Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Profetas do acontecido

Por Alexander Goulart em 04/05/2004 na edição 275

Houve um tempo em que a pornografia era material de colecionador. No cinema, por exemplo, desde cedo se produziram filmes contendo cenas de sexo explícito, mas a exibição era restrita; normalmente acontecia em reuniões nas casas de ricos senhores que possuíam projetor próprio. Mais tarde esse tipo de filme foi para os cinemas ‘especializados’, mas com público restrito. Com o advento do videocassete a indústria pornô se transformou num negócio milionário. Qualquer pessoa passou a poder comprar um filme ou entrar numa videolocadora e escolher a fita de sua preferência.

Até aí tudo bem. Algo estranho, porém, começou a acontecer. Filmes ditos não-pornográficos, mas com cenas de sexo explícito, começaram a surgir nos cinemas. Há casos clássicos, como Calígula e O império dos sentidos. Na época, um escândalo. Desde o início dos anos 80, eventualmente, aparecem filmes que mesclam drama, erotismo e sexo explícito. Agora, há um surto desse estilo de filmar nos cinemas. Temos a doce Meg Ryan estrelando um filme com cenas de sexo explícito, Bernardo Bertolucci dirigindo filmes com sexo explícito, além de outros exemplares menos conhecidos, como Ken Park (do mesmo diretor de Kids). Tais filmes não são tachados de pornográficos. Mas, então, o que é pornografia hoje? Se o sexo explícito não é necessariamente pornografia (obsceno ou ofensivo ao pudor), então é possível que ele também chegue à televisão.

Melhor seria dizer que já chegou. Temos cenas desse tipo em exemplares do Big Brother mundo afora. No caso do Brasil, exceto na TV a cabo, não tivemos ainda tais manifestações, embora a antiga rede OM/CNT tenha exibido Calígula. Erotismo, sim, vemos todos os dias na telinha. Embora goste de certa sensualidade (ou seria sacanagem?), o público brasileiro, de modo geral, rejeita o excesso de sexo. Basta lembrarmos de como era e como está agora a novela Celebridade. Na extinta TV Manchete, o programa Cinemania II, apresentado por Wilson Cunha – hoje diretor do Multishow –, durante alguns meses, na madrugada, apresentou cenas de filmes pornográficos. Monique Evans, na Rede TV!, também o fez. Mas eram filmes, não produções especialmente feitas para a televisão. A dúvida é: será que estamos próximos de ver um ator e uma atriz global em tórridas cenas de sexo explícito em plena novela das oito? Se for às oito, difícil, mas se a novela continuar sendo empurrada cada vez para mais tarde, é uma possibilidade.

Discurso moribundo

Débora Secco já mostrou os seios, assim como Juliana Paes. Em algumas cenas de Celebridade estivemos próximos de ver sexo de verdade. Aliás, caberia uma reflexão: o que seria, na televisão, sexo de verdade ou explícito? Pelas cenas que já vimos em algumas minisséries fica difícil responder. Sexo explícito só existe quando vemos uma genitália ou penetração? Carícias, beijos, calorosos afagos não fariam parte do ato sexual? Quem sabe?

Na Rede TV!, mais precisamente no programa de João Kleber, podemos acompanhar a escolha da ‘atriz’ que fará par com Alexandre Frota em seu novo filme pornô. Sim, a televisão brasileira abre espaço para esse tipo de concurso. Mas também não tem gente leiloando virgindade na TV? O próximo passo será a transmissão ao vivo da primeira transa.

Contudo, uma pergunta deve ser feita: qual é o problema disso? É certo ou errado? Terá a televisão o direito de mostrar o que quiser e o público a liberdade de escolher o que ver? Esta é a reflexão que se faz urgente; reflexão que não percebemos nas universidades, nas escolas ou na mídia. Não conseguimos prever nem analisar os fenômenos potenciais, restando-nos um discurso moribundo, quando não vazio. Somos profetas do acontecido.

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Jornalista

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