Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

TV EM QUESTãO > MUNDO DAS TELENOVELAS

O ópio do povo

Por Geraldo Almendra em 28/12/2004 na edição 309

Nero servia ao povo o ópio do circo. Nossos ‘senhores’ servem ao povo o ópio das telenovelas. Esta cena se repete diariamente, de segunda a sábado: milhões de pessoas, de todas as idades se reúnem, em frente à televisão, para acompanhar seus lixos culturais, sendo que não estamos nos referindo aqui de TV a cabo ou satélite, não acessível ao povo remediado, pobre, marginalizado e miserável que representa 90 % de nossa sociedade.

A TV aberta, por meio de suas novelas e outros diversos tipos de programas de péssima qualidade, tem um papel preponderante na formação da sociedade devido, principalmente, à permissividade das famílias, que, por diversos fatores, deixam que seus filhos passem, muitas vezes, mais tempo vendo televisão do que nas aulas de suas escolas, ou lendo bons livros ou mesmo fazendo seus deveres.

Crianças e adolescentes são vítimas diretas da telealienação que influencia a constituição do seu caráter e de sua personalidade, pois a maior parte dos ambientes familiares está sofrendo processos de desagregação característicos da sociedade moderna. A maioria dos pais, envolvida em sua luta para a sobrevivência profissional ou na manutenção de um mínimo padrão de vida, passou a ter tempo limitado para exercer um adequado papel na educação dos seus filhos, deixando-os entregues a um perigoso processo de distorção e realce equivocado de seus valores fundamentais com o auxílio da promiscuidade moral e ética contida nas lições diárias, sistemáticas e repetitivas da escola aberta da alienação popular.

Afirmar que a televisão apenas reflete os costumes em uma sociedade em que predomina o analfabetismo cultural é uma grande tolice, dita certamente para defender os interesses sub-reptícios dos poderes dominantes, que não querem correr o risco de responder, para uma sociedade com uma formação mais complexa, as críticas conscientes dos seus atos.

Ídolos de barro

Existe uma relação direta entre a degradação dos costumes enfatizada ao longo dos capítulos das novelas e a licenciosidade observada nas relações sociais, o que já é uma marca registrada em nossa sociedade, fortalecendo uma absurda banalização – perigosamente pejorativa – dos comportamentos, independente de classes sociais. Um círculo vicioso se consolidou no nosso país, no qual a ausência de uma formação cultural básica tomou conta de uma parcela majoritária de sua população, permitindo a realimentação do processo de alienação das massas, por obra e arte de um equivocado e maquiavélico processo educacional e de controle da consciência popular, semeado e sempre fortalecido em suas raízes, pelos poderes dominantes.

A partir do advento da televisão, para complementar o trabalho meticuloso de destruição da consciência crítica do povo, foi incentivada a criação de uma demanda crescente por porcarias ‘ao vivo’, fortalecendo ainda mais a banalização do comportamento social, fazendo com que o ibope daquilo que não presta seja o alvo predileto dos que produzem as telenovelas. É justamente esta característica, a mais atrativa para os manipulados e telealienados, que nossas elites promovem pela televisão comum. Oferecem para os seus descendentes e cúmplices uma educação sofisticada e direcionada para perpetuar a exploração do povo.

Aquilo que é ‘vendido’ como diversão é, na verdade, principalmente no caso brasileiro, um instrumento hediondo de desvio de mentes e consciências dos inúmeros problemas que nos afligem. Com isso, ‘isentam’ as gestões públicas da cobrança pelo povo, das devidas satisfações dos seus atos irresponsáveis, incompetentes, corruptos ou ilícitos que tanto têm comprometido nossa estabilidade econômica, com sérias conseqüências em todos os aspectos sociais que limitam os sonhos de uma vida melhor.

Enquanto o Jornal Nacional formata as notícias da melhor maneira, para não afetar a imagem do governo, mesmo contribuindo com a sociedade com inúmeras denúncias de irregularidades no poder público, as novelas cumprem o seu papel de distrair o público com suas tramas de péssima qualidade cultural, moral e ética, mas produzidas com muito dinheiro e competência. O objetivo é embevecer e encher de sonhos, com seus ídolos de barro, as mentes daqueles que moram nas casas e apartamentos pobres e nos guetos residenciais onde foram alojados pelas elites.

Falta de ética

Dizer que a televisão aberta não tem nada que preste não seria uma atitude correta nem inteligente, mas dizer que ela se tornou um instrumento de cerceamento da liberdade de pensamento e julgamento da parte majoritária da sociedade (que apresenta sinais evidentes de ausência de consciência crítica e mínima formação política) é um mero reconhecimento daquilo que todos já perceberam.

Poucos têm coragem de denunciar essa covarde manipulação dos 90% do povo brasileiro que ganha, individualmente, na média, menos de 250 reais por mês. Esses não têm recursos para o acesso a uma TV alternativa, para ter outras opções de programação e usufruir o direito a um verdadeiro entretenimento que pudesse levar para os seus lares um lazer sadio associado a uma preocupação de melhorar a base cultural, moral e ética da sociedade.

Quando se declara que o povo brasileiro não tem o hábito da leitura para se livrar da praga telealienante das novelas, deve-se ressaltar que a prática que leva ao hábito da leitura de bons livros não é possível com essa vergonhosa remuneração, resultado de uma das piores distribuições de renda do mundo. É um quadro que ‘justifica’ mais uma das políticas clientelistas e assistencialistas do governo, que já gostou da idéia do ‘Cartão Bolsa Livro’, sugerida pelo neopetista senador José Sarney.

Cabe ressaltar que um dos próceres responsáveis por esse cenário social foi recentemente condecorado como uma das personalidades do ano por uma importante revista de negócios: Delfim Neto, um vivo e relevante instrumento de uma ditadura que torturou e assassinou muitos líderes civis e cidadãos inocentes. Viva a memória do povo brasileiro!

É triste assistir nosso presidente afirmar, publicamente, que é um admirador declarado das novelas da TV Globo, pois ele deveria ser o primeiro a isentar-se de prestigiar esta confessa ‘sócia’ do poder instituído, respeitando as outras emissoras, e não demonstrar tamanha admiração e apreço por um instrumento de difusão ‘cultural’ que apela para as mais diversificadas histórias de corrupção moral para ‘distrair’ o povo. Ali, a predominância de tudo que é ilícito é a âncora de audiência de uma platéia embevecida e dominada pelo luxo e a ‘competência das produções’ e, também, pela discriminatória beleza física das atrizes e atores, cujo talento sem este invólucro não presta para ser exibido em suas novelas.

Como qualificou em entrevista um ator da ‘escolinha’ da TV Globo, belo, medíocre e com um cérebro de ameba, demonstrando um profundo amor pela própria imagem: que me desculpem os feios, mas a beleza é fundamental.

A luta do bem isolado contra o mal coletivo – ressaltado diariamente nos temas das novelas – com absoluta ênfase para uma hipotética tendência da sociedade para a prática ostensiva e preferencial de atos contrários aos mais elementares princípios de moralidade, honestidade e ética, tem realimentado os desvios de conduta no dia-a-dia do ganha-perde que já caracteriza o comportamento da sociedade. É o que ocorre dentro das famílias, das comunidades sociais ou nos ambientes profissionais públicos e privados, nos quais levar vantagem na traição, na desonestidade, na manipulação ou no sacrifício do próximo se transformou em uma ideologia comportamental, plenamente vitoriosa, na formação de um povo e na construção de carreiras profissionais. O topo da pirâmide do sucesso dos ‘vitoriosos’ é tomado de assalto por aqueles que adquirem grande competência para gerar mais lucro – e mais desemprego. São os gurus da miséria da sociedade globalizada e neoliberal.

O ministro Antônio Palocci é um ‘gênio’, não importando se sua política monetária e fiscal mata ou sacrifica o povo brasileiro enquanto enche de alegria os banqueiros e os empresários, que investem sua fortuna pessoal em um mercado financeiro com risco cada vez menor, graças a um governo de falsa esquerda que trai cada vez mais suas origens e o povo que os elegeu.

Como enfatizou o sociólogo Laurindo Lalo Leal Filho, ‘uma televisão voltada para a cidadania e não para o consumo tende a se tornar criativa, instigante, reformuladora de valores e idéias. Um conteúdo que, se amplamente socializado, pode se tornar impulsionador de uma educação de melhor nível’.

O que acompanhamos, na verdade, é rigorosamente o contrário. Temos uma televisão que, por meio de suas novelas e outros programas de péssima qualidade, destrói a cidadania e seus princípios morais e éticos, promovendo uma reformulação degenerativa do tecido social e enfatizando a vitória relativa de tudo aquilo que não presta na convivência social.

O mal coletivo se consolida e o bem isolado se destaca na multidão de gente da pior qualidade – personagens preferenciais das novelas – que, conforme os seus ‘vitoriosos’ roteiros, são os reflexos da sociedade em que vivemos. Isto não é somente um insulto ao povo, mas alguma coisa que mereceria a mais profunda rejeição daqueles que ainda preservam a vontade de lutar por uma sociedade mais justa, mais ética e mais digna, independente de sua qualificação social ou cultural.

Digna de nota é a postura das organizações religiosas que, enquanto perdoam as elites e seus cúmplices pelos seus pecados e confortam os pobres e oprimidos pela sua pobreza, sofrimento e miséria, recolhendo os dízimos da esperança de uma vida melhor, omitem-se de fazer qualquer crítica aos propagadores e admiradores da imoralidade, da desonestidade e da falta de ética através das novelas. Ficam contra qualquer política pública de controle de natalidade, fazendo com que o aumento da pobreza seja um valor a ser preservado pela sociedade em ‘nome de Deus’.

Alienação coletiva

Infelizmente o presidente da República deu péssimo exemplo em declarar-se publicamente admirador e telespectador desta baixaria telealienante que invade a sala das famílias de um povo manipulado e carente de um padrão cultural que deveria engrandecer e valorizar nossa sociedade perante os olhos do mundo.

Aos poucos, a lógica do abandono do ensino nas escolas públicas, associada à utilização da televisão aberta como instrumento de alienação popular, consegue explicar a qualidade da escolha de muitos dos nossos representantes do Congresso e, por que não dizer, do nosso próprio presidente.

Enganam-se aqueles que acham que vivem numa democracia plena. As únicas liberdades de que dispomos é a de expressão, que nada incomoda os poderes dominantes, tendo em vista a cumplicidade declarada das elites e de grande parte da mídia que os sustentam politicamente; e a liberdade de lutar por direitos fundamentais, como o direito à saúde, à segurança, a uma moradia digna, à justiça e a uma educação que possibilite a todos a oportunidade de competir por um emprego com um salário decente. Esta, porém, se restringe às elites que forjam, da maneira que desejam, a consciência e a percepção política do povo, assim como os mutantes valores morais e éticos de grande parte dos políticos e governantes – condicionando sua sobrevivência política como uma merecida reciprocidade à manutenção e ao incentivo desse estado de alienação coletivo.

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Economista e consultor

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