Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

TV EM QUESTãO > HERÓIS DA TV

O repórter que destruiu McCarthy

Por Giulio Sanmartini, de Belluno (Itália) em 04/10/2005 na edição 349
Aspesi, Natalia – 'Venezia 62', la Repubblica, 2/9/2005;

Grassi, Giovanna – 'L’ascesa di Patrícia', Corriere della Será, 1/9/2005

Nipoti, Roberto – 'Venezia Cinema', la Repubblica, 30/8/2005

Zucconi, Vittorio – 'Il re dei gionarlisti', Il Venerdi, 9/2005

Belluno fica bem perto de Veneza (menos de uma hora de carro e pouco mais de trem), portanto a Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica di Venezia, mais conhecida como o Festival de Veneza, tem participação muito ativa dos habitantes da cidade. É o assunto dos dias em que acontece, discutem-se filmes, artistas, diretores, muitos que têm tempo e dinheiro passam esses dias na cidade, outros partem no trem da tarde, assistem ao filme escolhido, dormem na estação e bem cedo na manhã seguinte estão em Belluno para trabalhar.

Na enoteca Mazzini, onde se reúnem os cinéfilos, o filme preferido desde o início era Good Night and Good Luck, de George Clooney, portanto a decepção foi geral quando foi dado o Leão de Ouro a Brokeback Montain, um western dirigido pelo chinês Ang Lee. Segundo Mario Zubioli (dono da enoteca e palpiteiro geral), o único diretor não estadunidense com direito a fazer esse gênero de filme foi o italiano Sergio Leone, (1929-1989), com O dólar furado, Por um punhado de dólares e o mítico Era uma vez no oeste. Ressalta ainda que os caubóis do filme vencedor são meio ‘esquisitões’.

O filme Good Night and Good Luck, que recebeu como consolação o prêmio de melhor cenário, trata do trabalho que o repórter televisivo Edward Murrow empreendeu contra a ‘caça às bruxas’. O jornalista, com a colaboração entusiasmada de sua equipe e o apoio do diretor-geral da rede CBS (Columbia Broadcasting System), dirigindo um popular programa jornalístico em cinco ‘capítulos’ conseguiu destruir o senador Joseph McCarthy, presidente do Comitê Parlamentar para as Atividades Antiamericanas, que tentava levar para a cadeia, sem provas, supostos culpados de serem comunistas. O filme dá destaque aos tempos lendários, ou melhor, fabulosos dos anos 1950 americanos, nos quais o jornalismo, neste caso televisivo, não estava a serviço de ninguém, mas somente da verdade, desenvolvia uma função de vigilância e oposição ao governo, resistia às intimidações dos poderosos, não conhecia a parcialidade e tinha orgulho de seu trabalho em defesa da Constituição, dos direitos civis e da justiça.

Fecho famoso

George Clooney tem 44 anos, é filho de um jornalista, também de televisão, que sempre militou no Partido Democrático. Sua tia, Rosemary Clooney, foi, em seu tempo, uma famosa cantora que correu o risco de entrar na lista negra dos ‘inimigos da América’. Perguntado sobre o porquê do tema escolhido para seu filme, respondeu:

‘Porque é a televisão que, acima de tudo, informa ou desinforma, forma ou deforma as consciências. O senador McCarthy foi o primeiro a usar o medo para fins políticos; na época era o comunismo, hoje é o terrorismo. Queria esclarecer que sou um patriota sincero, como foi Murrow, que não era comunista; não quero atacar a atual administração do meu país, mas só lembrar o momento mágico da profissão de informar e lembrá-lo agora de que os Estados Unidos, com o Patriot Act (acrônimo de Provide Apropriate Tools Riquired to Intercep and Obstruct Terrorism) [que reduz os direitos individuais e dá mais poderes às agências de repressão], em nome da segurança, está se desumanizando e vem sendo mantido no escuro sobre a realidade, com sempre novas limitações, censuras e ameaças às informações.’

Edward Murrow, na realidade Egbert Roscoe Murriow, nasceu na Carolina do Norte em 1908 e morreu em Nova York dois dias depois de ter completado 57 anos. Sua fama começou em 1939, quando, de um porão, contava em transmissão direta de Londres, pela rádio CBS, os ataques aéreos de Hermann Goering. Continuou depois diretamente do front da Coréia, até chegar ao seu programa televisivo See it now, que ficou conhecido pelo fecho que o jornalista lhe dava todas as noites: ‘Good night and good luck’.

O primeiro santo

Ed ‘Boa-noite e boa sorte’ Murrow criou também para ele uma figura mítica, sempre com seu perene chapéu Borsalino, o eterno cigarro como se atarraxado aos lábios (dizem que foi o fumo o motivo de sua morte prematura) e a inseparável garrafa de scotch Johnny Walker.

A Comissão McCarthy fez de tudo para rotulá-lo de comunista e, por conseqüência, de antipatriota; anunciou triunfalmente que Murrow visitara Moscou com um grupo de estudantes e professores, portanto, tinha sido ‘pago por Stalin’.

Murrow dedicou alguns de seus programas exclusivamente ao grande caçador de ‘vermelhos’, utilizando-se de uma técnica das mais deletérias: a montagem de declarações, mentiras e encenações bufas feitas pelo senador. O resultado foi devastador para o grotesco cruzado do Wisconsin: mostrou o mosaico de uma personalidade tragicômica, que tinha sabido desfrutar a ansiedade real de uma nação sugada pela Guerra Fria contra um inimigo disposto a tudo como a União Soviética. Provou que McCarthy queria parecer aquilo que não era: o lorde protetor das liberdades constitucionais que em sua desmedida fúria estava destruindo.

O jornalista Vittorio Zucconi, em poucas palavras, define tudo aquilo que foi Ed Murrow: ‘Se o jornalismo rádio-televisivo fosse uma religião, ele teria sido seu primeiro santo – São Ed.’

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Abaixo, a tradução de um pequeno artigo sobre o assunto, publicado no Corriere della Sera Magazine (29/9/2005).

Bilhete de ingresso

Tullio Kezich

Os fundamentalistas da cinefilia implicam com o bravo e corajoso Clooney

Na páginas de espetáculos dos quotidianos existe uma regra: findo um festival, não se fala mais nele.

Soará portanto estranha a escolha de voltar, mesmo num pequeno espaço, ao Festival de Veneza. O fato é que lendo os vários comentários sobre a última noite tive que concluir que nenhum de nós, escribas, conseguiu explicar direito o motivo para a entrega do Leão de Ouro a Brokeback Mountain, que nos deixou insatisfeitos mesmo entendendo que estávamos de fato diante de um nobre compromisso. Ainda assim, o bonito filme de Ang Lee se inspira em tese desabusada e civilíssima, a paridade do direito de uma história de amor entre homens, contada com o mesmo sentimento com que se narra uma paixão heterossexual, uma ‘mexida’ à Zapatero.

Porém, entre os concorrentes havia um filme de impacto bem diverso nas consciências e que traz uma mensagem sempre atual. Falo de Good Night and Good Luck, no qual George Clooney reinvoca o quanto custou de lágrimas e sangue a batalha do jornalista de TV Ed Murrow para parar a ‘caça às bruxas’ do senador McCarthy.

No Lido, público e crítica se encontraram de acordo em advertir sobre a importância de semelhante reclamo aos valores inalienáveis do profissionalismo, compreendido em sua dimensão moral antes que política. Os únicos a não quererem entrar em sintonia com esse sentimento foi um par de membros do júri, esconjurados pelo próprio presidente Dante Ferretti, como ‘fundamentalistas’ da cinefilia. O que confirma que estaria na hora de dar um basta às assembléias, que, tomando decisões insolentes, condenam o festival a perder os futuros encontros com a história. E, de fato, Veneza 2005, por um Leão que errou de endereço, será logo esquecido.

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Jornalista

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