Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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Os reality shows e o país das continhas

Por Ivo Lucchesi em 27/02/2007 na edição 422

Desde o surgimento do reality show, não faltaram abordagens equivocadas. Basicamente, firmaram-se duas linhas de enfoque: 1) avaliações esperançosas davam conta de uma nova porta aberta para a teledramaturgia; 2) avaliações rigorosas sinalizavam a aceleração de um processo cultural degenerativo. Acredito que ambas abriguem erro de percepção, apontando para um certo olhar ingênuo. Querer ver no reality show ingrediente de vanguarda, ou mesmo qualquer potencial transformador, é atitude crítica tão grosseira quanto aquela que responsabiliza o gênero pelo seu possível efeito degradante. Que aspecto, portanto, pode ser explorado, capaz de escapar da armadilha das duas vertentes de avaliação? Este é o ponto a justificar a presente escrita.

Constatar que o Big Brother oferecido pela Globo atinge a sétima edição é realmente um fato a merecer registro. Como algo tão ruim pode se perpetuar? O que pode haver nele a ponto de atrair a audiência? A resposta às duas indagações é simples: o programa se mantém exatamente porque nada nele há capaz de representar ameaça ao espectador. Levando-se em conta que a história da sociedade brasileira, por trás da máscara da alegria, abriga incertezas (inflação, carências habitacionais) e, principalmente, medo (escravidão, ditadura, desemprego, expansão da violência urbana), somados à fragilidade de uma cultura basicamente midiática, não causa estranheza que famílias se plantem diante de um televisor no qual encontram um formato que, sem dar-lhes nada, nada lhes tira.

O país das continhas

Pessoas inteiramente vazias, na tela, expõem a miudeza de suas vidas, numa tagarelice inconseqüente da qual nada resta. À circularidade do formato do programa, agrega-se a vacuidade do conteúdo. A fórmula, pois, retira, do público, a sensação incômoda tanto das incertezas quanto do medo. As novelas também adquiriram igual perfil. O imaginário brasileiro, há décadas, se alimenta do cotidiano pequeno e imediato. Não faz muito tempo que Contardo Caligaris, num de seus artigos para a Folha de S. Paulo, escreveu a respeito da falta de ambição do jovem brasileiro, subordinado ao pensamento pequeno. Não é apenas o jovem. O país inteiro ficou pequeno. Milhares de pessoas fazem continhas diariamente, empurrando suas vidas para o dia seguinte. Governantes fazem continhas todo o tempo para administrarem sobras com as quais pouco se resolve. É isso: o Brasil se transformou numa ‘república de continhas’. As ‘personagens’ do Big Brother também fazem continhas para saberem quem fica e quem não fica mais uma semana na casa. Para a composição de ministérios, o governo faz continhas há mais de quatro meses.

O cérebro do Brasil encolheu. Culturalmente, qualquer produto de fácil assimilação terá recepção assegurada: música com três ou quatro acordes, acompanhada por letra de apelo direto, cinema com narrativa reprodutora das situações presentes no cotidiano, livros com temas banais e linguagem simplória. A ousadia está arquivada. A imaginação se encontra inibida e a ambição se vê sitiada pela urgência do imediato enquanto a telinha exibe o que somos.

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Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular do curso de Comunicação das Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA – Rio de Janeiro)

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