Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > VIVER A VIDA

O que os olhos não veem

Por Washington Araujo em 16/02/2010 na edição 577

Não há nada melhor que viver a vida neste meu Brasil brasileiro onde o coqueiro dá coco. Ao menos na teoria, viver a vida é bom. Ora, ninguém pode afirmar que o bom é viver a morte, e se existe vida há que se viver. Nada mais óbvio. Marca do novelista global Manoel Carlos, a obra em andamento conta também com histórias reais de superação e tudo contado na eternidade dos 60 segundos logo após o último bloco do capítulo diário de Viver a vida, a novela.

Em breve a novela seguirá para seu fim e até o momento quase nada tem sido escrito por especialistas da mídia sobre as aberrações que o folhetim apresenta. Mau-caratismo, traição, adultério, ciúme, inveja, alcoolismo e uso de drogas se apresentam no horário nobre toda santa noite como aperitivo antes do desbunde geral em que se transformou o que já não era bom, o famigerado Big Brother Brasil.

As ‘vinhetas de superação’ trazendo ao horário nobre gente sofrida, abandonada, envolvida nas drogas ou no crime, pessoas portadoras de necessidades especiais e vítimas de todo tipo de violência, testemunham como foi bom ter dado a volta por cima. Porque nesse horário somente essas pessoas sabem como é viver a vida, enfrentar os desafios, superar as debilidades. Na novela tudo é caricato, tosco e apelativo. Personagens quando choram parecem estar gargalhando por dentro, e quando falam de amor optam pelo desamor, focam as desilusões e nossas pequenas tragédias humanas.

A realidade no folhetim é absolutamente virtual. Basta ver a favela de Viver a vida. Tem até jantar à luz de velas. Balas perdidas? Existe isso? Onde? Quem? O hospital do Dr. Moretti é imenso pátio de diversões onde os médicos estão sempre na lanchonete, colocando em dia seus problemas amorosos e nunca incomodados por pacientes alquebrados, gente entre a vida e a morte como é tão comum e mesmo rotineiro em hospitais. A pousada de Búzios tem clima de Copacabana Palace. Tudo na pousada é muito limpo, decoração de primeira, natureza exuberante, ninguém parece trabalhar mas tudo está sempre nos trinques e hospedes que é bom, se existem, não dão as caras. Faltou a Manoel Carlos a vivência de um feriadão em pousada de Salvador, Porto Seguro, Natal ou Florianópolis.

Trabalho infantil

Viver a vida é um vale de lágrimas do início ao fim. As pessoas choram sem parcimônia. E com gosto. Há aquela que chora porque não consegue parar de beber. Há aquela outra que chora porque está tetraplégica. Outra chora porque não consegue consumar o adultério. Há quem chore porque é abandonada pelo noivo há poucas horas do casamento. Outra chora porque o marido não aceita conviver em harmonia com os enteados, filhos do primeiro casamento. Tem quem chore porque a irmã tetraplégica recebe mais atenção da mãe e das irmãs. Há quem chore porque os filhos gêmeos estão apaixonados pela mesma pessoa. Tem quem chore por acreditar que uma pessoa tetraplégica não pode fazer ninguém feliz. É o folhetim dos vilões-fashion, gente descolada, rica e que prefere viver a vida na base de quanto mais fútil for a vida, melhor.

Até aqui nada de muito novo. O que não entendo é as autoridades responsáveis pela proteção da infância e da adolescência deixarem uma graciosa menina de apenas 8 anos de idade interpretar uma vilã. É o que acontece com a Rafaela interpretada pela espertíssima Klara Castanho. Vemos todas as noites sua infância sendo roubada. Assistimos impassíveis ao seqüestro de uma inocência que deveria ser preservada, inicialmente por seus pais, depois por essa veículo de comunicação que é uma concessão pública chamada televisão e depois pelo pessoal do judiciário, das tais varas da Criança e do Adolescente.

Rafaela se pinta com as cores da vida adulta, se veste insinuante como é comum aos jovens, é a cara do consumo-mirim sempre instigando sua mãe a comprar isso e aquilo mesmo que não tenha rendimento para tal. O pior nem é isso. O pior é o retrato de criança manipuladora e sensual, chantagista e dona de opinião sobre assuntos bem complexos para mente em formação como é o caso de aborto, mãe esperando segundo filho, vida de mãe solteira e testemunha de tórrida cena de adultério.

Será que ninguém observa nada disso? Será que ninguém vai trazer à mesa a discussão sobre trabalho infantil em programas para público adulto como é uma novela das oito? Será que toda e qualquer manifestação artística é passível de ser exercida por crianças e adolescentes? Pelo andar da carruagem não me causará espanto se em capítulo futuro a pequena Rafaela se transformar em psicopata-mirim.

Mercado e audiência

É que ninguém está nem aí para colocar em prática dispositivos como o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069, de 13/7/1990), calhamaço que conta com impressionantes 267 artigos. Destes faço questão de enunciar apenas seu Artigo 3º:

‘A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.’

A caracterização dada à personagem Rafaela faculta à atriz-mirim Klara Castanho seu desenvolvimento ‘mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade’? A meu ver, se dá exatamente o contrário. Rafaela é tratada como coisa a ser transportada na vida cheia de peripécias de sua mãe Dora; interpõe-se com protagonismo principal na relação de sua mãe com quem poderia ser seu bisavô, o romântico Maradona, dono da pousada; os diálogos de Dora com Rafaela se sustentam em mentiras escancaradas e em meias verdades; os olhares de ‘brinquedo assassino’ de Rafaela ao iniciar sua precoce carreira de chantagista mirim com a principal protagonista do folhetim, Helena, não deixam dúvidas que coisa muito mais escabrosa vem pela frente.

Enquanto a trama se desenrola, Rafaela passa a freqüentar com maior insistência o imaginário de milhões de crianças da mesma idade vindo a se tornar um modelo infantil a ser seguido com toda sua carga de manipulação e astúcia poucas vezes vista em personagens adultas. E não encontramos contraponto. Isso acontece porque levantar qualquer bandeira que vise proteger a integridade moral e a dignidade de uma criança explorada por um folhetim global é quase cometer crime de lesa-pátria. E não faltarão pessoas a torcerem o nariz para esse meu texto sob o pretexto de que seria incitação à censura. Nada mais ridículo que isso.

O ponto é que enquanto o Deus-Audiência estiver em seu trono nada poderá mudar. Nem que preceitos constitucionais sejam violados e que sejam arquivadas no baú das coisas imprestáveis imagens de crianças inocentes, bondosas, cheias de compaixão, educadas, inteligentes, respeitadoras dos mais velhos… e tantos outros predicados do tempo em que andar a pé era novidade.

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Jornalista e escritor, mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo; seu twitter

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/02/2010 Marcelo Ramos

    Muito boa a fala do Sergio Luiz Fernandes em 18/2/2010 às 16:21:32. Não vejo novela, então não posso opinar mas o governo, via classificação indicativa, deve estabelecer limites legais, inclusive sobre os valores. Cenas que denigrem a criança, em veículos de comunicação de massa, devem ser muito limitadas. Toda a sociedade é sujeita à limites, porque os produtores de conteúdo(dramaturgos, escritores de novelas, etc.) não seriam? Não são melhores do que ninguém, embora redes de TV se comportem como se não fossem uma concessão pública. A questão é que quem tem que arbitrar legalmente sobre esse tema é o governo. Arbitrar sobre o conteúdo, sim senhor. O exemplo que melhor explica é o seguinte. Em diversas vias, os carros podem andar em velocidades diferentes. Ao passar próximo de uma escola, a velocidade deve ser menor. Com conteúdo é a mesma coisa. Conteúdo ‘X’ não pode no horário tal, mas pode depois da 12h; conteúdo ‘Y’ só pode às 2h da manhã. É assim que deveria funcionar, se a fiscalização fosse melhor.

  2. Comentou em 17/02/2010 Sergio Luiz Fernandes

    Sr. Wilson, um reparo. Quem deve usufruir da plena liberdade é o adulto. A criança não é um adulto em miniatura e deve ser protegida em seus estágios de desenvolvimento. Isto não é questão de politicamente correto, mas de responsabilidade. Acredito que o senhor não exibiu pornografia a seus filhos, quando pequenos, por acreditar que se deve ser contra qualquer forma de censura. Concordo em parte que não se pode exigir comportamento de santo de todos os personagens. Porém, deve ser dado o direito de quem quer criticar, por exemplo, o fato de que a protagonista da novela, a atual Helena, seja uma adúltera.

  3. Comentou em 17/02/2010 Sergio Luiz Fernandes

    Sr. Wilson, um reparo. Quem deve usufruir da plena liberdade é o adulto. A criança não é um adulto em miniatura e deve ser protegida em seus estágios de desenvolvimento. Isto não é questão de politicamente correto, mas de responsabilidade. Acredito que o senhor não exibiu pornografia a seus filhos, quando pequenos, por acreditar que se deve ser contra qualquer forma de censura. Concordo em parte que não se pode exigir comportamento de santo de todos os personagens. Porém, deve ser dado o direito de quem quer criticar, por exemplo, o fato de que a protagonista da novela, a atual Helena, seja uma adúltera.

  4. Comentou em 17/02/2010 Azarias Esaú dos Santos

    WILSON SILVA, novela é sómente um folhetim? Entretenimento?
    Pois foi este folhetim que transmitiu o teu(?) conceito sobre o MST.
    Acorda rapaz.

  5. Comentou em 01/07/2008 Jorge Pla

    Senhores. Sugiro como pauta fazerem um levantamento da atuação da grande mídia e o soluço inflacionário que estamos vivendo. Pra mim, está claro que estão apostando todas as fichas neste ponto pra tentar baixar o nível de aprovação do Governo Lula. É inadimissível ver o Jornal Nacional da Rede Globo dizer que esta é a primeira vez que existe uma ameaça de volta da inflação desde a criação do Plano Real, quando em 1996, e entre 1999 e 2002, tivemos indíces muito superiores aos estimados para este ano, passando inclusive de 12% (IPCA). Estarão desinformados??? Sem falar na insistência cansativa de ver reportagens dia após dia batendo nesta tecla, quando a previsão é de ficar abaixo do teto de 6,5%.

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