Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > VIVER A VIDA

Pseudo-atores também protestam!

Por Fernando Schweitzer, de Buenos Aires em 15/12/2009 na edição 568

Mesmo em depressão, e que não é pós-parto, eu volto. Mais indignado que prostituta que depois do programa não foi paga. Mais louco que psiquiatra aposentado. Dentro do meu ócio improdutivo, do meu medo da morte compulsivo e de viver a vida relembrando meus êxitos retroativos chego aqui a vocês que mesmo contra a insapiência generalizada e a inveja de alma deslavada me persistem em ler.

Motivo de minha loucura ancestral ter sido desperta além de várias outras coisas que me ensandecem a cada segundo de minha vida nada acrítica foi uma nota, não digo pela nota, mas sim, pela notícia que ela trás. A coluna ‘Zapping’ de 07/12/2009, diz: ‘Alguns atores revelados em Viver a Vida têm reclamado das gravações em cima da hora. Por causa disso, não sobra tempo para que eles façam publicidade e eventos. Eles avaliam que, se não aproveitarem agora, não terão outra chance para aumentarem seus rendimentos. Segundo a Globo, todos os contratados sabiam que a novela exigiria dedicação e disponibilidade.’

Antigamente, bem antigamente, quem dava piti em produções eram as grandes estrelas de talento inegável. Estas que tinham um currículo invejável e talento incontestável. Hoje em dia, não, são sinais dos tempos, se não do Apocalipse. Clorofórmios fecais do mundo da interpretação, sem formação, que ademais de roubar mercado de trabalho de profissionais sérios ainda têm o desplante de dizer tais coisas em tom de protesto.

O despudor é tanto que me faz pensar mesmo dentro da inércia que eu tentava manter em minha vida com objetivo de não perder minha sanidade. E a frase anterior foi sem vírgula propositalmente, pois minha ânsia não tem vírgula. Esses que reclamam de gravar em cima da hora, na era da telenovela ao vivo se suicidariam na primeira semana de exibição.

Além do mais, analfabetos?

Na era em que eu ainda acreditava no ser humano, ou que em algum dia conheceria um de fato não apenas de título e sem honoris causa para sê-lo, eu pensava que deveria ser o ator mais eficiente e mais completo somente para ao dizer-me ator ser digno de tal falácia. Em tempos modernos, e não é um trocadilho com a novela global, os pseudo-atores de reality e teste de sofá tem o garbo de darem crise porque tem de trabalhar. Afinal na minha época se usava a expressão: ‘Que bom trabalho de ator tem fulano!’, para alguém que além de ator superava a simples obrigação de atuar não sendo ele mesmo como se faz atualmente.

Ao passo que em vez de preocuparem-se com a obra dramatúrgica que foram postos a cargo, estão na pulsão louca de venderem um pouco mais seus corpos, nisso vejo que algo precisa urgentemente ser feito. Se já não fora muito estarem roubando o pão de verdadeiros profissionais da área que não compram DRT por R$ 3.000,00. ‘Inda’ me vêm com a patolada de reclamar porque não podem vender sua imagem a eventos. O que me encanta é o argumento que é realmente justo e um indício de consciência ou ao menos de noção de que realmente são corpos de plástico. Cito: ‘Eles avaliam que, se não aproveitarem agora, não terão outra chance para aumentarem seus rendimentos.’

Segundo a Globo, todos os contratados sabiam que a novela exigiria dedicação e disponibilidade. Pergunto uma coisa e não mais, ao assinarem contrato não leram nossos ‘queridíssimos ídolos’ de meia tigela ou além de maus pseudo-atores são analfabetos?

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Ator, diretor teatral, cantor, escritor e jornalista

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