Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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O futuro digital já é passado

Por Nelson Hoineff em 11/01/2005 na edição 311

Há uma peculiaridade interessantíssima na cobertura que os jornais vêm dando à questão da implantação da TV digital no Brasil. Os veículos costumam tratar o assunto como se fosse da esfera da ficção científica. Para a maioria dos jornais brasileiros, o desenvolvimento das plataformas digitais de transmissão é coisa a ser discutida entre Anakin Skywalker e Obi Wan Kenobi, personagens do filme Guerra nas estrelas.

Pois não é. A televisão digital já é há bastante tempo uma realidade no mundo inteiro. Em alguns casos, as crianças que agora estão completando dois anos jamais saberão, se não lerem, que um dia existiram outras plataformas para a transmissão de sinais de TV.

O leitor merece ser informado que, ao contrário do que a leitura dos jornais lhe induz a crer, na maior parte do planeta o que se discute no momento não são mais os padrões digitais a serem adotados. A grande questão, hoje, é saber o tempo exato do switchover – ou seja, quando as plataformas analógicas desaparecerão de vez em cada área onde elas foram implantadas há 50 anos.

Isso não é apenas um exercício estatístico. É uma questão crucial no processo migratório porque, da liberação do espaço utilizado pelas transmissões analógicas, depende a abrangência da cobertura da TV digital.

Há pelo menos uma grande cidade na qual a TV analógica já desapareceu por completo. Berlim foi a primeira metrópole do mundo a desligar todos os seus sistemas de transmissão analógica. Isso não ocorreu no último fim de semana, mas em agosto de 2003 – portanto há um ano e meio. Em 2010, toda a TV na Alemanha já será digital.

Capacidade interativa

A preocupação é compartilhada por todos os países do primeiro mundo, que estão seguindo cronogramas rígidos de migração para o digital. Os Estados Unidos, depois de um atraso de um ano, planejam estar completamente digitalizados em 2007. Já existem nos EUA mais de mil emissoras, cobrindo 99% do território americano, transmitindo em DTT (transmissão digital terrestre). Ali, as vendas de receptores digitais tiveram um boom em 2004, com mais de 10 milhões de aparelhos vendidos. Em 2006, os aparelhos analógicos deixarão de ser fabricados.

Não custa lembrar, para quem a ficha custar a cair, que 2006 é o ano que vem. E em 2007 todas as transmissões analógicas dos EUA serão desligadas.

A Itália desligará todas as suas transmissões analógicas terrestres antes do final de 2006; a Finlândia fará o mesmo até setembro de 2007; a Suécia, em 2008; a Austrália, em 2009.

Na Grã-Bretanha, que lidera a migração para o digital, as seis principais redes de televisão transmitem neste momento tanto em analógico quanto em digital: BBC 1, BBC 2, ITV 1, Channel 4/S4C, Five e Teletext. Outras sete redes já transmitem exclusivamente em digital (BBC 3, BBC 4, BBC News 24, BBC Parliament, CBBC, Cbeebies e S4C2). Isso apenas no que diz respeito às transmissões terrestres. Já em setembro de 2001, a BSkyB havia desligado suas transmissões analógicas, tornando-se a primeira operadora por satélite (DTH, direct to home) 100% digital, o que foi seguido por praticamente todas as operadoras satelitais do mundo – inclusive no Brasil, onde Sky e DirecTV prestam este serviço.

Sem pretender enfatizar apenas o aspecto técnico, é bom lembrar que as plataformas de transmissão digital podem ser terrestres (DTT), satelitais (S-sat) ou por cabo. A capacidade interativa varia dramaticamente de uma para outra, sendo bem menor na satelital – daí o impacto relativamente pequeno da hegemonia digital nas transmissões em DTH.

Debate extemporâneo

O Digital Television Project é um programa exemplar do governo britânico voltado para o desenvolvimento e implantação da TV digital na Grã Bretanha. Num paper do projeto, intitulado ‘A guide to digital television and digital switchover’, publicado em outubro de 2004, constam muitas das informações acima expostas sobre a situação atual da televisão digital em grande parte da Europa. No entanto, é quase enigmático o fato de esse e outros papers preparados pelo mesmo projeto pouco se refiram à questão da construção do conteúdo.

Poucos programas estão fazendo isso, mesmo os mais avançados. Vale pena uma olhada em alguns dos mais estimulantes: o da Australian Broadcasting Authority, por exemplo, que estabelece não apenas os prazos para que as emissoras comecem a transmitir em digital (todas já estão fazendo isso), mas cria também um severo marco regulatório.

Menções a especificidades de conteúdo são encontradas apenas em programas que se configuram como exceções, como o da Corporation for Public Broadcasting (CPB), uma entidade privada mas não-comercial que, desde 1967, coordena as emissoras públicas dos EUA, como o sistema da PBS. A CPB reconhece – o que é compartilhado por poucas outras entidades – a necessidade de paradigmas distintos para a construção do conteúdo analógico e digital.

No Brasil, discute-se ainda o padrão digital a ser adotado. Trata-se de um debate extemporâneo e vazio, que não tem por onde frutificar. Em futebol isso tem um nome: ‘jogar para a torcida’.

Decisão para ontem

É difícil saber quem está ganhando com isso. Mas é fácil identificar quem está perdendo: o mercado (todos os mercados), a indústria, o consumidor, as emissoras e os produtores. Até hoje não é muito fácil precisar quem ganhou com o atraso de quase dez anos com que o mercado de TV por assinatura começou a se implantar no Brasil, no início dos anos 1990.

Mas o desastre em que esse mercado resultou continua se propagando, há mais de dez anos, como as ondas de um tsumani: a TV por assinatura no Brasil transformou-se num parque de diversões das grandes redes internacionais, praticamente não aumentou a oferta de produção brasileira para os brasileiros, teve impacto quase nulo sobre a diversificação e regionalização da produção, estancou em ridículos 7% de cobertura e conseguiu o supremo milagre de desestabilizar economicamente a empresa de comunicação mais sólida da história deste país.

Estamos perdendo um tempo precioso em reinventar a tecnologia digital quando deveríamos estar preocupados em investigar como tirar proveito de suas aplicações. A internet é um bom exemplo: passaram-se quase cinco anos para que se começasse a descobrir como ganhar dinheiro com a rede – e quando isso aconteceu não foi preciso refazer o que já estava feito: tratava-se meramente de ir desenvolvendo as aplicações que estavam embutidas na ferramenta.

A televisão digital não é uma figura etérea, pertencente a um futuro distante. É parte do presente de todos os países onde o mercado de televisão é minimamente desenvolvido – coisa que o Brasil se arroga a ser. A TV analógica, sim, é parte do passado – e em cidades importantes do mundo ela já é, literalmente, peça de museu.

O que pertence ao futuro, no mundo inteiro, é a descoberta das aplicações da nova tecnologia. Aplicações que não se encerrem nos pequenos gadgets que as feiras mostram, mas que contribuam para o desenvolvimento de uma programação melhor, mais apta a responder o que a sociedade pode esperar da sua televisão e a gerar mais lucratividade para quem a produz e quem a financia.

A televisão digital já é coisa do passado. O que está no futuro é a construção de seus modelos de conteúdo. Temos que decidir rapidamente para que lado queremos ir.

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