 10 Mais, Truques Estúpidos de Bichos de Estimação e uma década de rotinas cômicas pioneiras.

Quase sem nenhum planejamento rígido, Letterman mostrou que a TV de fim de noite pode oferecer mais do que monólogos sobre as notícias do dia e uma conversa bem humorada com celebridades convidadas (embora ele fosse capaz de fazer isso também). Ele fez do seu programa uma casa para desajustados e esquisitões, para brigas de tapas de Andy Kaufman e solilóquios esganiçados de Larry “Bud” Melman, em que chamadores de aves campeões ou sua própria mãe eram considerados mais importantes do que estrelinhas de Hollywood e bandas de rock em ascensão.

Letterman provou que poderia se reinventar também: Quando perdeu a herança de Carson para Jay Leno, ele fez as malas e partiu para um território desconhecido da CBS e se tornou um mestre de cerimônias mais inclusivo – embora ainda idiossincrático.

Mas Letterman está deixando a biosfera do fim de noite muito diferente do que a que ele ajudou a prosperar. Apresentadores como Jimmy Fallon (que ultimamente substituiu Leno no Tonight) e Jimmy Kimmel (no Jimmy Kimmel Live na ABC) estão dominando com sua própria energia engenhosa, seu conhecimento de internet e sua visível juventude, e Letterman está prestes a ser substituído por Stephen Colbert, o sabichão politicamente informado de The Colbert Report.

Não que alguma dessas questões parecessem estar na mente de Letterman durante seu preparo do programa. Perguntado por um membro da plateia de Newberg, Oregon, se tinha algum conselho para os formandos dessa cidade, Letterman respondeu, “Tratem uma dama como uma prostituta, e uma prostituta como uma dama”. Depois de alguns risos para esta piada aparentemente pouco típica dele, o apresentador deu uma risadinha para si mesmo e disse: “Não sei porque eu diria alguma coisa assim.” “E quem liga?” disse Shaffer.

Mas por mais que ele tenha tentado esconder ao longo dos anos, Letterman liga. Como ele disse, mais sinceramente, para o homem que havia pedido um conselho para o formando, “Se você fizer coisas boas para as pessoas, jamais deixará de se sentir bem consigo mesmo.” No escritório do Late Show algumas horas depois, um Letterman contemplativo surgiu de calça cáqui e camiseta com os dizeres “Genetically Engineered Trout Is Safe!” (Truta geneticamente modificada é segura!) para refletir sobre o que havia aprendido ao longo do caminho. Nestes trechos editados dessa conversa, ele oferece suas avaliações francas e profusas sobre seus heróis, seus colegas, seus possíveis sucessores e si mesmo.

Com a chegada de seu último programa, houve momentos em que você pensou: estou saindo cedo demais? 

David Letterman – Sim, estou coberto de melancolia. No fim de semana, eu estava falando com meu filho e disse. “Harry, fizemos mais ou menos 6.000 programas”. E ele disse, (com a voz esganiçada de um menino) “É assustador”. E eu pensei, bem, de certo modo, ele tem razão – é assustador. Toda grande mudança em minha vida foi cheia de trepidação.

Quando saí de Indiana e me mudei para a Califórnia. Quando Regina e eu decidimos ter um bebê – enorme ansiedade e trepidação. Estas foram as duas maiores coisas em minha vida, e elas superaram meus sonhos mais incríveis. Estou supondo que a mesma coisa ocorrerá agora. Vou sentir falta disto, desesperadamente. Uma de duas coisas: Vai haver uma aceitação adulta, racional da transição. Ou eu me dedicarei a uma vida de crime.

Desde que fez seu anúncio, o consenso é que você parece mais relaxado e o programa parece mais solto. É assim que você vê? 

D.L. – Eu não poderia fazer essa observação, mas certamente o sinto. Porque acho que há uma diferença entre o hóquei da temporada normal e o hóquei dos playoffs. Sim, eu noto uma diferença. Quando estava assistindo programas interinos que eles fizeram sobre The Late Late Show e vi John Mayer apresentando uma noite, eu pensei, “Ohhhh, agora eu sei qual é o problema”. Porque ele é jovem. É bonito. É asseado. É espirituoso. É confortável. De modo que aí eu percebi, não tenho que me preocupar. Sei que não posso fazer o que Jimmy Fallon está fazendo. Sei que não posso fazer o que Jimmy Kimmel está fazendo. Não sobrou nada com que me preocupar. Acabou tudo, papai, você vai ficar bem. Vai para um novo lugar. Eles vão ser legais com você, papai. Você fará uma porção de amigos.

O panorama da TV de fim de noite mudou muito no período em que você esteve no ar. Acha que deixou um impacto duradouro nele? 

D.L. – Vejo que as coisas estão certamente diferentes. Muita coisa que fizemos foi ditada por Carson. Um sujeito chamado Dave Tebet, que trabalhou na NBC e era uma espécie de ligação de talentos – da maneira como Al Capone era um distribuidor de bebidas – ele veio até nós e disse: “Vocês não podem ter uma banda, Podem ter uma conjuntinho de jazz. Não podem fazer um monólogo. Não podem fazer algo como, por exemplo, Aunt Blabby. Não podem fazer Matinê de Cinema da Hora do Chá”.

Havia tantas restrições. De modo que foi esta estrutura que nós recebemos, o que foi ótimo, porque eles nos davam uma desculpa para não pensar naquela coisa para fazer.

Você inovou por necessidade? 

D.L. – Eu nunca soube se as coisas mais estúpidas que fizemos ou as coisas mais tradicionais que fizemos funcionariam. Não soube se as coisas estúpidas afastaram as pessoas. Não soube se as coisas tradicionais seriam mais interessantes. E aí, quando olho para trás agora, é claro que a resposta é, você quer fazer a coisa bizarra.

A ascensão de apresentadores como Jimmy Fallon e Jimmy Kimmel o empurraram para fora do emprego? 

D.L. – Não, eles não me empurraram. Estou com 68 anos. Se estivesse com 38, eu provavelmente ainda estaria querendo fazer o programa. Quando o Jay estava na ativa, eu sentia que Jay e eu éramos contemporâneos. Toda vez que ele conseguia um programa às 23 h 30, ele tinha êxito. E aí eu pensei, isto ainda é viável – um cara mais velho num terno. E aí ele saiu, e de repente eu estava cercado de Jimmys.

Parece que há uma ênfase crescente, ao menos em seus competidores de rede, em criar tiradas cômicas que se tornem virais na internet. Você fez uma escolha consciente de ficar fora dessa corrida armamentista? 

D.L. – Não, ela só veio e foi sem mim. Ela roçou em mim e foi embora. Algumas pessoas do staff disseram, “Sabe que seria ótimo se você entrasse no Twitter”. E eu reconheci o valor disso. A questão é que eu não sabia o que dizer. Você volta à casa de seus pais, e eles ainda tem um telefone com dial. É um pouco assim.

Teve algum envolvimento na escolha de Stephen Colbert para seu sucessor? 

D.L. – Não. Não meu programa. Quando assinamos a saída, estávamos fora do negócio com a CBS. Eu sempre achei que Jon Stewart seria uma boa escolha. E aí o Stephen. E aí eu pensei, bem, talvez seja uma boa oportunidade para pôr uma pessoa negra, e seria uma boa oportunidade para uma mulher também. Porque certamente há muitas mulheres muito engraçadas com programas de televisão por toda parte. De modo que isto também faria sentido para mim.

Mas você não foi consultado? 

D.L. – (abana a cabeça ) Ahn-ahn.

Isso o aborreceu? 

D.L. – Sim, imagino que sim. Só por cortesia, talvez alguém poderia dizer: “Sabe, estamos pensando em alguns nomes. Você tem alguma ideia?” Mas isso não me aborrece agora. Na época, eu tomei a decisão e pensei, OK, é o que ocorre quando se toma esta decisão. 

***

Dave Itzkoff, do New York Times

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