Quarta-feira, 22 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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O que podemos aprender com Homer Simpson

Por Maurício Tuffani em 13/12/2005 na edição 359

Foi mais do que previsível a agitação iniciada a partir da publicação da crônica do professor Laurindo Lalo Leal Filho, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, sobre os comentários que teriam sido feitos por William Bonner, editor-chefe do Jornal Nacional, durante visita de um grupo de docentes a uma reunião matinal do telejornal da TV Globo [‘De Bonner para Homer‘]. O episódio, no entanto, não inspirou até o momento discussões sobre os parâmetros empregado pelos veículos de comunicação na elaboração de suas pautas jornalísticas.

Publicada numa sexta-feira, dia 2 de dezembro na revista CartaCapital, a crônica teve ampla repercussão na internet e na mídia no fim de semana, e foi respondida por Bonner em diversos sites na terça-feira (6/12) [‘Sobre a necessidade de ser claro‘]. O professor da ECA treplicou no dia seguinte (7/dez) na Folha e no Blue Bus [‘A questão central não é o perfil do Homer‘].E, finalmente, Bonner, ocupou o espaço de Carta Capital para dar sua interpretação [‘Sobre Homer‘].

‘Atraso e miséria’

Não interessa aqui repisar os detalhes dos desdobramentos dessas duas manifestações. Interessam-nos menos ainda os também previsíveis confrontos em chats e sites de jornalistas, polarizados entre os que por princípio satanizam a TV Globo e aqueles que desprezam e rejeitam sistematicamente quaisquer críticas que venham do meio acadêmico.

Na quinta-feira (8/dez), em artigo no site Direto da Redação, Eliakim Araújo, ex-âncora de telejornais da TV Globo, do SBT e da CBS Brasil, parecia dar um direcionamento para um debate em torno desse tema. ‘O que deve preocupar o telespectador brasileiro são os critérios como são selecionadas as matérias que vão para o telejornal’, afirmou Araújo. ‘Bonner, em sua resposta, limita-se a tecer considerações sobre o temperamento de seu Homer e explica que foi por amor à clareza e à objetividade que inventaram na redação o nome do personagem da série Os Simpsons, após a tal pequisa realizada pela emissora. Mas ele não toca na questão editorial. Essa sim, a meu ver, a mais importante’, acrescentou [‘Bonner e o comedor de biscoitos‘].

No entanto, longe de chamar a atenção de seus leitores para o que certamente é um problema que não se restringe ao processo de elaboração da pauta do JN, mas que diz respeito a grande parte da imprensa, Araújo centrou fogo na TV Globo e no editor-chefe de seu telejornal:

‘… a discussão sobre a personalidade de Homer Simpson é o que menos importa na polêmica. O que deve preocupar o telespectador brasileiro são os critérios como são selecionadas as matérias que vão para o telejornal. Quem conhece as entranhas do monstro, sabe que o editor-chefe do JN tem autonomia para decidir até a página cinco, como se diz popularmente. Daí em diante, a decisão vai para o Diretor de Jornalismo, que também tem autonomia limitada, até a página dez, digamos. Nos assuntos ‘delicados’ que envolvem interesses econômicos ou políticos da empresa, quem decide mesmo o que vai ao ar é a alta cúpula. Isso sem falar das ‘rec’, as matérias recomendadas pela direção que têm a sua prioridade assegurada. Pelo menos era assim nos tempos do Dr. Roberto [Marinho] e acredito piamente que nada mudou.’

(…)

‘Vejo no artigo do professor Laurindo um alerta àqueles que têm o poder de decisão. Tentar melhorar a qualidade da informação oferecida ao telespectador é um dever social do jornalista. O nivelamento por baixo não interessa à maioria da população brasileira. Só a alguns poucos, aqueles que aumentam diariamente suas fortunas à custa do atraso e da miséria que se alastram pelo país. ‘

Assuntos complexos

A experiência profissional de Eliakim Araújo faz com que sejam importantes seus comentários sobre os bastidores do Jornal Nacional. Porém, ao limitar ao telejornal da TV Globo o escopo de suas considerações e ao encerrar seu artigo com os clichês do parágrafo acima transcrito, ele renunciou a apontar para seus leitores elementos para a formação de uma opinião crítica sobre os critérios da pauta do telejornalismo brasileiro.

A discussão desse tema vem sendo sistematicamente prejudicada no Brasil devido a um antagonismo crescente entre os segmentos ‘do mercado’ e o acadêmico do jornalismo. No caso ‘Homer Simpson’, as discussões pela internet assumiram o caráter de confronto entre duas torcidas organizadas.

Do lado dos profissionais ‘de mercado’, grande parte dos profissionais se mostra como um contingente de homers, sugerindo o triunfo, no seio da imprensa, do ‘homem de massa’, incapaz de compreender assuntos complexos, profeticamente definido pelo filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), muito tempo antes dos recentes teóricos da comunicação, em seu livro La Rebelión de las Masas, de 1929: ‘A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas. Não se entenda, pois, por massas só, nem principalmente, as massas trabalhadoras. Massa é o homem médio’ [José Ortega y Gasset, La Rebelión de las Masas, Alianza Editorial, Madrid, 1979, pág. 48.].

Esvaziamento da linguagem

Em relação ao outro lado desse antagonismo estéril, em boa hora aparece uma manifestação de Ana Maria Fadul, também professora da ECA-USP e presidente do Conselho Curador da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação). Ao final do IV Simpósio Nacional de Ciências da Comunicação, no dia 10 de dezembro, na Faculdade de Artes, Arquitetura e Comunicação da Universidade Estadual Paulista, em Bauru, ela:

‘exortou os estudantes e professores dos cursos de comunicação a superar o comportamento de menosprezo acadêmico pelas indústrias midiáticas, muitas vezes agravado pela hostilidade ideológica, o que vem contribuindo para a formação de novos agentes midiáticos que se sentem inapetentes ou desmotivados para atuar no ambiente profissional’. [Intercom – ‘Comunicado 08/2005’]

Felizmente, nem só de antiintelectualismos, sarcasmos e individualizações de problemas genéricos vive o segmento ‘de mercado’ do jornalismo brasileiro, assim à parte, assim como nem só de preconceitos e interpretações equivicadas do pensamento da Escola de Frankfurt vive o ambiente acadêmico.

Um exemplo é Ciro Marcondes Filho, também professor da ECA-USP, que em seu simples e lúcido livro Jornalismo: A saga dos cães perdidos, faz uma reflexão contundente e ao mesmo tempo equilibrada sobre temas centrais do jornalismo e sua relação com os trabalhos de diversos estudiosos da área. E um dos temas que ele apresenta é justamente o dos critérios de seleção de pautas. Quem trabalha na redação de muitos dos veículos de comunicação há algum tempo sabe do que ele fala quando se refere à cristalização de visões estereotipadas sobre o perfil do público-alvo:

‘Os clichês já fazem a pré-seleção. (…) Ao fato, à pessoa, ao grupo antepõem-se os preconceitos, esses pré-julgamentos que, em verdade, acabam por anular totalmente o fato em si, só vendo, em seu lugar, a idéia feita (anteriormente) a seu respeito. É uma negação da realidade, um tipo de cegueira: você não vê o mundo que está à sua frente, você o substitui pela sua fantasia.’ [Ciro Marcondes Filho, Jornalismo: A saga dos cães perdidos, Hacker Editores, São Paulo, 2000. p. 66.]

Como vimos en passant com Ortega y Gasset, reflexões filosóficas já vinham sendo feitas na primeira metade do século 20 sobre as condições de possibilidade do atual cenário da comunicação. Sem ter exatamente isso como tema, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), em 1946, em uma carta, que mais tarde tomou corpo como o livro Sobre o Humanismo, relacionou os critérios de seleção da mídia com a forma como já vinha sendo tratada a linguagem:

‘… a linguagem é posta a serviço dos meios de comunicação, nos quais, desconsiderando qualquer limite, se expande a objetivação de tudo para todos. Desse modo, a linguagem cai sob a ditadura do espaço público. Este decide de antemão tudo o que é compreensível e que deve ser rejeitado como incompreensível.’ [Martin Heidegger, Über den Humanismus. Vittorio Klostermann, Frankfurt, 2000, pág. 9. Na versão da Editora Tempo Brasileiro (Carta sobre o Humanismo, tradução de Emanuel Carneiro Leão, Rio de Janeiro, 1967), a palavra ‘Öffentlichkeit’, que traduzo como ‘espaço público’ é traduzida por ‘publicidade’. Na versão da Editora Moraes feita a partir de uma tradução francesa da Aubier Éditions (Carta sobre o Humanismo, tradução de Rubens Eduardo Frias, São Paulo, 1991), ‘Öffentlichkeit’ é traduzida como ‘opinião pública’.]

É importante destacar que tais considerações não se referem exclusivamente ao mundo da mídia, mas à toda a sociedade. Em outras palavras, não há como responsabilizar unicamente a mídia por esse processo. Mas também não há como negar a sua parcela de responsabilidade no processo que Heidegger descreve como um esvaziamento rápido e onipresente da linguagem, que ‘não é apenas uma corrosão da responsabilidade estética e moral em todo uso que dela se faz, mas algo que vem de uma ameaça à essência do homem [idem, pág. 10]. Mas isso é assunto para outra conversa.

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