Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FANTÁSTICO

O poder da mídia

Por José Cleves em 05/10/2010 na edição 610

O Fantástico exibiu domingo (26/9) uma entrevista feita com a arquiteta Adriana Villela, indiciada pela polícia e denunciada pelo Ministério Público por suposto envolvimento na morte trágica de seus pais, o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Guilherme Villela e a advogada Maria Carvalho, mais a empregada do casal, Francisca Nascimento.

A tragédia ocorreu no dia 28 de agosto do ano passado no apartamento do casal. A polícia não conseguiu esclarecer o caso no tempo hábil e a imprensa falhou na parte mais perigosa da notícia pela falta de questionamento sobre a contraditória investigação policial, é o que avalia este blog.

Antes de falar para a Globo, Adriana demonstrou-me a sua preocupação quanto à forma com que a matéria seria veiculada, naturalmente temendo mais um linchamento público. Suas preocupações eram justas – afinal, em casos dessa natureza a imprensa tem se preocupado muito mais com a acusação do que com a defesa, na maioria das vezes prejudicada pelo pouco espaço que lhe é dado.

Quem cala consente

Acompanhei o noticiário com o ceticismo habitual de quem já passou por esse drama. Embora desaprove a chamada que relaciona o drama de Adriana com o de Susana von Richthofen (‘duas mulheres acusadas de matar os pais’), considerei a reportagem positiva do ponto de vista jornalístico, até porque, de fato, a única coisa que elas têm em comum é exatamente a acusação.

São situação distintas, no ponto de vista do envolvimento de cada uma no crime. Adriana tem a prerrogativa de presunção da inocência, diferentemente do caso de Susana, que é ré confessa. Foi condenada a 38 anos de prisão e demonstra uma personalidade psicopata.

A equidade jornalística exige um equilíbrio cauteloso sobre denúncias dessa natureza, quando o réu é inconfesso e não há elementos probatórios que justifiquem um convencimento pleno da culpa. Neste caso, recomenda-se um espaço maior para o suspeito, que na fase de trepidação moral não teve a oportunidade de se defender nos autos, exatamente porque a investigação policial não permite o contraditório.

Por essa razão, considerei a reportagem do Fantástico séria e pautada no interesse público, na ética e no bom senso, ao permitir que a filha dos Villela pudesse, enfim, se pronunciar a respeito das acusações que lhe são feitas pela polícia e a imprensa que, salvo algumas exceções, comprou lacrada a versão policial.

Adriana foi corajosa ao fugir do senso comum e criticar duramente o trabalho da polícia. O protesto público e desafiador de pessoas acusadas de algum crime é um bom sintoma de inocência. Embora seja um direito sagrado do cidadão acusado silenciar-se (art. 5º da CF), esse silêncio, embora às vezes estratégico (seja para evitar uma exposição maior, por medo de retaliações ou de interpretação equivocada da mídia e da opinião publica e/ou, ainda, por uma mera estratégia da defesa), nunca é bom para quem é inocente. Afinal, quem cala consente.

Em benefício da cidadania

Relaciono abaixo algumas contradições da atabalhoada investigação policial que me dão motivos suficientes para acreditar mais na inocência do que na culpa da filha dos Villela:

1. Adriana nega a autoria do crime e não há no inquérito nenhuma prova concreta de que ela participou do mesmo. Não há testemunhas, não há prova material e circunstancial (alguém, de seu porte físico não teria condições de esfaquear três pessoas sem sofrer qualquer arranhão);

2. A mecânica do crime indica que houve mais de um elemento na cena do crime e essa pessoa não é identificada no inquérito;

3. O argumento de que Adriana seria a mandante do crime é prejudicado pela ausência dos executores, nunca apresentados pela polícia;

4. A polícia diz que Adriana matou para ficar com a fortuna dos pais, mas não é razoável imaginar que alguém tão esclarecida e pacífica (não há relatos de agressividade e de insanidade mental em seu histórico de vida) mandaria matar os seus pais, já idosos, ainda mais a golpes de faca, para ficar com uma herança da qual já desfrutava;

5. Foram roubados dinheiro e objetos de valor, o que reforça a versão de um assalto, como suspeita a filha do casal;

6. As vestes das vítimas, extremamente importantes para as investigações, foram destruídas no Instituto Médico Legal (IML), prejudicando sensivelmente a apuração dos fatos;

7. Adriana tem o apoio da família e de sua legião de amigos que têm demonstrado solidariedade mais do que o suficiente para colocá-la acima de qualquer suspeita.

Por essas e outras razões, considero altamente positiva a reportagem do Fantástico ao permitir que a filha do casal desse a sua versão dos fatos nesta fase crítica da notícia. Principalmente porque Adriana já foi presa, algemada e execrada publicamente na fase policial, portanto, ‘condenada’ muito antes de seu julgamento.

Pode-se dizer que o generoso espaço ocupado por Adriana na Globo domingo revela o fantástico poder da mídia que, quando quer, exerce um papel importante e esclarecedor em benefício da cidadania, independentemente do resultado final dessa tragédia kafkaniana.

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Jornalista

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