Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

TV EM QUESTãO > DEBATE NA TV

Paixão da retórica e monólogos unilaterais

Por Cássio Gusson em 20/03/2007 na edição 425

Pauta do programa televisivo do Observatório da Imprensa e tema sempre presente em artigos na mídia, o debate, palco de grandes retóricas, é uma questão que se coloca aos intelectuais como primordial. Aos formadores de opinião, como base de toda sua conduta, e à população, fundamental para fugir do senso comum na construção de uma sociedade melhor.

Como todas as questões, esta é vista, na atual conjuntura da sociedade, de diversas formas. Os mais otimistas dizem que, com o advento da internet e sua ‘massificação’, possibilidades e toda sua democratização da informação, tornou-se possível que os debates fossem estendidos e que mais vozes fossem incorporadas ao discurso. A interatividade proporcionada pela rede pode, segundo eles, democratizar o debate e torná-lo mais amplo.

Apocalípticos e integrados

Para os mais pessimistas, o debate decaiu tanto em número quanto em qualidade. Com o modelo antiquado e insustentável de gerência da imprensa escrita, baseando seus fundos na venda de espaços publicitários, a informação passou muito mais a ser objeto de comércio e com isso o debate ficou moldado ao tom descartável das notícias. Ou seja: é necessário até que o tema esteja em pauta e seja vendável; depois, ele se torna retórico e filosófico demais e, portanto, deve ser publicado em mídias segmentadas, e não nos cadernos diários restringindo assim seu impacto e sua força.

Aponta-nos Umberto Eco que apocalípticos e integrados sempre se digladiaram refutando as considerações do outro e assim acabam fazendo monólogos unilaterais, quando deveriam compor uma dissertação séria, considerando as questões de forma racional, e não movidos pela paixão da retórica e da persuasão.

Maniqueísta e etnocêntrica

É fato inegável que a internet trouxe possibilidades de comunicação e circulação de informação que outrora não eram possíveis. Com esta ‘demanda’, é maior a quantidade de informação circulando, com mais canais de debates, como blogs e mesmo comunidades em sites de relacionamento. Neles, pessoas de diversas opiniões têm a condição de dar palavras a seus pensamentos, valores e crenças.

Há, porém, na internet, duas questões que não são bem elucidadas. A primeira diz respeito à sua democratização que, embora tenha aberto espaços de voz onde antes havia gritos de silêncio, ainda não é um veículo de abrangência para todas as camadas sociais. Acredita-se que mais de 70% da população brasileira não tenha acesso freqüente à internet e mais de 50% não saiba sequer navegar pela rede. O debate, portanto, embora incorpore através do www mais opiniões, não se expandiu muito além da classe social que sempre esteve presente nele, seja como sujeito passivo-acompanhante, seja como sujeito ativo-participante.

A segunda questão diz respeito à qualidade do debate. Com a rede .com, o individualismo incorporou-se mais à vida social. O computador passou a ser um grande amigo ao qual confessamos nossos anseios e nossas paixões. Nele construímos relacionamentos descartáveis ou duradouros, fazemos sexo e traímos. Através de letras grafadas em pequenas teclas assessoradas por um objeto de dois ou três botões, consumimos e somos consumidos. A relação homem/máquina fez-se mais intensa e isto se reflete na sociedade e na construção do indivíduo que, mais fechado em si e em seus valores, não reflete sobre os acontecimentos que lhe são exteriores.

O debate acabou por englobar ‘mais do mesmo’. Vide o caso de Renato Janine, que foi atacado e defendido por muitos dentro de padrões de valores iguais. Poucas pessoas que condenaram a atitude do filósofo incorporaram em seu argumento o respeito pelos valores do outro. Defenderam seu mundo em uma guerra maniqueísta e etnocêntrica. O individual foi incorporado ao debate como ‘diverso’, apoiado na conclusão errada de que mais vozes significam um debate mais plural e abrangente sem posições unilaterais.

Amanhã é outro dia

Quanto à imprensa escrita, ela é ainda hoje responsável por grande parte da formação crítica do país, detendo mais credibilidade do que qualquer outro veículo de comunicação de massa, embora menor abrangência. No afã de atender a esta sociedade, como aponta Marcelo Coelho, acaba se atropelando e não consegue abarcar toda a complexidade social. Assuntos como turismo, meio ambiente, saúde ou educação só entram em cena quando invadem o espaço da política, da economia e da segurança.

Enforcados pela lógica do mercado, dedicam pouco espaço para o debate. Para isso há os colunistas que, em pouco menos de mil caracteres, têm de dar conta de todo um debate sobre as diversas facetas do social e isto faz com que suas colunas sejam moldadas pelo que está em pauta, tornando assim seus discursos passageiros e fazendo com que o leitor se conforme, de certa forma, com a situação estabelecida – afinal, por mais que se possa fazer, amanhã é outro dia e outras coisas estarão acontecendo.

Voltaire, sempre necessário

Na televisão, o comércio de informação é feito de forma aterradora e espaços para debates que não envolvam valores e ética não devem ser transgredidos e são raros. Seria inaceitável aos diretores da Globo propor um debate sobre a função do jornalismo crítico e desprovido de viés governista. Ao SBT, seria uma calúnia propor debates envolvendo qualquer questão que não diga respeito ao sensacionalismo das ‘massas’. Na rede Record, um debate sobre a corrosão que os canais ‘religiosos’ podem proporcionar junto à opinião publica é pura heresia.

Assim, acaba a rede Cultura tendo que assumir a função de ser um canal aberto ao debate, função que não consegue exercer de maneira ampla, tanto devido à sua audiência – que acaba atingindo a mesma classe citada parágrafos acima – como pela sociedade ser muito mais ampla que algumas horas do Roda Viva, Observatório da Imprensa, Roberto D’Ávila, Provocações, Café Filosófico e afins. Grande mérito, porém, deve-se atribuir à emissora por produzir uma das programações mais diversificadas da televisão brasileira.

Assim o debate fica relegado a algumas mídias e esferas da sociedade. E mesmo este debate é muitas vezes conduzido por cabresto ou pela euforia e comoção do momento, deixando de lado a razão ou o enquadrar do conjunto. Criar, como propôs Janine, um espaço maior para a dúvida, é tão necessário quanto retomar a leitura de Raça e cultura. Dar espaço para nomes próprios, que não contenham antes de si letras como ‘Dr’ ou atribuições que soem maiores do que as pessoas, são também pontos que devem entrar na pauta dos debates.

‘Não concordo com nenhuma palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-las.’ Afim de que o debate esteja mais presente na sociedade, além de mais consciência e espaço em todas as mídias, Voltaire será sempre necessário.

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Coordenador de Comunicação, Jundiaí, SP

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