Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

TV EM QUESTãO > TV ABERTA

O ridículo em nome da audiência

Por Luciana Lopez em 20/07/2010 na edição 599

É triste a conclusão a que chego depois de dar uma ‘zapeada’ nos canais da TV aberta brasileira. É um lamento. Não há nada que estimule a curiosidade do telespectador, é tudo igual. A TV no Brasil precisa urgentemente rever os seus conceitos e se preparar para um outro tipo de telespectador, um telespectador mais exigente quanto à qualidade do produto exibido. Tenho percebido isso em todas, inclusive as emissoras que copiam o modelo desgastado da TV Globo: é um show diário e interminável de bizarrices. Eu, como cidadã, jornalista e telespectadora, chego a ter pena de alguns apresentadores, expostos ao mais puro ridículo em nome da famigerada audiência.

O Brasil é um país carente de informação. Temos uma população desinformada e imbecilizada por conceitos adquiridos em folhetins. cada vez mais deprimentes. Como cidadã, não vejo nenhuma utilidade na programação exibida pelas principais emissoras brasileiras. Não vejo nenhum sentido ou contribuição positiva no Faustão, Gugu, Eliana e nos outros correlatos. Até a TV Globo perdeu a mão no seu principal produto de exportação – nada mais bobo que as últimas novelas exibidas pela emissora.

A Globo se acomodou em sua ‘zona de conforto’ e acabou se igualando às piores. A constatação a que chego é de que a TV brasileira precisa repensar a sua programação, evoluir e estudar melhor para quem é a programação que ela tem a exibir – definitivamente, deixei de ver TV, ou melhor, deixei de assistir a Globo, SBT, Record, Band e Rede TV por não ver sentido em absolutamente nada do que elas exibem; too boring.

Superficiais

O modelo de TV que é feito no Brasil há muito tempo deixou de atender aos interesses da sociedade brasileira. A TV já não nos informa, a internet tem feito isso de forma bem mais eficiente e rápida. Estagnamos em um modelo (a TV Globo) que ficou engessado no tempo – eu diria ultrapassado. As novelas têm as mesmas histórias batidas e repetitivas com os mesmos atores – Suzana Vieira sempre interpreta ela mesma, seja qual for o folhetim. Nas tramas tem sempre alguém que se apaixona por alguém e descobre que ele é o seu irmão ou irmã, e quando tentaram inovar colocando uma atriz negra no papel principal, não souberam como fazer.

Aí vem a emissora do bispo Macedo e oferece salários dobrados para os funcionários e atores da Globo. Nós, ou melhor, eu, pensava que iria ver mais qualidade e inovação no ar, mas para a minha decepção a Record nada mais é do que uma cópia bizarra da matriz platinada.

Isso sem falar nos telejornais que se repetem ao longo do dia: as mesmas notícias em todos canais. Será que nada mais acontece no Brasil e no mundo? Será que a pauta da imprensa no Brasil será sempre a pauta estabelecida pela Globo? As repórteres são idênticas umas às outras, as matérias curtas, superficiais, como está ficando a sociedade brasileira: superficial, boba e sem conteúdo. Mas como somos ainda um país de terceiro mundo, embora muitos teimem em dizer que somos um país em desenvolvimento, tudo aqui demora a acontecer, inclusive as transformações no modo como a população é informada.

Na base da indicação

A população brasileira não é informada. Ela é manipulada, corrompida e imbecilizada diariamente em nome do ‘bom jornalismo’. O que se faz no Brasil, e mais especificamente na TV, não é jornalismo, é colunismo social maquiado, é publicidade mascarada.

As grandes emissoras pouco se importam se o povo está sendo informado ou não, o que importa é vender a ‘grade’ para os grandes anunciantes (os bancos, o governo federal, seja ele quem for, a indústria farmacêutica, montadoras de veículos etc). Isso é o que de fato importa. Como também não se importam com a qualidade dos profissionais empregados, já que muitos são indicados. Nas emissoras de TV de Brasília, por exemplo, trabalha se tiver uma boa indicação e muitas vezes essa indicação é comprada a peso de ouro.

Ano passado fiz uma denúncia ao Sindicato dos Jornalistas do DF. Mandei um e-mail para o próprio presidente e, para minha surpresa, ele respondeu que o sindicato sabe, sim, das práticas abusivas nas redações, rádios e TVs daqui, mas que nada pode fazer. Nada pode fazer? Para que serve este sindicato, então, se não defende os direitos do jornalista? Se a coisa é apenas na base da indicação e não por mérito, qual é o sentido das faculdades de Jornalismo? Que hipocrisia é esta de defender o diploma do jornalista profissional, então?

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Jornalista, Brasília, DF

Todos os comentários

  1. Comentou em 20/07/2010 Fagner Torres de França

    Concordo plenamente com a jornalista. Há tempos, também, não tenho mais paciência para a TV, seja aberta ou fechada. Se levarmos em conta que o modelo da televisão brasileira é praticamente copiado da produção americana, e que esta mesma produção é hegemônica no serviço à cabo, no final, trocamos seis por meia dúzia.

    Quanto à “zona de conforto” à qual se acomodaram a Globo e demais emissoras, deve-se, provavelmente ao modelo comercial basicamente voltado ao lucro, não à formação.

    Nesse sentido, devido à busca pela quantidade e não pela qualidade, e premidos pela incerteza da recepção que os espectadores farão do produto, opta-se pelo caminho mais fácil, ou seja, repetir aquilo que já vem dando certo.

    É mais seguro inclusive para o anunciante. Uma pujante cadeia pública de TV seria essencial nesse caso, para atender aos gostos de outros brasileiros e fomentar novas demandas.

    No entanto, boa notícia, as teorias da recepção dão conta de que o público é muito mais livre para interpretar os conteúdos simbólicos distribuídos pela TV do que possamos imaginar. A insatisfação, sem que saibamos, pode ser bastante grande. Falta apenas meios de mobilização e transformação.

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