Domingo, 17 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
Menu

TV EM QUESTãO > SENHORA DO DESTINO

O mundo paralelo da telenovela

Por Valério Cruz Brittos e Paola Madeira em 04/01/2005 na edição 310

É sabido que a os conteúdos midiáticos não correspondem à realidade, cabendo à mídia a construção de realidades. Nem os espaços que buscam captar e informar acerca dos fatos sociais atuais conseguem uma identificação entre o exibido e o referente. Portanto, é esperado que, se tratando de televisão, especialmente as telenovelas sejam lugares de abrigo da criatividade de seus autores, diretores e demais membros da indústria, o que implica a possibilidade de surgimento de personagens, localidades e situações implausíveis. Mas quando se propõe a expressar dados correspondentes ao mundo vivido, a mídia deve buscar verossimilhança, até por motivos pedagógicos e para não estimular falsas concepções de modos de vida diversos.

Esta, no entanto, nem sempre é a prática das indústrias culturais. A telenovela Senhora do Destino, por exemplo, incorreu em três tipos de dissonância, nos capítulos exibidos nos dias 15 e 16 de dezembro de 2004. Embora grande parte não deve ter nem percebido (o que requer ampliação do grau de cuidados para com tal lógica), os receptores desta que é a principal novela da Rede Globo – posicionada na primeira colocação quanto a público, dentre todos os produtos televisivos, com audiência de 42,6 % no mês de dezembro de 2004 [Datanexus, ‘As 20 maiores audiências do período: 6 a 12 de dezembro’. disponível em (http://www.datanexus.com.br/quinze2.shtml), acesso em 23/12/2004], sendo uma fatia considerável deste resultado junto às classes subalternas – depararam-se com dissonâncias estética, econômica e espacial, todas imbricadas e com repercussões em várias áreas. Tais procedimentos tendem a produzir ou reforçar incompreensões acerca do outro, ampliando fossos econômicos, políticos e culturais.

Cidade cenográfica

Consumida não raro como sendo um retrato do Brasil, a novela distancia-se da vida vivida, o que não é tão amplamente assimilado pelo público, envolvido com todo o colorido da produção. O primeiro movimento de reposicionamento refere-se à dissonância estética, a qual diz respeito aos ambientes dos personagens populares, das classes D e E. A favela que abriga a população mais pobre da fictícia Vila de São Miguel, recém-emancipada de Duque de Caxias, um município da região metropolitana do Rio de Janeiro, tem uma aparência estética muito diversa da realidade da imensa legião de comunidades que servem de abrigo aos pobres brasileiros.

Da mesma forma, a creche do lugar mais carente da telenovela possui uma sede e um conjunto de equipamentos nada condizentes com os dramas dos cidadãos nacionais, que, antes de tudo, lutam por lugares para deixarem seus filhos e, depois, para que estes tenham as condições propícias de funcionamento. Além do mais, as mães são corretamente maquiadas e todos revelam uma condição intrínseca e de saúde incompatível com o identificado nos bairros populares do país.

Estas relações tratadas na telenovela são de suma importância para o entendimento de como a mídia age no imaginário coletivo da sociedade brasileira. As companhias produtoras e distribuidoras de bens comunicacionais fazem recortes, e, ao apresentarem dadas cenas, necessariamente utilizam-se de olhares, descartes e até posicionamentos, mas isto não deve ocorrer de forma distanciada de toda uma realidade, impressão e identificação partilhadas com os segmentos (independente do tamanho) para as quais se dirigem. Neste ponto, não há como discordar de Philippe Breton, para quem ou o ‘enquadramento se apóia na partilha a priori de valores ou de crenças ou, então, ele será invenção, combinação, em suma, ‘reenquadramento’’ [Breton, Philippe –’O enquadramento do real’, in A argumentação na comunicação, Bauru: Edusc. 1999. p 75-111. p. 75].

A dissonância estética está diretamente colada à dissonância econômica, a qual se dá na medida em que a novela é permeada por núcleos de personagens que interpretam um estilo de vida distanciado daquele que suas condições permitem. Por exemplo, um bairro de periferia que tem reivindicações por saneamento básico, iluminação, distribuição de cesta básica não possui crianças tão bem vestidas, penteadas e saudáveis. Este tipo de criança também não costuma ganhar presentes de companhias de cosméticos vendidos para as classes médias, como ocorreu recentemente, justamente por não pertencerem a famílias consumidoras desta espécie de produto. Valores necessários de serem trabalhados em uma creche de subúrbio, como higiene, planejamento familiar e alimentação adequada, foram subestimados em prol de um universal amor de mãe, na palestra realizada pela personagem principal.

A dissonância espacial também é identificada em Senhora do Destino. Para o receptor que assistiu aos capítulos em pauta e não conhece Porto Alegre e os costumes de seu povo, a cidade é uma colagem de símbolos, como a estátua do Laçador e a ponte sobre o Rio Guaíba, inseridos sobre vias desterrotorializadas, nas quais a abundância de homens vestidos com trajes típicos da indumentária tradicional (e rural) gaúcha denota sentido de localização tocando acordeons espalhados pelas esquinas. Talvez a telenovela tenha pretendido mostrar uma Buenos Aires brasileira.

Para contrabalançar a ausência de passagens gravadas em Porto Alegre, a saída foi extrapolar no sotaque dos gaúchos ali representados, nas cenas captadas na cidade cenográfica, no Rio de Janeiro, o que, ao lado das imagens (possivelmente de arquivo) justapostas de referentes da cultura regional, facilita o reconhecimento, por parte do receptor.

Espaços de discussão

Quando uma mídia propõe-se a retratar um lugar inexistente, tudo pode ocorrer, mas quando a intenção é referir-se a uma localidade presente no plano da vida dos consumidores, deve procurar ser fiel ao mundo real, a menos que tenha alguma justificativa artística para agir em contrário. Pior é que em grande medida a confusão entre ficção e realidade processa-se a partir de imposições como redução de custos para gravar nas locações adequadas e reforço de estereótipos para facilitar a fixação dos conteúdos por parte dos telespectadores. Desta forma, não por entreter, mas por sua distância dos referentes, por se tratar de um processo que vale por si próprio (sendo o fim geralmente o mesmo, a perpetuação do consumismo), o mundo contemporâneo é construído como uma sociedade do espetáculo.

‘O espetáculo é o capital em alto grau de acumulação que se torna imagem’, correspondendo ‘a uma fabricação concreta da alienação. A expansão econômica é sobretudo a expansão dessa produção industrial específica’ [Debord, Guy – A sociedade do espetáculo, Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. p. 24-25].

Por meio da associação de imagens, a Globo (e os realizadores de cultura industrial em geral) constrói textos próprios, divergentes dos originais, como fez com Senhora do Destino e na maioria de suas produções. Vale registrar, ainda, que a atuação da publicidade na televisão vem sendo modificada com o passar dos tempos.

A publicidade no interior da narrativa (o product placement, no Brasil popularmente conhecido como merchandising), que anteriormente primava pela sutileza, funcionando as marcas e mercadorias mais como cenário, com os objetos colocados em cena exercendo uma função demonstrativa, agora tem um papel mais ativo, integrando o diálogo dos personagens, inserindo-se mais completamente no contexto da cena. Nos capítulos em estudo tal mudança procedimental pôde ser constatada.

Como a televisão não se adapta às ruas, os demais campos sociais tentam acomodar-se ao timing televisivo, o que implica descaracterização, por menos purista que seja o patamar analítico. Ao cabo é a TV que acaba disciplinando e normatizando como os agentes devem comportar-se para que sejam publicizados, ou seja, para que o mundo passe a saber de sua existência e suas manifestações possam fazer um mínimo de sentido, estando a contemporaneidade capitalista acoplada à mídia.

Os tempos reais e os espaços virtuais engendrados, entretanto, poderiam desvirtuar-se mais da totalidade do sistema, sendo menos legitimadores da ordem vigente, assim como os indivíduos podem exercitar seu processo de representação motivados por seus interesses. Como saída a curto prazo, deve-se é estimular a proliferação de lugares de discussão, leitura e desmistificação da mídia, bem como o arranjo de normas legais coadunadas com os interesses da maioria.

******

Respectivamente, professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, editor do periódico acadêmico Eptic On line-Revista Electrónica Internacional de Economía Política de las Tecnologías de la Información y de la Comunicación (www.eptic.com.br) e presidente do Capítulo Brasil da Unión Latina de Economía Política de la Información, la Comunicación y la Cultura (ULEPICC-BR), e-mail (val.bri@terra.com.br); bacharel em Comunicação Socialpela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), integrante do Grupo de Pesquisa ‘Comunicação, Economia Política e Sociedade’, e-mail (cosmique@terra.com.br)

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem