Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MíDIA NA CPI > TV DIGITAL

O que muda com a universalização da banda larga

Por Valério Cruz Brittos e Maíra Carneiro Bittencourt em 02/02/2010 na edição 575

A promessa é que para 2010 o Plano Nacional de Banda Larga seja implantado e revisado, promovendo maior disseminação da internet no país. Com a web alcançando todo o Brasil, ocorrerão grandes mudanças no processo comunicacional. Hoje, apesar de a internet atingir parcela ainda pequena da população nacional, já impactou definitivamente o modo de pensar e fazer comunicação. A maneira como são construídos e transmitidos os conhecimentos mudaram de forma incisiva nos últimos 15 anos e outras grandes transformações ocorrerão.

Uma maior velocidade de conexão garante que o acesso a conteúdos mais pesados (como vídeos) seja viabilizado com maior facilidade. Da mesma maneira, o upload (envio de material para a rede) também encontra um caminho menos penoso – deixando de ser despendidas horas para esse processo – e isso certamente será um incentivo à produção de conteúdos para web, não somente para empresas de comunicação, como para a sociedade em geral.

Nesse sentido, a TV pela internet ganha espaço. Porém, logo aparece o questionamento do que pode ser considerado televisão. Certamente não mais aquela velha conhecida, sob o suporte do aparelho televisor, onde todos se encontravam ao seu redor para assistir à oferta das emissoras, mas um novo modo de disponibilizar e ver áudios e imagens em movimento. Na web, o fluxo (próprio da televisão convencional, em que um programa é exibido após o outro, de acordo com programação prévia da estação) altera-se, sendo possível montar a própria programação, pular o que não deseja assistir, escolher o que mais chama atenção.

Dois sub-modelos

Nos portais o modo de disponibilização dos conteúdos geralmente é com programação sob demanda, o telespectador constrói sua grade através de webcasting (clicando naquilo que deseja, no horário que mais lhe convém, ou seja, a todo momento o material está à disposição); em outros casos há a possibilidade de opção pelos vídeos em tempo real de disponibilização (o fluxo). Há ainda os modelos de coexistência de fluxo e sistema de menu, sendo o caso de alguns portais, que constantemente exibem programação em fluxo, mas que permitem ao espectador também acessar o que já foi exibido. Outra possibilidade é a opção de download de vídeos: nesse caso a apropriação do material pode ser maior, pois se faz possível pausa, interrupção, associação e visualização quantas vezes for conveniente e dos mais diversos locais, inclusive sem acesso à rede.

Ao mesmo tempo, existem os portais que disponibilizam links que dão acesso a conteúdos terceirizados. Há diversas possibilidades, as quais podem ser escolhidas de acordo com a listagem de canais, os quais podem ser acessados pelo idioma ou pelo estilo de programação desejada. Eles funcionam como intermediários para aqueles que elaboram os conteúdos digitais. Geralmente hospedam links que remetem a programações audiovisuais de vários estilos: podem ser canais com presença exclusiva na internet ou emissoras terrestres também disponíveis virtualmente.

Outro estilo de portal de televisão na web é aquele que possui programação própria. Nesse caso, a programação é elaborada especialmente para a internet, funcionando como uma TV convencional, porém agregando tecnologias possibilitadas pela web. Contém vídeos para download, acesso a programações já exibidas e interatividade, entre outros fatores.

Existem aqueles que armazenam links para programação de outras emissoras e também produzem vídeos próprios. Nesses são identificados dois sub-modelos: os que dispõem apenas programas em arquivo, para serem acessados a qualquer momento, e aqueles que fornecem programação em fluxo, ou seja, exibem conteúdos permanentemente, a partir de uma grade de horários prévia, assim como as programações das televisões convencionais.

Passagem para outro patamar causa estranhamento

Há também os que hospedam conteúdos elaborados por amadores e profissionais que ficam disponíveis apenas na forma de vídeos isolados, ou seja, sem uma programação prévia e planejada. Nesse modelo é possível criar, não existe uma programação própria, ela é feita por cada usuário, ao acessar o portal.

Os portais das empresas de televisão convencionais terrestres, analógicas ou digitais, também estão ocupando esses locais. Multiplicam-se os portais que hospedam virtualmente a mesma programação exibida de forma convencional. Esses buscam como diferencial da televisão clássica a possibilidade de download, interatividade, montagem de programação própria para cada usuário e complementação dos conteúdos através de outros recursos, como textos, fotos e gráficos.

Há ainda, divergindo dos anteriores, softwares que podem ser baixados para o computador do usuário. Após download é permitido acesso a diversos conteúdos, dentre esses programas completos, documentários, reportagens e até mesmo o acesso a programação em tempo real de emissoras de TV por assinatura ou regionais.

Com as diversas possibilidades, abre-se um espaço para uma nova televisão, ainda não difundida plenamente, devido às barreiras ainda encontradas, como a baixa velocidade de conexão, que causa travamentos ou tempo demasiadamente grande para os vídeos serem carregados. Essa longa espera pelo carregamento, ou os pulos de imagens e áudio, são motivos fortes para não fidelizar a audiência. Outro elemento, que requer muita reflexão e investimento, é a expansão quanti-qualitativa da educação tradicional-digital, formando cidadãos cognitivamente aptos e motivados a buscar na internet conteúdos diferenciados, com relação ao modelo das indústrias culturais.

Essa diferenciação, no quesito escolha, ainda não faz parte do cotidiano social. Os usuários estão muito ligados ao modelo de fluxo e de poucas opções. Como a maior parte da população utiliza essencialmente TV aberta, essa passagem para um patamar onde a grade de programação pode depender do usuário causa estranhamento. É preciso que haja um processo de formação, para que os cidadãos se sintam capacitados a optar, devendo esse tipo de educação ser pensado no âmbito do projeto de universalização de banda larga. Do contrário, a tendência é que, mesmo com as novas possibilidades, os usuários sigam pouco utilizando os muitos recursos da comunicação audiovisual, preferindo o esquema tradicional, sem maiores escolhas.

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Respectivamente, professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos; jornalista e mestranda em Ciências da Comunicação pela mesma instituição

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