Terça-feira, 17 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Questionar é preciso

21/04/2009 na edição 534

Cubanos agora podem, livremente, entrar e sair dos EUA, podem até mandar dinheiro americano para a terra natal. É isso mesmo. Parece que a liberdade chegou a Cuba e com ela um pequeno sopro de democracia atinge a ilha de Fidel Castro, ou de Raul Castro, que seja. Pena que os cubanos ainda não saibam disso, é o que diz Arnaldo Jabor em seu comentário no Jornal da Globo.

Se os cubanos não têm acesso a essa novidade, quem são os privilegiados que podem dela desfrutar? Pergunta difícil essa, uma vez que vivemos num mundo globalizado em que padrões de consumo, modos de vida e valores sociais se espalham com rapidez entre diferentes povos e tudo se mistura.

Toda a cultura se torna muito parecida, e a população mundial, a cada dia, se torna mais homogênea. E é justamente por isso que a função da informação foi pervertida. Não cabe mais a ela contribuir para formar opiniões por meio da transmissão objetiva dos fatos. As agências internacionais de notícias arrancaram dos jornalistas a obrigação de transmitir fatos e interpretá-los da forma mais impessoal possível, considerando todos os lados, para que a sociedade decida por si mesma qual é a sua opinião.

Bens de consumo e comportamentos

Quem garante que o intuito de Barack Obama seja libertar Cuba da ‘dinastia comunista’ dos Castro? Desde quando democracia é sinônimo de liberdade? Se, por um lado, o fim do bloqueio a Cuba pode trazer a liberdade à ilha de Fidel, por outro pôr fim ao bloqueio é trazer Cuba, de uma vez por todas, para dentro da nova ordem mundial, do neoliberalismo econômico e da cultura do consumo.

O que a imprensa brasileira divulgou, e que provavelmente é reflexo da imprensa americana, não é toda a verdade. A informação divulgada está longe de trazer à sociedade todas as vertentes desse fato, que precisa ser interpretado com o auxílio de ciências como a sociologia e a história.

O tempo disponibilizado aos jornalistas pelas emissoras de TV e de rádio é pequeno e, certamente, dificulta o aprofundamento dos fatos. Porém, essa muleta já está gasta e está mais do que na hora de ela se aposentar. Não era impossível, para o comentarista político da Rede Globo, falar do outro lado da história, explicar, mesmo que de forma sucinta e objetiva, que a democracia traz consigo não só a liberdade econômica e política, mas também a padronização dos bens de consumo e de comportamentos sociais.

Suposição é o objetivo

Basta imaginar uma cena. Um cubando que vive nos EUA, ao fazer uma visita aos seus pais, traz na mala um iPod, um laptop com internet sem fio e pronto. Todo mundo vai querer baixar músicas, falar com pessoas do mundo todo, assistir aos vídeos da internet, enfim, o desejo de consumo se estabelece e o trabalho se torna uma forma de ganhar dinheiro para sustentar esse desejo, ao invés de sustentar a vida por si só.

Por isso, é preciso cautela. Num momento em que a economia americana está desgastada e precisa respirar, Cuba pode ser aquele fôlego no meio da corrida acelerada por novos mercados. Esse é um mecanismo comum. Desde que o mundo saiu da ordem econômica medieval em que se trocavam produtos excedentes e entrou no chamado mercantilismo. Aliás, hoje, esse mecanismo é comum e lógico.

A colocação anterior, assim como toda a idéia expressa neste texto, pode ser apenas uma suposição, mas é esse o objetivo. Esse é o ponto. O jornalismo precisa voltar a supor, a imaginar, para que possa auxiliar a sociedade a se questionar e formar sua opinião. Jornalistas não formam opinião, mas dão munição para que o cidadão faça isso por si só, esteja ele certo ou não.

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Estudante de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina, PR

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