Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > MÍDIA & ÉTICA

Propaganda indesejada. É claro!

Por Rodrigo C. Vargas em 09/02/2010 na edição 576

A propaganda da empresa de telefonia móvel Claro em que uma garota tem sua dor de ver os pais separados diminuída por um celular demonstra firmemente uma posição já estabelecida pelo mercado das crises e vez por outra aceita: vale tudo. Inclusive uma enxurrada de opiniões e moldes que desfiguram o sentido de sua própria existência, a sociedade.


Nietzsche, em Ecce Homo, no capítulo ‘Por que sou um destino’, escreve: ‘Eu sou o primeiro a ter descoberto a verdade, uma vez que fui o primeiro em sentir a mentira como mentira.’


Esse apontamento abre a possibilidade para esse encontro. Para que serve a propaganda numa sociedade? Para nos aproximar do que há de melhor? Para vender qualidades? Não é o que está acontecendo. Provar é fácil, difícil é inibir as manipulações e, principalmente, acompanhar de perto o que nos é garantido constitucionalmente.


Até mesmo regulamentar o setor – que tem como maiores representantes os donos das agências – é sempre impedido. Dessa forma, qualquer reação do cliente (mesmo não comprando o produto, todos o somos, por estarmos expostos à sua apresentação quase onipresente) de contrapor as conduções imorais é elevada ao papel de censor (palavra temida e usada descaradamente para afastar quem deseja intervir nesse sistema classista). Muito fácil.


Uma sociedade sexualmente estereotipada


O mesmo processo desfavorável é reforçado pela novela das oito que, por mais rodeios do autor, lhe escapa das mãos a tensão de um só enredo, a traição. Não que não exista, nem muito menos um eterno fervor pelo modelo patriarcal do passado – até porque memória não significa atraso – mas apenas um questionamento singular: por que da falta de reflexões nobres ao passo que somos seres supremos e tecnológicos; ou não somos? A frase da personagem de Letícia Spiller responde: ‘Eu preciso sentir o gosto do adultério!’


As duas coisas, a propaganda e a novela parecem distintas, mas são intimas. Todos os seus significantes e significados promovem a destruição de um modelo cheio de defeitos, mas com muitas virtudes. O que parece é que as virtudes não contam. Ao eliminar o todo, se perde tudo. Não é assim que agimos? Negar tudo isso é deixar fugir um tempo que não é esse, esquecer detalhes importantes que nos apresentam como somos.


O que significa tudo isso? Como é possível estabelecer uma relação verdadeira com o outro quando bombardeados numa roda de desejos em que não se percebe se o que assiste vende o celular ou o preenchimento hipócrita da posição vaga numa família despedaçada? Marcar o cotidiano romanceado ou explorar uma sociedade estereotipada sexualmente.


‘Valeu a pena’


Maiakovski (seus amores eram outros e em outro mundo, mas tanto o tempo quanto as coisas às quais era submetido permaneceram filtrados pela palavra mudança) sabia que era preciso ter em mente e nas mãos uma espécie de resistência completa, como revelou em seu poema ‘Nuvem de calças’.


‘Se quiserdes
poderei enlouquecer de carne
ou então
como um céu cambiando de tons
serei, se quiserdes,
impecavelmente deliciado.
Não serei um homem.
Serei
uma nuvem de calças.’


É preciso acompanhar os passos silenciosos dos que não têm pernas para sentir o chão. Quanto ao modelo de governo de observar de perto esses delinqüentes bem formados, é urgente e a história vai dizer: valeu a pena.

******

Jornalista

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