Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Paulo Henrique Amorim

06/04/2004 na edição 271

”Acredito que, na América Latina, todo presidente trabalhista é uma vítima em potencial de um golpe de Estado. Acredito que no Brasil sobrevivem instrumentos muito úteis a um golpe de Estado. Acredito também que esses instrumentos são testados no Brasil e na América Latina com freqüência. Não são nenhuma novidade.

Apesar do júbilo que percebi entre os que, ao relembrar ‘64, observaram que ‘isso não se repetirá’, pois, entre muitos motivos, ‘as instituições democráticas estão mais fortes’, peço licença para discordar.

Há várias maneiras de dar um golpe de Estado hoje no Brasil. Não imagino como um golpe de Estado possa acabar -se com um tiro no peito no Palácio do Catete ou com o incêndio do La Moneda. Mas, conheço várias maneiras de botar o golpe para andar.

Não pretendo, aqui, competir com Curzio Malaparte, que, no auge do fervor fascista, escreveu o manual ‘Técnica do Golpe de Estado’. Pretendo, apenas, demonstrar que a técnica está ao alcance de todos.

Para tratar de um assunto que conheço melhor, vamos ver, primeiro, como se pode dar um golpe pela televisão.

Recomenda-se inicialmente aplicar no canto direito do vídeo, embaixo, a expressão ‘ao vivo’. Em seguida, combinar imagens de baixo e de cima, feitas de helicóptero. E fazer com que os repórteres andem, quase corram, e narrem com dificuldade de respirar. Cria-se assim um ambiente de dramaticidade. De urgência. ‘Está para acontecer’, ‘a história que se faz à sua frente, ao vivo’. O espectador precisa ter a sensação de que também ele é capaz de dar o golpe.

Para que utilizar essa técnica? Para a cobrir a ‘baderna’. Por exemplo, uma greve em serviço público. Um confronto entre grevistas e a polícia. A paralisação dos transportes, como ocorreu na queda de Allende. O fechamento do porto de Paranaguá, recentemente, teria sido um cenário quase perfeito. Com imagens de helicóptero, aquelas filas de caminhões intermináveis. Não podia ser melhor para um golpe.

Como se sabe, a quase-obra-prima do golpe da mídia foi em abril de 2002, quando as quatro redes de televisão da Venezuela usaram a melhor tecnologia disponível. Nos quatro dias antes do golpe, as quatro estações colocaram ‘talk-shows’ no ar, ao vivo, com respeitáveis ‘comentaristas’, freqüentemente inflamados, que desancavam o presidente eleito. Nos intervalos, comerciais ‘pagos’ por importantes grupos ligados à industria do petróleo conclamavam a população a ir a uma passeata contra o presidente eleito: ‘Nenhum passo atrás’! Levante-se. Às ruas!’ -era a chamada.

Até que houve a tragédia que impulsionou o golpe. Na passeata, no confronto de manifestantes contra e a favor do presidente eleito, apareceu um livre-atirador e 11 pessoas morreram. As quatro redes fizeram uma cobertura exaustiva, desse jeito, ao vivo, com narrações ofegantes, e responsabilizaram a polícia do presidente eleito.

(Um cadáver é um fermento poderoso para golpes. A história do Brasil registra a morte do Major Rubem Vaz, no crime da Rua Toneleros, e como contribuiu para o golpe contra Getúlio.)

Com ‘a baderna’ nas ruas e a frenética cobertura da televisão, o presidente eleito saiu do Palácio, mas não renunciou. A oposição tomou o Palácio e deu-se o golpe. As emissoras de tevê censuraram qualquer notícia sobre o presidente eleito. O presidente da ‘Abert’ venezuelana, a associação que reúne as redes de televisão, foi um dos signatários do decreto que fechou o Congresso Nacional.

O golpe da Venezuela, como se sabe, durou 48 horas. Mas demonstrou de forma inequívoca que a televisão pode fazer mais do criar as condições para um golpe. Ela, de fato, pode dar o golpe.

Uma questão de método: o que é uma ‘baderna’?

Depende de quem controla os meios de comunicação. O que, no Hemisfério Norte, se pode chamar de ‘reivindicação salarial’, no Hemisfério Sul, a depender do interesse da rede de televisão, do número de pessoas na rua e da presença do helicóptero ou do moto-link, se pode chamar de ‘baderna’.

Um instrumento importante para a televisão dar o golpe é a utilização das ‘pesquisas’ de opinião pública.

(Para que não haja dúvidas, devo explicar, preliminarmente, que o UOL, onde trabalho, é controlado pela Folha de S.Paulo, que também controla o Datafolha. O Datafolha é o único instituto de pesquisa que não vende pesquisas a candidatos. E é nessa relação institutos-tevê-candidatos que, na minha opinião, se encerra o pecado capital da indústria de pesquisas no país.)

Primeiro, ao se preparar um golpe para depor o presidente eleito, é muito importante dar destaque às pesquisas de opinião publica. Falo, é claro, de pesquisas em que o presidente eleito fique mal. Dar na escalada do jornal da tevê. Fazer computer-graphics fortes. Poucas telas, para não confundir. Poucos elementos por tela, para ressaltar o mais importante. Usar cores primárias. Confirmar os dados da pesquisa com ‘comentaristas’, de preferência os donos dos próprios institutos de pesquisas, para evitar dúvidas ou interpretações ambíguas.

O importante é fazer com que o resultado de cada pesquisa pareça o resultado de uma eleição. Para que a legitimidade do presidente eleito se submeta a vários ‘turnos’: cada pesquisa é uma nova eleição.

A pesquisa na manchete da televisão é uma forma infalível de corroer a legitimidade de um presidente eleito. Cria a sensação de que a pesquisa contém um resultado inapelável, assim como deveria ser inapelável, por quatro anos, o resultado da eleição presidencial: ‘bom, se a popularidade dele está assim . não tem jeito . ele tem que cair fora.’

É muito importante o golpista usar uma tecnologia que, até onde sei, foi usada com perfeição por um grande estadista, o presidente Richard Nixon dos Estados Unidos. O interessado -como era Nixon– tem que conhecer o resultado da pesquisa com antecedência, para criar fatos políticos que a pesquisa venha a confirmar. Ou preparar a defesa, caso o resultado da pesquisa venha a ser desfavorável aos organizadores do golpe.

Nixon condicionava a data de solenidades públicas e de eventos da Presidência à data da divulgação da pesquisa. Ele tinha na Casa Branca equipes para tratar de cada instituto de pesquisa: para cada Ibope, um grupo de trabalho. O objetivo era criar um ambiente tão favorável que a Casa Branca soubesse -e muitas vezes pudesse mudar– as perguntas que a pesquisa ia fazer no campo.

Essa é uma técnica tão eficaz que pode ser usada igualmente pelos organizadores do golpe. Não é monopólio de quem está no poder.

Também não é novidade. Vi com meus olhos, na suíte presidencial do Hotel Plaza, de Nova York, quando o então presidente Fernando Collor recebeu, de manhã, o resultado de um Ibope que o Jornal Nacional divulgaria à noite.

Quanto mais perto da eleição, essa ligação de institutos de pesquisa com redes de tevê se torna ainda mais relevante.

Na última eleição para presidente do Brasil, houve dois episódios que demonstram como essa associação pode ajudar um golpe de Estado.

‘Desconstruída’ a candidatura Roseana Sarney, era importante para o candidato José Serra ‘desconstruir’ a candidatura Ciro Gomes, imediatamente após o início da campanha no horário gratuito da tevê. Serra precisava se aproximar, o mais rápido possível, do embate direto com Lula, quando, então, se comprovaria que Serra estava ‘mais preparado’ para governar.

Ao fim da primeira semana da propaganda eleitoral gratuita, dois institutos de pesquisas -nenhum deles era o Datafolha– conseguiram mostrar números que ‘desconstruiram’ a candidatura Ciro Gomes. Soube, na época, embora não pudesse confirmar -como não posso, até agora– que dois fortes empresários do setor financeiro (um deles também ligado à indústria de telefonia) fizeram uma vaquinha para financiar as pesquisas que levassem a esse resultado: ‘desconstruir’ Ciro Gomes.

Ainda no primeiro turno, tenho sérias desconfianças de que, a certa altura, Anthony Garotinho passou ao segundo lugar, na frente de Serra.

Segundo o site americano www.voterfraud.org, uma das formas de fraudar uma eleição é precisamente manipular pesquisas de intenção de voto meses bem antes da eleição.

Para quem quer dar um golpe no presidente eleito, as pesquisas meses antes da eleição são um poderoso instrumento. Devidamente ‘trabalhadas’, elas matam os candidatos indesejáveis e começam a plantar a semente da instabilidade: o inimigo está fraco.

A rigor, os institutos de pesquisa de opinião pública só precisam acertar uma pesquisa: a de boca de urna, no dia de eleição. Todas as outras são precárias. Ainda mais que a indústria da pesquisa de opinião pública no Brasil é tão transparente quanto era a indústria do bingo.

Um instrumento poderoso para derrubar um presidente da República eleito é fazer com que uma instituição financeira -de preferência americana– contrate uma pesquisa de opinião pública.

Aí, é a sopa no mel. Porque, se o presidente candidato à reeleição se sair mal na pesquisa, torna-se alvo de duas armas mortíferas: a perda de legitimidade e a subseqüente condenação dos mercados financeiros internacionais.

Isso aconteceu na última eleição, com efeitos dramáticos. O então presidente Fernando Henrique Cardoso e seu candidato José Serra foram para a televisão dizer que a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva significava ‘a argentinização’ do Brasil. Essa impressão se confirmava em pesquisas contratadas por um dos maiores bancos americanos, o Bank of America. Quanto mais Lula subia nas pesquisas, mais o Brasil se aproximava do abismo. O banco americano Goldman Sachs, onde pontifica um respeitado economista brasileiro, Paulo Leme, criou o ‘dólar Lula’: cada vez que Lula subia nas pesquisas, o dólar subia junto.

Não é à toa que às vésperas do segundo turno, o dólar chegou a R$ 3,78 e o risco-país a 1.813 pontos. Hoje, o dólar está perto dos R$ 2,90 e o risco, acima dos 500 pontos.

Como uma das vantagens de encomendar uma pesquisa é receber o resultado antes da divulgação, é possivel -como talvez já tenha acontecido no Brasil. A instituição financeira deixa vazar a informação mais útil e ganha montanhas de dinheiro na Bolsa e no mercado do dólar.

Outro fator importante nesse conjunto de instrumentos para derrubar um presidente eleito são os economistas dos bancos internacionais e as agências de risco: eles têm um poder incontrastável. Como uma brigada anônima, que se manifesta através dos noticiosos financeiros na Internet, eles decidem se os investidores do mundo inteiro devem ou não investir num país. A revista Carta Capital contou que, uma vez, em Nova York, o primeiro-ministro da Itália, Massimo Dalema, resolveu conhecer o economista de um banco que decidia se os investidores deviam ou não comprar títulos do governo italiano. Conheceu: o jovem não falava italiano nem conhecia a Itália.

Se as pesquisas na televisão já ‘demonstrarem’ uma deterioração da legitimidade do presidente eleito, uma confirmação que venha do exterior, de preferência de Wall Street, pode ser muito útil a um golpe. Dá-se então o o ciclo da auto-alimentação: as pesquisas saem na tevê: ‘a legitimidade do presidente eleito está em baixa’. Com isso, as agências de risco se assustam e o risco-país dispara. Aí, as tevês dão em manchete: ‘o risco-país disparou.’ E a legitimidade do presidente eleito piora ainda mais.

É o golpe do risco-país, uma atualização do que Malaparte chamou, prosaicamente, de ‘golpe de Estado’.

Porém, a forma infalível de dar um golpe de Estado é roubar a eleição. Não me refiro à eleição de George Bush, à apuração na Flórida ou ao golpe da Suprema Corte, liderado pelo marechal-juiz Anthony Scalia.

Diz-se que o Brasil é um exemplo ao mundo: que a votação eletrônica brasileira é à prova de fraude. Em 1982, no Rio de Janeiro, vi uma eleição à prova de fraude ser manipulada, na digitação dos votos, por obra de uma associação do então SNI com o candidato do governo, Moreira Franco, e o apoio da Rede Globo e do jornal O Globo. Tudo para impedir a eleição de Leonel Brizola ao governo do Estado. Foi o chamado escândalo da Proconsult.

Depois do fiasco da eleição de 2000, até hoje a imprensa americana(e os democratas)tem sérias dúvidas sobre a lisura da próxima eleição presidencial na Flórida. Eu, de minha parte, acredito em tudo. A Proconsult pode ressuscitar. Quem assistiu a Matrix sabe que roubar uma eleição, na Flórida ou em Madureira, é uma questão de software.

Recentemente, o ex-presidente do México Miguel de la Madrid publicou um livro em que conta como roubou a eleição para dar a vitória a Carlos Salinas de Gortari. De la Madrid confirma o que sempre se imaginou: a apuração começou a revelar que o candidato da oposição Cuauhtémoc Cardenas venceria. O governo anunciou que os computadores tinham quebrado e a apuração recomeçaria do zero. Salinas se elegeu. E hoje vive refugiado na Irlanda.

Há uma forma branda, quase indolor de dar o golpe. Criadas as condições necessárias, com a aplicação das técnicas acima mencionadas, é possivel dar um golpe com a instituição do regime parlamentarista. Foi o que se fez com o presidente João Goulart. E pode perfeitamente ser feito ainda. É uma técnica também disponível e que deve estar na cabeça de muitas pessoas.

De pessoas que, por exemplo, tenham lido o discurso de posse do ex– ministro José Serra na presidência do PSDB. Ele falou três vezes em ‘parlamentarismo’ e nem uma só vez em ‘segurança’ ou ‘segurança pública’.

O golpe parlamentarista, porém, exige que o presidente da Câmara seja Ranieri Mazilli, que, docemente constrangido aceite assumir a Presidência da República. E o presidente do Senado seja Auro de Moura Andrade, que considere o poder ‘vago’, caso o presidente Lula vá comer churrasco na Granja do Torto.

Vejam que não falei em derrubar o presidente Lula com a ajuda do general Vernon Walters, nem dos militares subordinados ao general Mourão Filho.

Falo de instrumentos modernos para dar um golpe de Estado. São também instrumentos disponíveis, que estão na prateleira dos nossos tempos, e que a sociedade brasileira já usou e testou. Para que um golpe seja bem sucedido, basta combinar esses elementos na exata medida e na seqüência certa.

Porém, um golpe contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva só será bem sucedido, se, antes, for feito um trabalho catequético e a sociedade brasileira se convença de que o presidente não está ‘preparado’.

Eleger-se com os votos da maioria dos brasileiros não tem importância, se as pessoas se convencerem de que ele não está ‘preparado’. ‘Preparado’ para quê? Não importa. Depois de o Brasil ser governado por Fernando Henrique Cardoso, um homem notoriamente ‘preparado’, ter um presidente ‘despreparado’ é motivo suficiente para se pensar em derrubá-lo.

Quem define o que é ‘preparado’? Tanto quanto definir ‘baderna’, definir o que é ser ‘preparado’ cabe a quem tiver o poder de definir.

Isso pode parecer um disparate. Mas não é. Veja-se a última leva de historiadores do governo João Goulart. Eleito duas vezes vice-presidente da República, Goulart era, porém, um ‘despreparado’.

Imaginem -ponderam esses importantes historiadores– que João Goulart pretendeu fazer uma reforma agrária sem saber que reforma agrária fazer. Que reforma agrária Jango queria? A do Homestead Act dos Estados Unidos, na Guerra Civil; ou a do General MacArthur, no Japão, depois da Segunda Guerra?

Francamente, Jango não estava preparado para tratar disso.

Tinha mesmo que ser deposto.



***

P.S. (escrito às 18h de 31 de março de 04)

Um internauta amigo me contou que, no dia 18 de março, Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, disse a um grupo de jornalistas que tinha acabado de fechar uma pesquisa muito parecida com o Datafolha do começo do mês. Ou seja, a avaliação do Presidente Lula estava intacta e que a avaliação de José Dirceu tinha sofrido grande prejuizo.

Naquele dia, à noite, o comentarista político da Band, Fernando Mitre, deu essa informação no ar. A pesquisa, porém, não saiu. Foi sair um outro Ibope, cujo campo se realizou entre os dias 20 e 23. Portanto, começou a ser pesquisada dois dias depois da que não saiu. E entre uma e outra não houve nada de excepcional. Só que a nova pesquisa mostrou um resultado bstante diferente, em que: tanto o prestígio pessoal quanto a avaliação do governo Lula caíam de forma significativa.”



Elio Gaspari

”Publicidade é uma coisa, mitomania é outra”, copyright Folha de S. Paulo, 31/03/04

”Publicitários de todo o Brasil, uni-vos. Um fantasma ronda vossa profissão. Chama-se mitomania. É mitomania filmar trabalhadores rurais numa grande propriedade a R$ 50 de cachê, fingindo que são beneficiários do programa de amparo à agricultura familiar.

O surto de egolatria publicitária transformou os dois principais marqueteiros do país em produtos tão conhecidos quanto as mercadorias que anunciam. Duda Mendonça (com o Fura-Fila de Paulo Maluf/Celso Pitta, os 10 milhões de empregos de Lula e os lavradores do Pronaf) e Nizan Guanaes (com os cinco dedos de FFHH, Roseana Sarney e os 8 milhões de empregados, com carteira na mão, de José Serra) tonaram-se grifes. A contratação de Guanaes para a campanha tucana mobilizou o então presidente Fernando Henrique Cardoso. A de Duda Mendonça para a de Lula exigiu que o Guia Genial dos Trabalhadores enquadrasse o aparelho de propaganda do partido.

No caso do filme vendido ao comissário Gushiken, diz o doutor Duda que ‘não houve má-fé’. Nem boa-fé. Simplesmente não houve fé alguma. Algumas das mulheres grávidas mostradas no lindo filme pastoral da campanha de Lula tinham enchimento na barriga. Uma delas votara em Serra.

Como haverá eleições em outubro, os profissionais de publicidade brasileiros bem que poderiam prestar uma colaboração à honorabilidade das campanhas eleitorais.

Essa colaboração pode ser dada sem que se patrulhem idéias alheias ou se fiscalize a identidade dos figurantes. Trata-se de conferir coisa técnica, quase aritmética: os custos desses programas de televisão.

O principal foco de corrupção da política nacional está na arrecadação ilegal de dinheiro para as campanhas eleitorais. Nessa prática, Waldomiro Diniz e Charlie Waterfalls foram exemplos vulgares. Gente muito boa pega sacolas muito mais abonadas. Estima-se que para cada real declarado à Justiça Eleitoral exista outro, dado por baixo da mesa. As campanhas eleitorais brasileiras seguem costumes das cleptocracias africanas.

Entre 60% e 70% das despesas de um candidato a presidente, senador, governador ou prefeito são feitas no custeio da produção do filmes de TV para o horário gratuito. Lula informou que gastou R$ 7 milhões com os programas produzidos por Duda Mendonça. Estranha contabilidade essa. A campanha que acaba de ser suspensa, a ser paga pela Viúva, custaria R$ 8 milhões. Os lavradores do filme da Secom receberam R$ 50 de cachê. As grávidas do filme do PT receberam entre R$ 25 e R$ 40 por nove horas de filmagens.

Luiza Erundina, candidata a prefeita de São Paulo, e Raul Jungmann, no Recife, já anunciaram que colocarão todas as suas contas na internet, para serem conferidas em tempo real pelos eleitores.

Os publicitários (e também jornalistas que porventura entendam desse assunto) poderiam formar uma comissão independente. Ao fim de cada mês essa comissão poderia auditar os custos de um filme, tomado por amostra, ou de todos, se isso for possível. Não precisam encrencar com faturas assustadoramente pequenas (o grosso foi por fora) ou inacreditavelmente altas (a participação do cantor no showmício é o disfarce da remuneração pelo depoimento que a lei obriga a ser gratuito). Basta colocar um selo de confiabilidade no conjunto.

Para que essa operação fique de pé, seria necessário que os partidos, ou os candidatos, voluntariamente, abrissem suas contas. Se os candidatos são parecidos com aquilo que dizem deles mesmos, isso é fácil de fazer. Se eles são parecidos com o que dizem os seus adversários, é impossível.”

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