Quinta-feira, 25 de Maio de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº943

TV EM QUESTãO > PARAÍSO TROPICAL

O luxo e o lixo das telenovelas

Por Ivanir Yazbeck em 06/03/2007 na edição 423

Aí está mais uma novela das 9: Paraíso Tropical. Pelas chamadas, todo mundo já percebeu que se trata de um apanhado de clichês explorados exaustivamente em todas as novelas passadas nos últimos 25 anos, no mesmo horário, especialmente as assinadas pelo autor Gilberto Braga.


Mais uma vez, o subjornalismo instalado nos suplementos dos diários populares (O Dia, Extra e outros menos lidos) e nas revistas semanais com foco em celebridades & futilidade & vulgaridade abre espaços enormes para exaltar o autor, que despeja seu blablablá sobre a realidade que vivemos para justificar o enredo e o comportamento anacrônico dos personagens. Estréia de novela da Globo é acontecimento nacional graças à imprensa. Só no Brasil…


Os elementos que fazem parte do estreito universo dramatúrgico de Gilberto Braga são sempre o sexo como arma para chantagens e conquista do poder, homossexualismo despudorado (isto é, sem a delicadeza e tato que o tema exige ao ser abordado na TV), prostituição requintada, ausência total de ética e de romantismo nas disputas amorosas. Em todas as novelas escritas por ele, lá estão os mesmos personagens vivendo os mesmos papéis, as mesmas situações, tentando alcançar os mesmos objetivos, apenas com nomes e lugares diferentes.


Idiotas e vulgares


E lá estarão as mesmas caras e bocas dos mesmos canastrões e canastronas (salvo as exceções dos raros bons atores e atrizes nas novelas em geral) murmurando ou gemendo ou gritando histericamente o mesmo palavrório das outras novelas, para encerrar cada capítulo com as interrogações de praxe: quem comerá quem, quem trairá quem, quem descobrirá que é o pai ou a mãe de quem, quem saberá que não é o filho ou filha de quem, quem revelará para quem que ama outra pessoa do mesmo sexo.


A lista das tramas emaranhadas no novelo de todas as novelas não é muito mais longa que isso. Os assíduos novelistas saberão alongá-la com mais capacidade do que eu. Mas garanto que não muito.


São esses os suspenses que servirão ao entretenimento de dezenas de milhões de pessoas nos quatro cantos do país pelos próximos seis meses. São pessoas que necessitam de novelas assim como do ar que respiram – ainda que poluídos, não há como evitá-los, o ar e a novela. No perfil clássico do brasileiro, além de amante do futebol, samba e carnaval, também já foi incorporado o de dependente de novelas. O por quê é um capítulo a se abrir em duas longas direções, histórica e psicológica.


Odeio as novelas pela deformação que provocam nas mentes, principalmente dos espectadores carentes de princípios familiares e sociais (aquelas noções meio ultrapassadas sobre comportamento em público, respeito ao próximo, ética etc…) e de cultura adquirida nas escolas ou nos livros – especialmente na literatura.


Como se não bastassem as produzidas por nós, há a ainda as novelas importadas – uma delas atende pelo nome de Rebeldes, e nela um monte de adolescentes débeis mentais faz prevalecer seus desejos valendo-se de um comportamento desafiador no colégio, na rua e em casa. O número de fãs e cegos adeptos da sigla RBD é enorme. Uma apresentação do grupo musical, que creio que também trabalha na novela, provocou um tumulto com mortes entre milhares de adolescentes, que se acotovelaram para vê-los, em São Paulo, há pouco tempo.


Incomodam-me – e até evito – as chamadas das novelas nos intervalos dos programas que mais me atraem na Globo: jornalismo e futebol. Mas às vezes é inevitável e, sempre que isso ocorre, isto é, deparar com a chamada para a tal da Malhação ou de outras novelas, ouço, invariavelmente, diálogos idiotas e vulgares.


Enredo e originalidade, zero


Será uma estranha coincidência que só acontece comigo? Pode ser que o erro esteja no editor das chamadas, que seleciona o que há de pior no próximo capítulo e deixa de lado o melhor, o mais saudável, digamos assim, se é que existe. O certo é que, há tempos, cheguei à conclusão – presunçosa, reconheço – de que não há vida inteligente nas novelas, entre quem as escreve ou as dirige ou interpreta os pobres textos – ressalvando-se as honrosas exceções, aliás, raríssimas.


Há uma farsa intelectual por trás das novelas que se impõe graças à força estupenda do veículo que a sustenta, a TV Globo. Mas o que é pior é o incentivo e a exaltação diária no subjornalismo que elas merecem. Não se lê crítica de TV nos nossos jornais. É só exaltação na forma de notas sociais e mundanas dos artistas nas colunas ou reportagens com o destaque de um fantástico furo de reportagem sobre o futuro de determinado personagem.


Mas serão todas as novelas tão nocivas assim? Admito, com muito boa vontade, que não. As de temas históricos, por exemplo, penso que sejam mais limitadas às ousadias dos autores e diretores. Mas ainda assim… eles não resistem ao apelo da sensualidade (Argh! Como essa palavra já se gastou, de tanto ser usada para ocultar sacanagem!) em qualquer horário.


Enfim, aí está mais um campeão de audiência, assinado por Gilberto Braga, sendo servido com a pompa e as circunstâncias que todas as novelas da Globo merecem. Confiram, e depois digam se exagerei na antecipação do lixo dramatúrgico que entra em cena e da sensação permanente de déjà-vu, do primeiro ao último capítulo, que ocorrerá com todos os novelistas. Aposto que a diferença desta para as outras será a abordagem mais aberta dos temas. E é aí que mora o perigo…


Não vale o argumento favorável de que é bem feita, a produção é rica, as fotografias iniciais são lindas e coisa e tal. Isso é o mínimo que se espera da Globo: luxo. Nesse quesito, ela é nota 10. Mas nos quesitos enredo e originalidade, duvido que mereça algo acima de zero.


Desafio à criatividade


Odeio novela de televisão como subdramaturgia em relação ao cinema e ao teatro, mas não o folhetim, de onde elas têm origem. Grande parte de minha formação infanto-juvenil deu-se no cinema. Por tempos, acompanhei seriados cujos capítulos eram exibidos somente nas matinês de domingo. Conseguirá Nyoka chegar a tempo de salvar o companheiro prestes a despencar do precipício? Claro que, uma semana depois, veríamos que ela conseguiu e se embrenharia em novas perseguições a bandidos até o final do capítulo, quando um pavio será aceso para detonar uma bomba ao lado da heroína amarrada e amordaçada. Só saberíamos uma semana depois que também dessa armadilha ela se safaria.


Nyoka me ocorre como exemplo, mas havia outros heróis de seriados, que eram exibidos antes da atração principal das matinês, geralmente um bang-bang com Hopalong Cassidy ou Roy Rogers.


Outro gênero de folhetim, também muito atraente, era o impresso nos jornais ou revistas. ‘O Mistério de MMM’, em O Cruzeiro, a revista semanal de maior circulação na América Latina, foi um sucesso nacional, escrito por vários autores famosos, entre eles Raquel de Queiroz e Jorge Amado. Cabia a um deles escrever um capítulo que se encerrava com um gancho, cuja seqüência era de responsabilidade de outro autor – e assim sucessivamente, durante meses. Esse era o desafio à criatividade que eles se impunham e quem ganhava era o leitor, com textos primorosos.


Folclore de redação


Mestre do folhetim, incomparável em seu tempo, foi Nelson Rodrigues. As histórias dele eram destrinchadas diariamente e duravam uma semana, na Última Hora e, depois, no Globo, sob o pseudônimo de Suzana Flag. Tratavam de dramas urbanos, com personagens tão bem descritos que a gente imaginava esbarrar com eles em cada esquina.


Conta o folclore da redação de ambos os jornais que, muitas vezes, a um chamado ao telefone, Nelson ia atender e se distanciava da mesa. Alguém sentava em seu lugar e prosseguia, aleatoriamente, a partir do trecho interrompido. Por exemplo: ‘e, então, resignada, Cacilda enxugou as lágrimas de crocodilo…’ e o gaiato preenchia: ‘… e se dirigiu á cozinha, empunhou a faca pontiaguda…’ Nelson retornava, conferia o texto e voltava a batucar as teclas, sem pestanejar: ‘…e pensou: da próxima vez, ele me paga. Em seus olhos rútilos de paixão, brilhou uma chama de ódio…’ e a história seguia em frente.

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Jornalista aposentado, escritor, autor de oito livros, e roteirista de televisão com seis mininovelas levadas ao ar pela TV Globo no horário intitulado Caso Verdade

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/03/2007 Bruna Soares

    Toda ficção necessita de algum conflito para se sustentar. O folhetim, especificamente, se consolidou por meio do embate entre o mocinho e o vilão. É assim desde ‘A moreninha’, mas os críticos continuam cobrando menos maniqueísmo e mais nuances psicológicas das novelas. Tradicionalmente, o público médio de uma telenovela não aceita grandes ambivalências. O malvado tem que ser cruel e o bonzinho, um poço de virtudes. Este princípio faz parte da gramática do folhetim. Já o invariável triunfo do bem sobre o mal decorre da necessidade de expiação, algo inerente ao ser humano. Na antigüidade clássica, a tragédia grega já conduzia o público à catarse e a imagem teatral nos purgava do pecado.
    O que há de fascínio no mal não foi produzido pela tv, pela ficção, que dirá por Gilberto Braga. A cultura humana construiu os referenciais do ‘bem’ e do ‘mal’ muito antes da escrita. O mal, aliás, precisa ser confrontado para que prevaleça o bem. Porém, ao mesmo tempo, ele representa aquilo que nos é proibido, sendo um mistério insondável. Os novelões de Braga estão cheios de bons exemplos e mocinhos glamurosos. Nem por isso eles despertam tanto fascínio quanto os vilões. Somos eternos voyeurs, de modo que nos encanta a ‘ausência de culpa’ dos psicopatas chiques do autor. Ao menos, a crítica embutida nas suas novelas aponta para a necessidade de controlarmos nossas idiossincrasias.

  2. Comentou em 07/03/2007 Bruna Soares

    Artigo patético, eivado de caretices e pseudo-ciência. Primeiramente, é preciso desmistificar esse blablabla de que a tv ‘deforma mentes’.
    Marshall McLuhan, grande teórico do séc. XX, considera a tv um dos mais importantes meios de comunicação da história humana. Além desse status, McLuhan também procura eximir a telinha da pecha de grande vilã da cultura de massa. ‘A tv fala ao corpo’, diz, muito acertadamente. A ação do meio acontece não tanto no plano do conteúdo, mas sobretudo no plano ‘físico’, das luzes cintilantes produzidas pelos tubos catódicos. Diante da tv, nossos olhos seguem as imagens, mas, em geral, nossas mentes vagueiam por outras plagas. Isto é completamente involuntário, devido à forma como somos biologicamente programados.
    Geralmente, critica-se a tv pelos mesmos motivos que se a elogia, ou seja, pela sua fantástica penetração no cotidiano das pessoas.
    É óbvio que na telinha são vendidos certos ‘modelos’ e ‘produtos’. Contudo, eles não são a razão da desventura humana, nem a raiz da nossa alienação. Como afirma McLuhan, a televisão nasceu no seio da cultura de massa. Subtrair-lhe esta especificidade seria negar-lhe a possibilidade de pluralismo. Há na tv aberta uma programação educativa, os programas popularescos e as novelas. Assiste a cada um deles quem quer.
    Tsc, tsc. Na placidez das boas intenções às vezes repousam discursos bastante reacionários.

  3. Comentou em 07/03/2007 Cristine Souza Oliveira

    Brilhante o seu texto, bem como até os comentários da maioria dos comentaristas. Tudo o que você disse é pertinente, e para dizer a verdade, acho que não disse nem a metade do que é preciso falar sobre o assunto . Será que não é preocupante que centenas de milhares de pessoas estejam duas,quatro,seis,oito horas por dia dedicadas a assitir às tantas porcarias que as novelas da todo poderosa e as que tentam segui-la apresentam? Claro que é importante! estão deixando de produzir, pensar, criticar, decidir, para ficar à mercê de todos os contra-valores ou valores deturpados e periféricos que as tais programações apresentam.Lamentável apenas é que são pouquíssimos de nós que sabem e reconhecem estas questões, a grande massa continua chafurdando na mediocoridade, quase que totalmente alienada. Por favor, sempre traga assuntos assim à tona, divulgue mais, arregimente mais cidadãos preocupados e ocupados com este e e outros assuntos semelhantes, a fim de tentarmos mudar alguma coisa, tomar as rèdeas de nossa vida e sairmos da letargia:’ A covardia dos bons, alimenta a audácia dos maus!’ Parabéns!

  4. Comentou em 06/03/2007 Ines Veloso

    E triste ver como as pessoas estao escravas do ‘tudo por dinheiro’, ou tudo por ‘Ibope’ ; NAo se ve mais etica , moral ,preocupacao com o futuro do outro; As novelas sao capazes de retratar o que ha de pior no ser humano e colocar nas novelas de maneira a parecer que e o melhor. As pessoas estao carentes ,frageis ,sem discernimento, acabando depedentes de novelas ,como ficam dependentes do alcool,cigarro;Tudo isso e como a ‘Droga ‘: so leva o ser humano ao fundo do poco;

  5. Comentou em 06/03/2007 Roberto Porto

    Parabéns não só pelo texto (claro e perfeito) como pelo tema abordado. Concordo em gênero, número e grau com o que você, meu velho e querido companheiro, escreveu. Não apenas pela pobreza dos temas, como na repetição das tramas com outros nomes. A rigor, como diz você, só se salva o luxo da produção, costumeiro nas novelas da Globo. Talvez (quem sabe?) também uma propaganda do nosso Rio de Janeiro, tão lindo e tão perigoso. Quanto ao Nélson (com quem trabalhei) é a mais pura verdade. Eu mesmo coloquei algumas frases nas colunas de esporte dele, sem que houvesse qualquer reação por parte do brilhante escritor e dramaturgo. Fui leitor inveterado de A vida como ela é durante anos e anos. Nélson, segundo penso, estava adiantado em seu tempo, com histórias de sexo, amor, traição e morte. Graças a ele – guardadas as devidas e respeitosas distâncias – pude escrever, durante bom tempo, o Bom Dia do Programa Haroldo de Andrade , na Rádio Globo. E meu maior prêmio, na ocasião, foi o de que Haroldo (rubro-negro apaixonado como você) nem passava os olhos nos meus textos, antes de lê-los no ar, uma prova de que confiava no meu modesto taco. E só pude escrever uns 200 Bom Dia porque devorei Nélson Rodrigues. Depois fui para a Rádio Melodia e repeti a dose, claro que pisando no freio porque a emissora é evangélica. Mas, repito, aceite meus parabéns. Você é bom, isso é o que serve.

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