Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

TV EM QUESTãO > MUDANÇA DE HÁBITO

Os franceses na era
da televisão individual

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 31/01/2006 na edição 366

Os franceses passaram em média 3 horas e 25 minutos diante da TV em 2005, dois minutos em média a mais que no ano anterior, segundo um estudo divulgado no início do ano pelo instituto Médiamétrie.


Uma minoria de franceses não assistiu TV. Estes simplesmente se recusam a possuir esse eletrodoméstico, visto como sugador de tempo de leitura e reflexão. As casas sem televisão são pouco menos de 5% na França. Os sem-TV formam uma tribo que pretende se defender da mediocridade que, no entanto, não é privilégio da TV francesa, pois viceja na TV italiana pós-Berlusconi ou na TV européia em geral, onde proliferam os reality shows e outras tolices que pretendem divertir como o circo no tempo dos romanos.


No jornalismo, a TV se revela uma mídia eficaz e importante. Os telejornais informam sucintamente hoje o que os jornais vão debater e aprofundar, amanhã. Se a televisão não matou o rádio, contrariando as previsões mais catastróficas, por outro lado obrigou a imprensa escrita a mudar seu olhar sobre a imagem, valorizando-a, e a contextualizar a notícia com a análise. A internet, que em dez anos se afirmou como uma nova mídia jornalística, veio abolir as fronteiras entre o texto, o som e a imagem.


Poder supremo


Quanto tempo passam, em média, os americanos e os brasileiros diante dessa caixa de imagens, que já foi chamada de ‘máquina de fazer doido’ pelo jornalista Sérgio Porto, o imortal Stanislaw Ponte Preta? Máquina de fazer doido pode ser um exagero, mas quem se informa unicamente pela TV constrói um olhar parcial e limitado do mundo.


Essa mídia do instantâneo pode ser usada para a reflexão e o debate de idéias? A resposta pode ser afirmativa, porém a realidade tanto no Brasil quanto na França nos prova que não são os programas de debate que florescem nos canais campeões de audiência. É possível filosofar na TV, desenvolver um pensamento complexo nos poucos segundos outorgados pelos entrevistadores, atentos apenas ao tempo do corte? Muitos garantem que esse veículo tem por vocação vender iogurtes e automóveis e distrair os espíritos simples.


‘Quando termino um dia de trabalho e não quero pensar em mais nada, ligo a TV’, diz um escritor francês, que só acende o eletrodoméstico para assistir a jogos de futebol ou rugby.


O zapping, poder supremo do telespectador de sancionar a tolice e a agressão à inteligência, não se limita mais à caixa de imagens: tornou-se uma maneira de viver diante da tela do computador ou do telefone portátil, dois suportes da televisão do futuro que já chegaram até nós.


Coisa do passado


Mas o que será a televisão do futuro? O Instituto do Audiovisual e das Telecomunicações na Europa, no estudo intitulado Televisão 2015, publicado em dezembro passado, classifica de mudança de paradigma o que vemos hoje quando se passa do aparelho de televisão familiar, no domicílio, a uma televisão pessoal no computador ou no telefone celular – com a multiplicação dos vlogs (blogs de vídeo), podcasts, TV personalizada, motores de busca de vídeos ou programas de web-realidade.


No início de 2006, os adeptos do telefone portátil como receptor de televisão já eram mais de 400 mil na França. As companhias telefônicas oferecem todo tipo de composição de canais abertos ou via satélite.


Ir à banca da esquina comprar um jornal, de verão a verão, parece coisa do passado. Cada vez mais a notícia chega à tela da TV, do computador ou, mais recentemente, do telefone portátil. O Conselho Superior do Audiovisual francês avalia que a difusão convencional (hertziana) desaparecerá completamente até 2012 com a disseminação das tecnologias digitais.


Baby TV


Uma boa notícia do relatório do instituto Médiamétrie é que as crianças francesas entre 4 e 14 anos viram dois minutos a menos de TV, em média. No entanto, um novo canal dirigido aos bebês de 0 a 3 anos, que já tinha sido implantado em Israel, instalou-se no fim do ano passado na França: o Baby TV, que propõe programas curtos, de dois a dez minutos, numa programação ininterrupta.


Para os pais tentados pela babá eletrônica, a Baby TV adverte que o bebê deve ver televisão com um dos pais ao lado comentando o que vê; não deve tomar a mamadeira diante da telinha nem ficar por mais de 15 minutos diante dela.


O psicanalista Serge Tisseron, especialista em imagens, diz que é uma contradição que a Baby TV divulgue programas 24 horas e ao mesmo tempo desaconselhe os pais a deixarem o bebê ver TV à noite. Já o pedopsiquiatra Stéphane Clerget é completamente contrário à idéia de deixar bebês e crianças pequenas expostos à TV. Ouvido pelo jornal Le Monde, Clerget deu um diagnóstico antiTV:




‘Essa atividade é nefasta ao desenvolvimento do imaginário e das capacidades de atenção do bebê, é criadora de uma excitação permanente pelas emoções que gera (excitação que se manifesta quando se apaga a TV), e apresenta o inconveniente de ser totalmente passiva. Para se desenvolver harmoniosamente, as crianças de menos de 3 anos precisam de um meio ambiente interativo, no qual exercem a motricidade’.


Na França não se tem ainda uma medida de audiência dos espectadores de menos de 4 anos. Mas a situação nos Estados Unidos é dramática: as crianças de menos de 2 anos ficam em média 1 hora e 22 minutos por dia diante da telinha vendo programas que sequer foram concebidos para eles. Quando a Baby TV chegar aos Estados Unidos, essa situação pode piorar.

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