Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

TV EM QUESTãO > ENTREVISTA / CARLOS FERRAZ

Pioneirismo tropical e mescla de padrões

Por Tiago Eloy Zaidan em 20/07/2010 na edição 599

Professor do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador da TV digital, Carlos Ferraz discorre sobre aspectos técnicos da digitalização da TV brasileira e explica a mescla de padrões distintos utilizado na composição do sistema brasileiro.

No mundo, e notadamente no Brasil, a televisão é, sem dúvida, uma mídia pop. Com alta taxa de inclusão nos domicílios, a TV propõe-se a informar, entreter e até educar, constituindo-se em uma importante emissora de sentido.

Após a revolução das cores, ocorrida no Brasil na década de 1970, a televisão protagoniza, neste começo de século 21, uma nova mutação, desta vez ainda mais intensa. Trata-se do advento da TV Digital; a recriação da TV como nós conhecemos. Muito se tem esperado das transmissões digitais. As principais promessas são as de que, com a nova tecnologia, as imagens fiquem livres de ‘fantasmas’ ou ‘chuviscos’ e a qualidade do som torne-se equivalente ao atributo do CD. Diz-se, também, que a nova tecnologia será amigável à mobilidade e permitirá interatividade.

Sistema não é unanimidade

Ao entrar nesta nova era, o Brasil precisou optar por um dos três padrões disponíveis. Escolheu o japonês, o preferido dos radiodifusores, especialmente os privados. Ao fazer algumas adaptações e incorporar um software de interatividade desenvolvido pela PUC do Rio e pela Universidade Federal da Paraíba, foi concebido o que vem sendo chamado de Sistema Brasileiro de TV Digital.

Embora festejado pela Associação Brasileira de Empresas de Rádio e Televisão (Abert), o sistema brasileiro não é unânime. Especialmente por privilegiar a alta definição em detrimento da multiprogramação, que segundo Lia Ribeiro Dias, colunista do portal especializado TeleSíntese, ‘(…) limitou o número de emissoras praticamente às existentes’.

Para falar sobre aspectos técnicos da TV digital, conversamos com professor Carlos Ferraz, do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco. Diretor adjunto do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar) e coordenador da Comissão Especial de Rede de Computadores e Sistemas Distribuídos da Sociedade Brasileira de Computação, Ferraz é mestre e doutor em Ciência da Computação e pesquisador da TV digital.

Duas formas de aparelhos

Quais as diferenças entre a TV digital e a TV analógica?

Carlos Ferraz – As diferenças principais são, em essência, a qualidade da imagem – com a garantia de que não haverá mais chuviscos e fantasmas – e a interatividade – esta, uma característica que não existe na TV analógica, pelo menos de forma integrada (ela existe de forma não integrada, quando as pessoas, hoje, usam telefone e a internet, para interagir com a emissora com relação a determinado programa que está passando). A interatividade da TV digital vai permitir que você faça tudo isso com o controle remoto, acessando diretamente o aparelho de TV.

Outra grande característica é a multiprogramação, onde se tem, com a possibilidade da compressão das imagens, mais espaço para conseguir enviar, no mesmo canal de TV, mais de um programa ao mesmo tempo. Isso aumentaria a quantidade de opções que nós temos para assistir. Aqui estou falando, essencialmente, da TV aberta, e não de TV por assinatura, onde, de fato, já há uma quantidade grande de canais.

Outra grande característica é a possibilidade da mobilidade: de assistir em pequenos aparelhos portáteis, sejam celulares ou TVs que estejam instaladas em carros, trens, ônibus etc., com a mesma qualidade dos aparelhos fixos.

Já existem aparelhos de TV digital disponíveis no mercado brasileiro?

C.F. – Sim, existem. A forma aberta da TV digital já está disponível no Brasil desde dezembro de 2007 e, a partir de então, começaram a surgir os aparelhos. Hoje, nós temos duas formas de aparelhos: os aparelhos integrados – aqueles que são a própria TV – e aqueles outros que são os chamados set-top box, que são aparelhos que, recebendo o sinal digital, converte-o para o sinal analógico para que se possa, então, visualizar a programação na tela da TV que já se tinha, a TV analógica.

Transporte de imagens e de áudio é padronizado por todos os sistemas

No Brasil, já existem emissoras transmitindo em sinal digital?

C.F. – Sim. Desde 2007 já existem emissoras espalhadas em diversas cidades. Em Recife, por exemplo, nós temos duas emissoras que já transmitem o sinal digital.

Por ocasião do advento da TV analógica a cores, o Brasil teve que optar por um padrão dentre os disponíveis, que eram o americano e os europeus. Agora, com a TV digital, foi preciso, novamente, escolher entre padrões distintos?

C.F. – Mesmo na definição dos padrões a cores, o Brasil fez uma pequena adaptação. Escolheu o padrão europeu, o Pal, e fez uma pequena adaptação. E esse padrão, aqui no Brasil, passou a se chamar Pal-M. Também o sistema digital foi dessa maneira. Nós tivemos, na mesa, uma série de opções, que poderiam ser escolhidas pura e simplesmente. Mas o Brasil precisou, ou preferiu, fazer uma série de pesquisas e testes para realmente verificar o que é que seria melhor do ponto de vista tecnológico a ser colocado aqui no país.

Se nós considerarmos o sistema de TV digital como uma espécie de Lego, onde você junta as peças, nós temos, sim, um sistema brasileiro de TV, com um conjunto de peças que são padronizadas. Algumas delas vieram do sistema europeu, outras vieram do sistema americano e outras, do sistema japonês.

Quando se fala, na mídia, já há algum tempo, que Brasil adotou o sistema japonês, é porque uma dessas caixinhas, que poderia, talvez, ser considerada a caixinha essencial – sem ela não haveria transmissão digital –, a caixinha da modulação, essa sim, foi escolhida do bojo do padrão japonês. Mas o fato é que nós temos um sistema brasileiro, com diversos módulos desse sistema que são trazidos de algum dos outros sistemas. Alguns deles, até, padronizados para todos.

O sistema, por exemplo, que faz o transporte das imagens, do áudio e dos dados, é padronizado para todos. É o mesmo módulo, a mesma caixinha, e é utilizado no sistema brasileiro, no sistema europeu, no sistema americano e no sistema japonês.

Dentre os sistemas de modulação, o japonês se deu melhor

O senhor mencionou os diferentes sistemas digitais. Quais as deficiências e atributos de cada padrão disponível para a TV digital? E por que da escolha, ao menos majoritariamente, do padrão japonês?

C.F. – O sistema americano é um pouco mais antigo. Nos Estados Unidos, já há TV digital há mais de 20 anos. Eles tinham um sistema que tinha tido poucas evoluções e que por isso ainda não prezava determinados aspectos que o Brasil queria que tivesse no seu sistema. Por exemplo, a questão da interatividade. No sistema americano, a interatividade não era bem resolvida. Da mesma forma, eles não tinham bem resolvido a questão da mobilidade. Então, basicamente, o sistema americano prezava pela alta definição.

Já o sistema europeu prezava mais pela questão da interatividade, mas tinha algumas deficiências em relação à mobilidade. E o sistema japonês, mais novo que os outros dois, era, a princípio, um sistema mais adequado em termos de suporte à mobilidade e suporte à alta definição, mas pecava, ainda, em relação à interatividade.

Então, a adoção, feita no Brasil, deu-se a partir de um pouquinho de cada um dos sistemas, melhorando-os, inclusive. É importante dizer que o Brasil foi o primeiro país de clima tropical que começou a adotar o sistema de TV digital. E, por conta disso, todos os testes de todos os outros sistemas falhavam bastante aqui, em função do clima e de algumas outras condições, mostrando, realmente, que algumas adaptações precisavam ser feitas.

Dentre os sistemas de modulação – que é essencial –, o japonês foi o que se deu melhor aqui em terras brasileiras. O que não quer dizer que ele fosse o melhor, que não tivesse condições de haver nenhum outro sistema que pudesse ser melhor do ele. Dentre as pesquisas feitas aqui no país até foi desenvolvido um sistema que era um pouco melhor que o sistema japonês. Mas, por razões comerciais e até mesmo políticas, o módulo japonês foi o adotado.

Pesquisas para transmissão foram essenciais

O sistema de TV digital articulado pelo Brasil será muito dispendioso para as emissoras? Especialmente para as públicas e educativas?

C.F. – Em um primeiro momento, sim. Esse é o peço que se paga em termos de pioneirismo. Mas com o passar do tempo, com a questão da escala, isso tudo se multiplicando em diversas emissoras… O Brasil é um país muito grande e tem uma capacidade de escala bastante grande. Com o passar do tempo, certamente, todos esses equipamentos vão estar bem mais baratos. Mas para as primeiras emissoras entrarem no ar é, realmente, bem mais caro.

A migração para a tecnologia digital não vai tornar a televisão uma mídia muito dispendiosa para o público brasileiro?

C.F. – Da mesma forma, também é uma questão de escala. De fato, logo no início, os equipamentos e os aparelhos eram um pouco mais caros. Mas hoje nós vemos que já não faz tanta diferença se você for a qualquer loja e pegar dois aparelhos de TV, por exemplo, semelhantes, mas sendo um digital e o outro analógico. A diferença de preço entre eles já não é tão significativa quanto era no começo, lá em 2007 ou no início de 2008. Então, de novo, com o passar do tempo, nós vamos tendo a queda nos preços.

O senhor nos fez saber que o Brasil, em um determinado momento, chegou a estudar a criação de um padrão próprio, ou, pelo menos, majoritariamente nacional. O senhor poderia apresentar algumas das características desse padrão que estava em desenvolvimento no Brasil?

C.F. – Não seria muito diferente do que é hoje. Na verdade, eu acho que o que aconteceu foi muito mais um efeito de mídia, de discurso em que as pessoas diziam ‘nós vamos ter o nosso próprio padrão’.

Como eu disse, depois dos estudos todos, chegamos à conclusão de que, no fundo, a gente não está falando de padrões, e sim de sistemas, que envolvem diversos padrões. Então, o que o Brasil fez – o chamado Sistema Brasileiro de TV Digital – não é diferente do que poderia ter sido o tal padrão brasileiro de TV digital. Não existe diferença. É mais uma questão conceitual.

Alguma pesquisa realizada no Brasil contribuiu com o desenvolvimento da tecnologia da TV digital?

C.F. – Sim, várias. Se você pegar desde os grupos que estavam pesquisando a questão da transmissão de sinais e estudando quais as melhores antenas para isso… Você vê no mercado basicamente antenas importadas e diz que nada valeram aquelas pesquisas. Não. Elas valeram muito, porque fora elas que permitiram definir quais seriam, por exemplo, as melhores antenas a serem importadas. Mas bem mais fácil de aparecer na mídia é quando você apresenta algo que de fato não existia e surgiu com as pesquisas brasileiras. E teve, também, uma série de pesquisas brasileiras que deram esses resultados.

Para saber mais

O livro TV Digital no Brasil: Tecnologia versus Política, do repórter do jornal O Estado de S. Paulo Paulo Renato Cruz, apresenta os bastidores da implantação da tecnologia digital na TV brasileira, desde a escolha do padrão japonês. O livro ainda reconstitui o histórico da mídia televisão no país.

O site do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (SBTVD) propõe-se a ser o site oficial da TV digital Brasileira e pode ser acessado através do endereço: www.forumsbtvd.org.br.

O portal do Observatório da Imprensa, tradicional espaço de debates sobre comunicação na internet brasileira, apresenta artigos diversos sobre o tema da digitalização da TV brasileira. O endereço do portal é http://www.observatoriodaimprensa.com.br/.

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Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador do grupo Comulti/Ufal/CNPq

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