Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

TV EM QUESTãO > CENTRAL DA PERIFERIA

O declínio do povo brasileiro

Por Aniz Tadeu Zegaib em 10/04/2006 na edição 376

O que se convencionou chamar de cultura popular até alguns anos atrás não existia. No mundo pré-industrial, a cultura popular era folclórica. Apesar de ainda persistir em nossa sociedade esse conceito, o que predomina com essa denominação são as manifestações de massa impostas pela indústria da música popular, do cinema, da televisão, do rádio e de editoras de livros e internet. No único interesse do lucro, essa indústria usa elementos manipuladores e alienantes para conservar a submissão de nosso povo aos seus desmandos.

Sinto-me agredido pelo enaltecimento do lixo, do que há de mais degradante na raça humana: a glamourização da pobreza, a valorização da alienação e da falta de educação. Não bastassem Gugus, Ratinhos e Faustões, o novo programa da Globo, Central da periferia, liderado por Regina Casé, registra a involução cultural de nosso povo, o orgulho de ser favelado, a apologia da banalização do sexo e da poesia, nada poética, das letras dos raps e dos funks.

O rap (ritmo e poesia, em inglês), como sabemos, teve sua origem com os jamaicanos que desembarcaram nos Estados Unidos na década de 1960. Os negros americanos, influenciados pelos jamaicanos, deram corpo e estilo ao novo gênero. O Brasil importou o RAP nas décadas de 1980 e 90 e, com ele, os mesmos discursos adaptados às favelas e às periferias. Se ainda houvesse alguma originalidade….

Os discursos (letras) dos rappers denunciavam a violência e as arbitrariedades sofridas nos guetos. Porém, o ritmo, forte e cadenciado como uma rajada de balas, uma dança que mais se assemelha a gingas malandras (não à malandragem ingênua, mas a malandragem bandida), a malevolências e com uma boa carga de agressividade, sugere o contrário, sugere a violência contra a violência, sugere a arbitrariedade contra a arbitrariedade. Enfim, anula-se aí a sua função inicial. Além disso, criaram-se ‘tribos’ que acabam por guerrear entre si.

Tempos de Cartola

Isso, sem contar aqueles que, abertamente, fazem a apologia às drogas, à violência e demais crimes sociais. Ritmo e poesia. Poesia feita por analfabetos literários, por um parco vocabulário exaltando gírias que mais parecem códigos entre fiéis. Nesse universo, podemos excetuar alguns poucos nomes, como Gabriel, o Pensador e outros que não me vêm à mente no momento.

O funk carioca, que nada tem a ver com o funk de James Brown e outros, é originário do Miami Bass, um tipo de hip hop primitivo americano, da Flórida, que tinha como tema de suas letras o sexo, a violência, recheadas de palavrões, sugere bem a involução do ser humano. Violência entre gangues, apologias às drogas, patrocínio do narcotráfico (não podemos esquecer que Tim Lopes foi assassinado por investigar as relações do tráfico com os bailes funk no Rio) e muito mais.

O funk carioca parece querer eliminar de vez todos os neurônios. Isso é maravilhoso para uma indústria que não quer se comprometer com a qualidade cultural de nosso povo e obter cada vez mais lucro com a ignorância alheia. Houve tempo em que as favelas cariocas, paulistas, baianas geravam grandes compositores como Cartola, Ismael Silva, Bezerra da Silva, só para citar alguns, que influenciaram toda a música brasileira de qualidade. Até hoje ouvimos Paulinho da Viola, Chico Buarque, Caetano e outros interpretando as canções desses mestres dos morros. Não é saudosismo, mas sim um registro de que, ainda hoje, dentro de uma favela, há bons criadores musicais, bons artistas plásticos, bons escritores que, quase nunca, têm seus trabalhos divulgados e enaltecidos pela indústria ‘cultural’ brasileira.

Ditadura mercenária

Essa indústria, em seu incentivo e estímulo à produção de todo esse lixo, acaba por nivelar tudo pelo que há de pior no Brasil. É fato comprovado que a formação de um povo se faz pela cultura e pela educação. Já temos, em nosso país, uma educação escolar precária que não oferece a mínima possibilidade de crescimento para a maioria dos brasileiros. Ainda temos que impor uma cultura desastrosa e miserável à nossa gente? Com a imposição dessa ‘cultura’, imaginem o povo que teremos em alguns anos…

Todas as vezes em que orquestras se apresentaram em praças públicas e em favelas, o deslumbramento do povo foi grande. O problema é que em momento algum se deu a continuidade para que esse deslumbre se perpetuasse. Isso deveria acontecer em salas de aula com projetos específicos e duradouros.

Aqui no Brasil tem-se a ilusão de que ensinar a bater em lata trará algum futuro à criança que está numa favela. Puro engano. É um mero pretexto para tirá-la do destino bandido a que estaria condenada e, assim, não afetar a sociedade constituída. Até quando será possível mantê-la longe do tráfico? Ela não será uma artista, não será reconhecida como tal. É sim necessária uma educação com conteúdo. Uma educação cultural.

As atividades artísticas (não o bater de latas) podem ajudar, mas são apenas pequena parte do desenvolvimento do cidadão. Sem uma educação adequada e sem o suporte da alimentação e da saúde, nada acontecerá. Tudo ilusão. É hora de tomarmos uma atitude, caso contrário chegará um tempo em que pensar será perigoso, com o risco de sermos massacrados por uma ditadura industrial mercenária e manipuladora.

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Artista plástico e escritor (www.tadeuaniz.com.br)

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/11/2009 Quézia Queiroz

    “GOGÒ DAS SETE”,

    Repórter de polícia Mário Eugênio é lembrado

    em livro no dia do aniversário do seu asssassinato

    (Brasília) Há 25 anos, Brasília perdia um de seus mais importantes repórter de polícia, assassinado com sete tiros na cabeça: o jornalista Mário Eugênio, personagem que se tornou popular e querido de toda a populaçao do Distrito Federal. No dia do aniversário da sua morte, 11 de novembro de 2009, o estudante de jornalismo da Universidade Católica de Brasília, Heron Luiz dos Santos, vai lançar um livro em homenagem ao repórter, intitulado “ O GOGÓ DAS SETE”.

    A obra conta a história do “Marão”, descrevendo detalhes sobre o seu assassinato e expondo os meandros do processo que se arrastou durante vinte anos. O evento – livre e aberto ao público – acontecerá na Rodoviária do Plano Piloto, no térreo, perto das escadas, a partir das 14h. Segundo Heron, o local foi escolhido para o lançamento do livro porque ‘Mário Eugênio era jornalista do povo, por isso o livro só podia ser lançando num lugar público, onde o povo está’.

    Heron, que já teve sua história contada pelo Correio Braziliense, enfrenta desafios todos os dias ao ter optado por ser também um repórter de polícia, apesar das suas condições físicas. Ele tem uma particularidade: é portador de uma lesão neurológica que o impede de falar e ser entendido, num primeiro mom

  2. Comentou em 22/10/2006 Fernando Martini

    Parabéns pelo artigo!

    Isto que escreveste é muito raro de ser lido.

    Na verdade a tal periferia, é só a periferia de dois estados. Hoje foi ao ar o programa gravado no RS.

    Achas que teve algo genuinamente da cultura popular local? Nada! Apenas manifestações de SP e RJ, que também são copiadas de fora.

    São tão pluraristas no discurso, mas na verdade são é massificadores.

    Pra quem citou ‘funk’ e ‘samba’ de qualidade, é a mesma coisa que falar em merda cheirosa, me desculpem. Quem cresceu ouvindo isso pode se tornar até físico da Nasa, mas foi privado de música de qualidade muito maior. Mas não vem ao caso.

    O mais repugnante é que sufocam toda cultura local, ‘nacionalizando’ de maneira grosseira todas as manifestações verdadeiramente populares e locais.

    Mais uma vez, parabén pelo corajoso e verdadeiro texto.

  3. Comentou em 24/08/2006 Renato Bé

    Você cita Bezerra da Silva como exemplo de compositor popular de qualidade, o que eu concordo plenamente, porém, critica largamente a apologia às drogas em letras de música. Bezerra da Silva sempre teve ‘drogas’ como tema recorrente em sua música, e nem por isso é de se desmerecer suas composições. Meio incoerente a sua análise.

  4. Comentou em 20/08/2006 Alexandre Rosa

    Comentário muito infeliz. Como sempre os intelectuais, a grande e pequena burguesia ‘classe média’, com opiniões preconceituosas.O que vocês fazem para contribuir com a melhora do nosso país. Não vêem que dependem de nos pobres até para ‘limpar suas bundas’.
    Tem uma coisa: Os projetos sociais são bons, porém não se pode criar artistas em massa, onde fica a produção deste país. Precisamos de empregados domésticos, pedreiros, jardineiros… enfim todos bem remunerados e com oportunidades de estudo para termos um bom nível cultural Sr. Aniz. Fiquem todos na paz em seus condominios de Luxo. desculpe os erros sou ‘semi-analfabeto’.

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