Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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O lado escuro da eletrificação rural

25/08/2009 na edição 552

Como tudo, a eletrificação rural, para alguns uma dádiva, tem seu lado escuro. Não são tantos anos assim, eu sei, mas com ela presenciei as mudanças no comportamento das pessoas lá no extremo sul do Brasil.

Eu era um sujeito urbano e, por opção, inventara atividades que me obrigavam a viajar para longe. Na época, comprava cavalos. Mas a verdade é que me sentia muito melhor naquelas paragens. Gostava da quietude quando desligava o motor do caminhão, apeava na beira de um arroio só para jogar pedrinhas e ver o redemoinho serenar. Fazia xixi usufruindo da atmosfera de paz e o silêncio. Gostava e ainda gosto do silêncio. Parava num boliche de beira de estrada. Perguntava alguma bobagem para quem estava tomando uma ‘branca’ e discutindo o preço da lã sem perguntar as horas.

Naquele então, quem mandava na vida era a luz do dia. No silêncio, todos tinham um relógio interno mostrando duas horas espaçadas para definir suas tarefas: quando o sol nascia e quando morria. Assim, nas estâncias, se aprendia a cadência dos afazeres do trabalho na amplidão dos campos. Sol nascendo e sol morrendo.

Mesmo moído da viagem de carro, dois mil quilômetros depois, era um sonho acordar na estância São Francisco do Lito Sarmento. Época com ‘seu’ Belisário ainda por lá. Grudado no escritório, um quarto com duas camas de ferro. O colchão bem duro pra ajeitar os ossos no lugar, com a mola por baixo, encaixava na gente esquentando no inverno. Teto de forro baixo de madeira, uma janela, parapeito na parede larga que dava para as mangueiras. Por um buraquinho já velho conhecido na táboa da janela, uma nesga de sol vermelho me alcançava o rosto. Me esquentando a cara. Me despertava de mim mesmo, sonhando que acordava. Pelo ouvido, lá longe, chegava o alvoroço dos João-de-Barro, o som de casco de matungo alivianando, rosc-rosc na boca do redomão recém-enfrenado. Era música.

Horários drasticamente alterados

Quando, quatro da matina, no verão, saía pelo pátio no escuro e entrava na primeira porta à esquerda. Conhecia cada peão e o calor do fogo crepitando, ouvia.

‘Dia, seo!’

Sorvo de mate, ruído das esporas no chão, pata de cusco se coçando. Mais música.

Um dia, na Estância, chegou a televisão. Treze polegadas, plástico branco, detalhes em verde alface. A bateria. A antena, um arame saindo pela janela. Nos ombros os palas mais grossos e o fogo estalando. De repente, sem feição e prosa, sumiam e apareciam na noite de Bagé, ao sul do Brasil, a seleção de vôlei e os ‘jornadas nas estrelas’. O frio e o tamanho da imagem nos embolavam, esquentavam, a peonada o Manoel Luís e eu.

Esquecer como?

Depois disso, tudo mudou no cotidiano das estâncias. Pelos ares, a televisão invadia as vidas. Num instantinho, a cozinheira preferiu ver a novela e o sabor do jantar desandou até mudar a janta de horário.

Numa fazenda vizinha, o capataz reclamou. ‘A patroa só entra na cama quando já fui dormir faz horas! E se eu procurar outra zinha no povo, ela embrabece!’

Distraídos pela televisão, todos passaram a dormir mais tarde. Os horários de trabalho foram drasticamente alterados. Deitar tarde, dormir pouco para sair, dia seguinte, sair para o campo antes do sol, era humanamente impossível.

Novos hábitos alteram cultura

Em pouco tempo, a luz elétrica, as comodidades que vinham com ela, e mais especificamente a televisão, suas atrações de entretenimento e consumo, passaram a atrair as populações rurais para as vilas. Quem chamava a todos era o ócio e a vida boba e previsível das personagens nas modernas telenovelas. As radionovelas já haviam feito muito sucesso. Os melodramas faziam companhia às donas de casa e suas ajudantes. Enquanto faziam limpeza, a comida, cuidavam dos filhos, as vozes nas histórias de amores impossíveis e os príncipes perambulavam fantasmagoricamente pelas casas de chão de taboas largas. E, onipresentes, os patrocinadores e seus jingles ingênuos.

‘As rosas desabrocham, com a luz do sol… e a beleza das mulheres, com o creme Rugol…’ O tempo passou, passamos de Rugol a L’Oréal. As criadas (termo carinhoso oriundo de ‘a menina criada por nós’) criadas no campo, quiseram trabalhar em casas de família da cidade. Atraídas pela água quente das torneiras no inverno, as máquinas de lavar, o sabão em pó, que milagrosamente limpava sozinho as escadarias para um mundo paradisíaco, lhes garantiam vidas de princesas. E a peonada saía atrás de um rabo de saia nas vilas para voltar de carona só na segunda-feira.

Enquanto as pessoas viviam tranqüilas no sul do Brasil, do outro lado do mundo, especificamente mais ao norte do continente, os sábios do marketing refletiam. E descobriram que, assim como uma mulher prendia o homem pelo estômago, para atingir o homem dessa mulher e fazê-lo consumir, era necessário fazer com que ela mudasse seus hábitos. O ponto fraco do homem ainda eram as mulheres. Os produtos que ‘deixam suas mãos mais bonitas, acabam com a sujeira mais difícil e fazem o trabalho por você!’ são os mesmos. E, até hoje, a chegada de novos hábitos, principalmente os de consumo galopante, alteram uma cultura.

Farejar o futuro

Quando se fala tanto em eco-sistema e sabemos que este sistema é (eco) abrangente, pois inclui também o sistema social, aqui de Minas, sem nostalgia, me pergunto onde uma cultura ditada pela natureza precisaria moldar-se exclusivamente por hábitos urbanos de tal forma falsos?

(Viva melhor! Tenha mais tempo para gastar e não fazer nada distraída com suas amigas. Seja mais você, não sendo ninguém! Não seja você, seja aquela que já se perdeu, quando procurou ser quem não foi, é ou será! Mais uma, seja mais uma, minha amiga!)

Nos lugares distantes haveria a possibilidade de se desenvolverem posturas inteligentes e visões críticas mais agudas sem a necessidade de fazer uma simples cópia de comportamento dos grandes centros? Ou será que lugares como Bagé – e tantos outros no sul e no norte – precisam importar também os meninos e meninas de periferia que, influenciados pelo mesmo hábito de consumo ditado pela TV, depois de buscar sua ascensão social através do uso de um tênis colorido, perderam para todo e sempre sua própria identidade?

Estaria na hora de repensar estes valores?

Afinal, o que aqui se come vem de lá e a pressa em produzir e lucrar mais faz, por exemplo, fazendeiros jogarem as vacinas de brucelose fora, japoneses untarem seus tomates com defensivos venenosos.

Sem resposta, vejo a dona Menina, minha parceira vira-lata suja de carrapichos, deitada num canto.

‘O que você acha, dona Menina?’

Ela, num primeiro momento, com esforço, abre os olhos amendoados, para logo, desinteressada, baixar as orelhas peludas. Novos olhos (e orelhas) precisam rever estas questões que são muitas e entrelaçadas, mas fundamentais nos dias de hoje. Olhar para o passado inclui farejar o futuro ainda criança.

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Compositor, educador e jornalista; Delfinópolis, MG

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