Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O Estado de S. Paulo

20/05/2008 na edição 486

LUTO
Antonio Gonçalves Filho

Zélia Gattai morre aos 91 anos

‘A estréia tardia da escritora paulistana Zélia Gattai – morta ontem à tarde, aos 91 anos, vítima de falência múltipla de órgãos, no Hospital da Bahia, em Salvador – não impediu que sua produção literária crescesse a uma média de um livro a cada dois anos desde 1979. Filha e neta de imigrantes italianos, a acadêmica, memorialista, romancista e fotógrafa estreou aos 63 anos, justamente com um livro que conta a vida de seus antepassados, Anarquistas, Graças a Deus (1979), relato da formação da Colônia Cecília, tentativa de criar uma comunidade anarquista em pleno Brasil do século 19. Seu maior êxito, o livro foi adaptado para uma popular série de televisão e já vendeu mais de 200 mil exemplares.

Nascida em São Paulo em 2 de julho de 1916, Zélia casou-se aos 20 anos com o intelectual Aldo Veiga, militante do Partido Comunista, o que a tornou próxima dos escritores da Semana de 22, especialmente Oswald e Mário de Andrade. Em 1938, seu pai, Ernesto Gattai, foi preso durante o Estado Novo, atiçando a militância política da futura escritora contra o arbítrio getulista. Com Veiga a escritora teve seu primeiro filho, Luís Carlos Veiga, em 1942.

Três anos depois, em 1945, ela conheceu o segundo marido, Jorge Amado, durante o 1º Congresso de Escritores. Os dois trabalharam no movimento pela anistia dos presos políticos e decidiram morar juntos. Um ano depois, quando Amado foi eleito para a Câmara Federal, o casal mudou-se para o Rio, onde nasceu o filho João Jorge Amado, em 1947. Em 1948, o Partido Comunista foi declarado ilegal, o escritor perdeu seu mandato e o casal partiu para o exílio. Jorge e Zélia viveram na Europa por cinco anos, dois deles em Praga, onde nasceu a filha Paloma, em 1951. Foi nessa época que ela começou a se interessar por fotografia, atividade que renderia, no futuro, a fotobiografia do marido, Reportagem Incompleta, em 1987.

Parte da produção memorialista da escritora, que ocupava a cadeira 23 da Academia Brasileira da Letras – a mesma do marido Jorge Amado, morto em 2001 -, é dedicada ao período do exílio europeu. Em Jardim de Inverno (1988), Zélia reúne lembranças do continente europeu ainda dividido entre Leste e Oeste. Antes dele, Senhora Dona do Baile (1984) retrata esse mundo separado pela cortina de ferro e faz desfilar por suas páginas algumas personalidades históricas do século que passou.

Dois de seus livros contam os 56 anos de convivência com o marido na Bahia, A Casa do Rio Vermelho (1999) e Memorial do Amor (2004). No primeiro, ela relata fatos curiosos sobre os intelectuais amigos que passaram pela famosa casa do casal de escritores no número 33 da Rua Alagoinhas, em Salvador, entre eles o poeta Pablo Neruda. Em Memorial do Amor, ela conta a história da casa, desde a compra do terreno (com os direitos de Gabriela, Cravo e Canela, de Amado) até a escolha dos objetos de decoração adquiridos em viagens dos dois.

Um dos livros mais elogiados da escritora foi publicado em 1982. Chama-se Um Chapéu para Viagem. Nele, Zélia narra a queda da ditadura de Getúlio Vargas, relembra a luta pela anistia dos presos políticos e conta como foi o processo de redemocratização do País.

Dois de seus livros, Città di Roma (2000) e Códigos de Família (2001), são dedicados a rememorar a formação das famílias Gattai e Amado. No primeiro, Zélia relata a chegada de seus avós italianos ao Brasil no século 19, a bordo do navio que dá título ao livro. No segundo, ela conta histórias divertidas e comoventes de suas duas famílias e decodifica as mensagens dos parentes. Zélia Gattai ainda escreveu livros infantis, como Pipistrelo das Mil Cores (1989), O Segredo da Rua 18 (1991) e Jonas e a Sereia (2000).

INTERNAÇÃO

Zélia passou por pelo menos quatro internações depois de sofrer uma queda em casa, no ano passado. Após cirurgia para desobstruir o intestino, ela teve complicações pulmonares, renais e arteriais. O velório será realizado durante todo o dia de hoje. O corpo será cremado.’

 

TERREMOTO NA CHINA
Cláudia Trevisan

Em meio à tragédia, premiê Wen afaga vítimas e reforça popularidade

‘A figura franzina do primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, transformou-se num símbolo de resistência dos chineses diante da adversidade e inspirou um enorme esforço de mobilização popular na ajuda aos feridos e desabrigados pelo pior terremoto a atingir o país em três décadas.

Logo depois do tremor de segunda-feira, Wen viajou à região afetada, no centro do país, e passou a coordenar os trabalhos de resgate dos soterrados. Desde então, todos os seus deslocamentos são registrados em detalhes pela imprensa oficial chinesa, que é uma poderosa máquina de propaganda, com redes de TV, jornais, rádios e portais na internet.

O primeiro-ministro, de 66 anos, visitou mais de uma dezena de lugares atingidos pelo tremor, falou em megafones com soterrados, participou de operações de resgate, esteve no primeiro grupo a chegar ao epicentro do terremoto e apareceu em inúmeras fotos confortando crianças e feridos. Quando esteve numa escola onde havia um estudante vivo sob os escombros, ele se aproximou e gritou: ‘Eu sou o vovô Wen Jiabao. Você precisa agüentar firme, garoto. Você vai ser salvo.’

A impressão de quem lê os jornais chineses é a de que ele está em vários lugares ao mesmo tempo e é o único responsável pelas decisões relacionadas à operação de guerra para enfrentar a tragédia.

‘O nosso premiê é nosso pai e nossa mãe’, disse Zhang Du Fang, uma mulher que decidiu ir com a irmã a Dujiangyan ajudar as pessoas afetadas pela tragédia. As duas saíram na terça-feira de Meishan, no sul da Província de Sichuan, levando água, comida e roupas. Na quinta-feira, estavam na escola onde 900 adolescentes foram soterrados pelos escombros, rodeadas de vários outros voluntários. ‘Todos os chineses são uma grande família. Nós não nos conhecemos, mas temos o mesmo objetivo de salvar pessoas. Nós podemos derrotar a adversidade’, afirmou Zhang.

Esse tom confiante é o mesmo utilizado por Wen Jiabao em suas declarações. ‘Diante desse desastre, as coisas mais importantes são serenidade, confiança, coragem e comando’, afirmou o primeiro-ministro em rede de televisão logo depois do terremoto.

A movimentação incessante do geólogo Wen Jiabao pelas áreas afetadas acabou sendo mais um estímulo para a população se engajar nos trabalhos de resgate. Milhares de voluntários levam comida, buscam feridos, confortam órfãos e ajudam na procura por sobreviventes.

Wu Yong, sua mulher, Li Qing, e o filho, Wu Li Hang, de 11 anos, decidiram ajudar os afetados pelo terremoto juntamente com outras nove famílias da vila onde moram, Wengjiang, próxima da área afetada. Na terça-feira, os dez carros foram para Dujiangyan carregados de comida, água e roupas. ‘Trouxe meu filho para que ele saiba ser solidário com outras pessoas’, afirmou a mãe. Sua amiga Li Yong também levou a filha, Yue Si Jia, de 10 anos. ‘Quando vimos no noticiário o nosso premiê ajudando as pessoas, nós choramos’, disse Li Qing.

Os carros do grupo são identificados como o de todos os voluntários: no capô é colado um papel vermelho, a cor da China, com os ideogramas ‘contribuição, sacrifício, amor’.

A atuação de Wen aumentou ainda mais a sua já grande popularidade. O primeiro-ministro é considerado um ‘homem do povo’, que passa o ano-novo com camponeses, almoça com trabalhadores de minas de carvão e está sempre presente no momento em que tragédias se abatem sobre o país.

Wen foi o primeiro líder chinês a visitar um hospital para tratamento de aids e ser fotografado dando a mão a um doente – isso em 2003, época em que o assunto era tratado como um tabu na China e havia uma enorme ignorância sobre as formas de transmissão do vírus HIV. Seu gesto foi um sinal de que o governo chinês passaria a combater a aids de maneira mais efetiva e daria mais transparência e publicidade ao problema.

Em janeiro, quando o sul do país foi paralisado por nevascas, o primeiro-ministro também comandou os trabalhos de resgate. No auge da tempestade, deu uma declaração pouco comum para um líder de um Partido Comunista ateu: ‘Temos a fé, a coragem e a habilidade para superar esse desastre.’

Os fóruns de discussão na internet freqüentados pelos jovens chineses estão inundados de comentários sobre Wen Jiabao e sua atuação em um ano especialmente trágico para o país – além das nevascas e do terremoto, um acidente de trem matou 71 pessoas e deixou 416 feridas em abril.

O grau de popularidade do premiê se reflete no apelido que muitos internautas usam para se referir a ele, Wen ‘Baobao’, um tratamento carinhoso semelhante ao ‘baby’ do inglês.’

 

PUBLICIDADE
O Estado de S. Paulo

Publicitário ganha lugar entre eleitos

‘A 49ª edição do Clio Awards, tradicional premiação do meio publicitário nos EUA, teve entre os homenageados na categoria especial que festeja o conjunto da obra de um profissional, o brasileiro Marcello Serpa. Nunca antes um publicitário latino recebeu tal distinção. Serpa é sócio e diretor de criação da agência AlmapBBDO e ganhou o Clio Lifetime Achievement em reconhecimento à sua contribuição ao mercado. Só sete profissionais estão nessa galeria: Bob Isherwood, da Saatchi & Saatchi; Bob Greenberg, da R/GA; John Hegarty, da BBH; Lee Clow, TBWA; Neil French, da WPP; David Abbott, da AMV; e Tony Kaye, cineasta.’

 

VIDA MODERNA
Ethevaldo Siqueira

Não deixe que a tecnologia domine sua vida

‘De modo quase imperceptível, eu estava sendo dominado pela tecnologia. O computador, o celular e a internet passaram a devorar horas e horas de meu tempo. Eu estava perdendo quase metade de meu dia de trabalho navegando sem rumo, dispersivamente, na internet. E, pior, estava sacrificando as coisas realmente agradáveis da vida, como o convívio com a família, o lazer e o contato com a natureza.

Suponho que muitos leitores vivam ou já viveram essa mesma situação. A todos eu digo: não se deslumbrem diante da tecnologia, por mais fascinante que ela seja. A vida tem coisas muito melhores.

Ao fazer meu diagnóstico, concluí que eu me havia transformado num usuário obsessivo dessa parafernália tecnológica que nos cerca. Alguns amigos mais próximos me punham apelidos ridículos: webdependente, bitnômano, celularmaníaco, audiovidiota.

Reconheci o problema em toda sua extensão e busquei remédio em diversos locais. Quase tudo em vão. Na internet só encontrei sugestões bizarras, desabafos, protestos e gritos de insatisfação como: ‘Um dia sem internet. Um dia sem o Google ou sem o celular’. Ou propostas de fuga para uma espécie de paraíso perdido: ‘Quero uma casa cercada de flores na Serra Gaúcha, sem TV, sem computador, sem messenger, sem Orkut, sem e-mails, sem telefone’.

Depois de longas sessões com um grupo de amigos que viviam o mesmo drama – a que eu chamei de Neuróticos Digitais Anônimos -, aprendi que não podia mais passar 6 ou 8 horas por dia na internet. Nem viver ansioso, consultando obsessivamente meu smartphone, em busca de e-mails urgentes, em restaurantes, hotéis ou aeroportos, como tantos executivos e jornalistas que conheço.

REAJA, LEITOR

Se o seu problema é o mesmo, leitor, reaja. Arme-se com mais tecnologia, para defender-se de sua tirania. Seja mais frio diante dos avanços digitais e resista ao fascínio que eles exercem. Nunca perca o senso crítico diante deles. Um amigo, pragmático, me aconselhou: ‘Use a tecnologia a seu favor, para relaxar, para divertir e para fugir da rotina’.

Ao final, me curei sem precisar banir a internet nem as novas tecnologias, para sempre ou por apenas por um dia. Apenas aprendi a dosar sua utilização para o resto de minha vida. Esse é o segredo: trabalho e lazer na medida certa. Por isso, os acessórios mais importantes de meu desktop são hoje as novas caixas acústicas do sistema de multimídia. Com o melhor áudio estéreo, posso interromper meu trabalho por alguns minutos, para ouvir música.

A cada hora de trabalho diante do computador, faço uma pausa de cinco minutos. Nesse intervalo, ouço, às vezes, a Balada nº 1 de Chopin, com Arthur Rubinstein, numa gravação em Super Audio CD. Fecho os olhos e me sinto transportado para a Sala São Paulo ou para a Concertgebow, de Amsterdã.

Com disciplina e planejamento, consegui mudar radicalmente meus hábitos de workaholic digital. E, creiam, hoje trabalho menos e produzo mais. Consigo estar à frente das necessidades. Cumpro rigorosamente os compromissos de lazer e sou mais flexível com as obrigações de trabalho.

Não navego mais a esmo na internet. Só consulto locais específicos e volto às tarefas anteriores. A não ser que seja pelo prazer de visitar uma Wikipédia ou sites muito especiais, como www.prs.com ou www.ted.com. Tudo sem neurose.

Neste fim de semana, estarei voando para a Finlândia, numa longa viagem. Diferentemente do que fazia no passado, não passarei três ou quatro horas debruçado sobre o laptop, escrevendo no avião. Minha prioridade agora é relaxar. Com meu fone de ouvido cancelador de ruídos (noise cancelor) conectado ao meu iPod, poderei ouvir pelo menos duas horas de Vivaldi, Bach, Beethoven, Brahms ou Chopin. Com o noise cancelor, o ronco das turbinas se transformará num leve ruído de fundo e eu poderei curtir o Canon de Pachelbel e, depois, mergulhar em sete horas de sono.

Ao retornar de viagens como essa, terei que enfrentar a defasagem de fusos horários, o terrível jet leg. Nas primeiras noites de insônia, meu remédio será afundar-me numa poltrona, diante do home theater e rever um show de Andrea Bocelli, Under the Desert Sky, em Las Vegas, o primeiro com canções populares em inglês e espanhol.

O receituário que aprendi com os Neuróticos Digitais Anônimos reúne conselhos que funcionam, leitor. Pense neles. Interrompa seu trabalho, para relaxar, para ouvir música ou para três minutos de alongamento. Aprenda a respirar. Você se sentirá outro.

Desligue seu celular nos fins de semana e consulte a caixa postal apenas uma vez por dia no sábado e no domingo. Pratique algum esporte. Tome mais sol e caminhe em praias desertas, ao amanhecer. Brinque com seus filhos. Viaje nas férias sem laptop. Ouça muito mais música. Troque o uísque por suco de frutas. Nas horas vazias, leia mais. Estou curtindo um livro excelente: Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson. Nas últimas férias li Jorge Amado, Lya Luft, Machado de Assis e Carl Sagan.

Em síntese: faça como eu, liberte-se da tecnologia.’

 

INTERNET
Diego Zanchetta e Rodrigo Brancatelli

O caos de São Paulo organizado nos blogs

‘A discussão sobre os novos valores do IPTU vem precedida de um comentário sobre as deliciosas receitas de uma doçaria judaica do Bom Retiro. Logo depois, um post adianta as tendências de um festival de música eletrônica marcado para setembro. No meio de assuntos tão diversos, fotos e comentários da quarta edição da Virada Cultural, realizada no mês passado. Na blogosfera paulistana, anônimos ajudam atualmente a ampliar discussões de temas e assuntos com impacto direto na vida dos moradores da capital. A São Paulo do trânsito caótico e da noite vibrante já é retratada em diversos endereços eletrônicos, criados de forma despretensiosa por profissionais liberais, estudantes, associações de bairro e até por estrangeiros radicados por aqui.

‘Acho que esses blogs estão ajudando a mudar a percepção que as pessoas têm sobre São Paulo’, diz Leandro Meireles Pinto, criador do Urbanistas.com.br. ‘A metrópole está cada vez mais vibrante, é só parar e prestar um pouquinho de atenção. Você acha que conhece São Paulo, mas, na verdade, você só conhece a sua São Paulo. Os blogs que noticiam a cidade fazem com que você veja a cidade pela ótica de outras pessoas. Você pode reclamar de um buraco, do barulho do vizinho, do trânsito, dar dicas legais de restaurantes, baladas… E aí vira uma comunidade de pessoas interessadas no mesmo assunto: a vida da metrópole.’

Há exatos dois anos, Leandro convocou três amigos de faculdade para criar um blog coletivo sobre a cidade. Hoje, são 12 colaboradores no Urbanistas e mais de 2.500 posts publicados. ‘É um canal mais rápido e mais democrático para discutir as diferentes facetas de São Paulo’, diz. ‘Quando teve o terremoto em São Paulo, logo postamos fotos e tivemos mais de 120 comentários de internautas. Também é um jeito mais veloz de cobrar as autoridades, quando vemos problemas. Já fizemos até um Diário de um Vazamento, contando como estava a situação de um cano quebrado da Sabesp que jorrava água na rua.’

Com média de 6 mil acessos diários, o blog da fotógrafa Ana Carmem Foschini procura lançar imagens de fatos e lugares curiosos da metrópole – como de uma fábrica de geléias exóticas feitas à base de um purê de maçã sem conservantes ou a imagem de um cozinheiro quase dormindo em um restaurante da Vila Madalena. ‘É um jeito diferente e sem compromisso de compartilhar minhas experiências com as outras pessoas’, diz a criadora do www.anacarmen.com/blog. No portal Limão (www.limao.com.br), do Grupo Estado, pelo menos 300 internautas também discutem nos wikisites dedicados aos bairros questões que vão desde qual é a melhor academia da Vila Mariana até a atuação do Juventus da Mooca.

COBRANÇAS

Os blogs aos poucos se tornaram um poderoso instrumento de discussão para melhorias em bairros tradicionais, como é o caso do Morumbi, na zona sul de São Paulo. Responsável pelo endereço blogdomorumbi.com.br e morador do bairro, o jornalista Joaquim de Carvalho, de 44 anos, diz ter criado o blog a pedido de vizinhos, sem nenhum objetivo financeiro.

‘E vem dando resultado. Outro dia, coloquei um post dizendo que uma praça estava sem luz. No dia seguinte, a Prefeitura foi lá e colocou uma nova iluminação’, relata o jornalista, que também fala de amenidades, como comentários sobre a inauguração do primeiro fraldário para cachorros do mundo, no Shopping Cidade Jardim. ‘A fralda é feita com manta 100% celulose e gel em flocos. É feita para absorção de xixi, não de fezes. Uma fralda pode ser usada durante seis horas. A idéia é permitir que os donos circulem pelo shopping e possam freqüentar restaurantes e cafés sem se preocuparem se seu cachorro fará xixi em algum lugar indevido’, diz o comentário do blog.

Argentino que defende São Paulo como uma das metrópoles mais vibrantes do mundo, Tony Gálvez, radicado há seis anos na cidade, criou o endereço www.blogdesaopaulo. Nele, o estrangeiro coloca as taxas de homicídio de diferentes capitais do País para mostrar aos turistas que São Paulo é menos violenta do que capitais de vocação turística como Recife e Rio. ‘Mas este blog não é um livro sagrado’, avisa o argentino aos usuários, sobre eventuais erros de informação. ‘O que eu falo sobre hotéis e restaurantes, por exemplo, é uma opinião pessoal, como consumidor.’

Na maior parte dos blogs, a fotografia é o elemento principal para informar os usuários de uma determinada situação – como o descarte irregular de entulho em uma praça, por exemplo. No blog www.cidadedesaopaulo.blog.br, o estudante Guilherme Lara Campos, de 24, posta todo dia uma foto e abre a discussão com os blogueiros sobre a imagem. ‘Minha proposta é olhar São Paulo com mais amor e menos frieza’, filosofa.

Consultor na área de mídia digital, Fernando Correa do Carmo, de 35 anos, com mestrado concluído na Cásper Líbero sobre o assunto, afirma que a blogosfera veio para ficar na internet. ‘No Brasil, só estamos percebendo agora as trocas de experiências e de informações que os blogs promovem. Você tem um meio de expor suas aflições em um País onde a população quase sempre fica desassistida pelo poder público nas horas que mais precisa.’’

 

REVISTA
Francisco Quinteiro Pires

As cicatrizes de uma escravidão

‘A capa da Revista de História da Biblioteca Nacional (nº 32, 98 págs., R$ 8,90) apresenta um retrato – do fotógrafo Augusto Stahl – que mostra um escravo negro com o rosto marcado por cicatrizes. Ele é o símbolo da proposta da publicação que, aproveitando os 120 anos da Lei Áurea, faz um debate ‘sem retoques’ sobre a abolição. As marcas do tempo não podem ter disfarces ou tons suaves, nesse caso.

O especial sobre a efeméride reúne a opinião de oito especialistas, entre eles José Murilo de Carvalho, Lilia Moritz Schwarcz e Nei Lopes, sobre as origens de um processo histórico ‘que não terminou’. Os textos colocam em evidência os grandes atores desse evento.

No breve ensaio intitulado A Cor da Cultura, o sambista Nei Lopes fala da intensa criatividade cultural de descendentes de escravos no período posterior à abolição até 1920, quando se realizou o recenseamento da população brasileira. Autor de Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, ele cita o mandato presidencial do ‘afrodescendente’ Rodrigues Alves como aquele que pôs em prática um programa cultural europeizado. ‘Desde a abolição, a elite se empenhava em construir a nação que sempre pretendeu. Nela, a cultura africana e mesmo a presença negra eram indesejadas.’ Mas a realidade mostrou que o ideário racista não prevaleceu de todo, como demonstram a mestiçagem racial e o hibridismo cultural do País.

Os descendentes dos escravos buscaram a afirmação por meio de práticas culturais. Nei Lopes dá exemplos em diferentes áreas. Na música Pixinguinha, Paulino Sacramento e Chiquinha Gonzaga. No teatro Benjamin de Oliveira, ‘o palhaço negro’, Eduardo das Neves e Grande Otelo. No jornalismo, Francisco Guimarães, o Vagalume, e Zeca Patrocínio.

A religião vinda da África preservava elementos míticos alternativos ao esquema explicativo do mundo representado pelo cristianismo. Um panteão de outras divindades ficava à disposição dos brasileiros. As bases do culto aos orixás jeje-nagôs se fortaleceram e difundiram no eixo Rio-Salvador, de acordo com Nei Lopes, por meio da ialorixá Mãe Santinha. Esse seria ‘o mais forte traço da africanidade brasileira’. Os batuques bantos recriados no meio rural estavam no amálgama originário do samba.

Segundo Nei Lopes, os negros e os mulatos continuam como coadjuvantes na cena cultural de hoje. Essa criatividade é tolhida atualmente pela mídia e pelo mercado – ‘que ainda nos querem do jeito que a sociedade brasileira nos queria cem anos atrás’.’

 

ENTREVISTA / NEY LATORRACA
O Estado de S. Paulo

‘Folhetim é um gênero que vai sobreviver sempre’

‘Nascido em Santos, em 1944, Antonio Ney Latorraca estreou como ator na Rádio Record aos 6 anos. A primeira vez no palco foi com a peça Pluft, O Fantasminha, de Maria Clara Machado, dirigida por Serafim Gonzales. Em São Paulo, conhece Cacilda Becker que o incentiva a entrar na EAD, o que ocorreria em 1967. Antes participou de Reportagem de Um Tempo Mau, de Plínio Marcos; inicia-se a sua trajetória profissional no teatro, atuando em dezenas de peças, entre elas Bodas de Sangue e Quartett. Com O Mistério de Irma Vap, de Charles Ludlan, dirigida por Marília Pêra, ele ficou 11 anos em cartaz. A estréia no cinema (Audácia, A Fúria dos Trópicos) e na televisão (Super Plá) foi em 1969. Entrou na Globo em 1974, na novela Escalada, de Lauro César Muniz. Após fazer um personagem fora dos padrões na série O Sistema (o vilão Katedref, na Globo), ele volta à TV como um – aparentemente – pacato pai de família em Casos e Acasos, que será exibido nesta quinta.

Qual folhetim é capaz de sobreviver ao tempo?

É um gênero que vai sobreviver sempre. Já faz parte do cotidiano da teledramaturgia.

Quais os piores clichês das novelas? E quais os indispensáveis?

O pior clichê: ‘Preciso falar uma coisa importante’, no fim do capítulo. O bom clichê: depois do beijo, um tapa na cara.

Qual é a novela que merece reprise?

Vamp, de 1991, novela do Antonio Calmon com direção de Jorge Fernando, porque foi uma das novelas de maior sucesso da televisão brasileira, atingindo todas as faixas etárias.

Qual foi a última novela que o deixou pregado em frente à TV?

Nunca fico preso a uma novela. Gosto de assistir a alguns capítulos.

Você é mais Janete Clair ou Dias Gomes? Novela das seis, das sete ou das oito? Novela de época ou novela contemporânea?

Na verdade, sou mais o conjunto da obra. O que importa são as pessoas e não os núcleos. Tanto a Janete como o Dias foram excelentes dramaturgos.

Cite uma novela que você sabe que foi boa, mas que não acompanhou.

O Grito, de Jorge Andrade, porque abordava temas de grande seriedade e foi muito bem realizada.

Qual é o melhor remake de todos os tempos?

Anjo Mau, porque tinha todas as características de um grande folhetim.

Cite um excelente ator que ainda não encontrou um papel à sua altura. E um outro, que sempre eleva um papel, seja ele qual for.

Sebastião Vasconcellos é um ator genial. Merece muito mais espaço. Quem melhora tudo? Penso em Otávio Augusto e Carlos Vereza.

Que novela você gostaria de ter feito?

Gabriela, porque foi uma novela muito bem adaptada da obra de Jorge Amado. Faria qualquer papel masculino, porque todos eram ótimos.

Qual novela começou mal, mas acabou surpreendendo ao longo dos capítulos?

Um Sonho a Mais, pelos desdobramentos que se incorporaram à trama inicial.

Qual a primeira novela que se lembra de ter acompanhado?

Escalada e Estúpido Cupido.

Qual a novela mais revolucionária de todos os tempos?

Beto Rockefeller, pela linguagem inovadora para a época.

Qual a cena que nunca saiu de sua memória?

Sônia Braga em cima do telhado em Gabriela, direção de Walter Avancini. E todas as cenas de Dina Sfat.

Com quem gostaria de trabalhar na TV, mas ainda não trabalhou?

Gostaria de trabalhar com Luiz Fernando Carvalho. Acho excelente, nunca trabalhei com ele.

Se você fosse um personagem de novela, gostaria de ser interpretado por qual ator?

Acho que o Nelson Xavier faria muito bem.

E se pudesse interpretar um personagem de época, qual figura histórica escolheria?

Santos Dumont.

Qual é o seu casal de mocinhos preferido?

Tarcísio Meira e Glória Menezes.

Qual o melhor vilão da história da TV?

Beatriz Segal, na personagem Odete Roitman, e Rubens de Falco, como o vilão Leôncio de A Escrava Isaura.

Qual atriz faz a mocinha sofredora perfeita e a vilã mais odiável?

Glória Pires e Alessandra Negrini.

De qual novela você mudaria o final?

Não saberia dizer. Nunca pensei nisso porque já faz parte da novela o final feliz.

Qual deve ser a maior virtude da novela?

Trazer alegria e diversão.’

 

 

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