Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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O circo de horrores da televisão baiana

28/04/2009 na edição 535

Há alguns meses, a televisão baiana ganhou um foco diferenciado no horário do almoço. Tiroteios, cadáveres e corpos ensangüentados passaram a ser o ‘carro-chefe’ da programação. A retratação da agonia de vítimas ou algozes nos últimos instantes de vida adquiriu visibilidade por meio de programas autodenominados policiais ou populares.

A partir do meio-dia, sob o pretexto de mostrar a vida real, as famílias são convidadas a assistir um verdadeiro espetáculo de horrores, no qual ‘artistas desconhecidos’ são expostos em seus números mais dramáticos. Ora se apresenta o homem que, deitado no chão de um bairro da periferia, agoniza ao sentir a dor de uma bala cravada no peito; ora começa o show do jovem queimado vivo, em cima de uma motocicleta, com as mãos amarradas. Tudo sem mosaico, tarja preta ou qualquer recurso de edição.

Esta exploração da tragédia social das camadas populares rende fervorosas brigas por audiência entre emissoras, bons anúncios publicitários, além de salários que chegam a até 50 mil reais para os apresentadores. Estes, por sua vez, encenam uma estranha mistura de inconformismo e gozações diante da violência instaurada na cidade e das punições que sofrem os marginalizados, respectivamente.

Enquadramento nos ‘moldes’

As cenas de degradação humana são tão fortes que, diante de reclamações oriundas da sociedade civil e organizações, o MP (Ministério Público) precisou intervir. Foi instaurada uma investigação dos programas Se liga Bocão, transmitido pela TV Itapoan, afiliada a Rede Record, Que Venha o Povo e Na mira, ambos da TV Aratu, afiliada ao SBT.

O promotor Almiro Sena, da Vara de Cidadania, um dos responsáveis pela ação, em entrevista ao jornal Folha Salvador, argumentou que a exposição de cenas de cadáveres com detalhes de orifícios de bala e de tortura é algo que afeta de forma extremamente ofensiva o direito da população de não ver veiculadas na televisão imagens do gênero, principalmente em horário não propício.

Como resultado da investigação, o MP determinou, no dia 15 de abril, a suspensão imediata do programa Na Mira, o mais violento em termos de exibição, e que, mesmo após a abertura do processo, não demonstrou esforços para atenuar as acusações.

Porém, no dia seguinte, o Na Mira continuou no ar. A justificativa da emissora foi não ter recebido a notificação. Dois dias após a determinação, a direção do programa procurou o MP e firmou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) comprometendo-se a enquadrar o referido programa nos ‘moldes’ determinados pelo órgão.

Uma violência combate outra

A existência de programas que dão este enfoque a casos de violência na televisão brasileira não é algo recente. Desde a década de 1990, personagens como Alborguetti, da extinta Rede CNT, já adotavam esta postura. O apresentador, além de exibir corpos de criminosos, comemorava a morte deles acendendo velas e proferindo a clássica frase ‘Cemitério nele. Vai pro colo do diabo’.

A pergunta que se tem feito é como a mídia soteropolitana cedeu tanto espaço para veiculações desta espécie. Será que as emissoras não percebem que estão manchando sua imagemno próprio sangue derramado nesses noticiários? Ou será que elas ainda acreditam na teoria hipodérmica, aprendida na Universidade, segundo a qual o público simplesmente responde aos estímulos midiáticos, sem qualquer possibilidade de questionamento?

A resposta para essas indagações só elas saberão responder. Mas o que almejam está explícito em cada transmissão: audiência, dinheiro e poder. Combinação perfeita para deixar à margem todo e qualquer critério de noticiabilidade e bom senso.

Atualmente, a lona dos três circos de horrores continua de pé; eu diria até mais firme que antes, pois as imagens, mesmo embaçadas ou com mosaicos, continuam sendo exploradas e veiculadas diariamente em rede local, ou na internet, através de sites como o YouTube.

Os casos de violência presentes na capital baiana continuarão a existir enquanto o cidadão receber todos os dias, em seu próprio lar, exemplos palpáveis de que uma violência (a da polícia) combate outra (a dos marginais). A cada transmissão, vidas chegam ao fim e, junto com elas, a esperança de que este cenário se modifique.

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Estudante de Jornalismo da Faculdade 2 de Julho, Salvador, BA

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