Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Revisitando o Caso Herzog

Por Paulo Eduardo Nogueira em 12/05/2009 na edição 537

‘A verdade emerge.’ (Ben Bradlee, editor-chefe do Washington Post na época de Watergate)

Por que remexer/reviver fatos ocorridos há quase 35 anos, fartamente documentados e discutidos em livros, reportagens, filmes e depoimentos? Porque muitas vezes a versão que prevalece é parcial, incompleta ou mesmo mitificadora. E porque a responsável pelo blog Viva Babel, Elizabeth Lorenzotti, que pretende resgatar a memória histórica dos jornalistas, como a da greve de 1979, me pediu para escrever sobre um evento intensamente vivido por nossa geração – no caso, a mobilização que se seguiu ao assassinato de Vladimir Herzog, o Vlado, em 1975.

Na época, ainda cursando o último ano de jornalismo na ECA-USP, eu trabalhava como revisor na Folha. Vlado foi morto no sábado, dia 25 de outubro, mas a notícia só se espalhou pelas redações, de forma viral, num domingo de plantões com equipes reduzidas. Sem e-mails, twitter ou celulares, o boca-a-boca se encarregou de informar o grosso dos jornalistas.

O assassinato chocou particularmente nossa turma, pois Vlado dava aulas de Telejornalismo na ECA até ser convidado para dirigir o jornalismo da TV Cultura – tragicamente, um cargo que o exporia à sanha repressiva da ditadura e terminaria em tortura e morte.

Risco de prisão

Na segunda-feira logo cedo, nós nos reunimos na ECA para discutir como enfrentar a situação. Um dos colegas redigiu rapidamente um panfleto para distribuirmos no enterro de Vlado e o assinou em nome da Comissão Universitária (um agrupamento informal de centros acadêmicos que seria o embrião do DCE Livre, criado no ano seguinte). Não havia sequer tempo de consultar dezenas de centros acadêmicos.

Chegando ao cemitério, no fim da manhã, distribuímos o texto a algumas pessoas. Nunca li menção a este detalhe em nenhum lugar. Talvez a panfletagem tenha sido muito discreta, como exigia a época. Talvez não interessasse aos donos da versão oficial partilhar o crédito pela mobilização.

Minha lembrança mais forte daquele enterro, realizado a toque de caixa para encerrar logo o assunto, é a de Hamilton Almeida Filho, o HAF, gritar ‘abaixo a ditadura’ enquanto o caixão descia à sepultura. Uma ousadia para os padrões vigentes e uma amostra da revolta que dominava a todos.

Para a diretoria do sindicato dos jornalistas da época, então acossada pelo II Exército, terminaria ali a mobilização, com o sepultamento e uma nota oficial. Espontaneamente, porém, os presentes marcavam encontros na sede do sindicato à noite, comprometendo-se a levar mais colegas. Algo mais precisava ser feito.

À tarde, fui trabalhar e as redações do Grupo Folha (que então editava sete jornais, além de manter a Agência Folhas e o setor de Revisão, com centenas de profissionais) fervilhavam de indignação. Ao anoitecer, os jornalistas que chegavam em massa ao sindicato deparavam-se com uma imensa faixa negra de luto, lacrando a porta do auditório, fechado e às escuras. Extremamente nervoso, um dos diretores argumentou que o presidente do sindicato depunha naquele momento aos militares, correndo o risco de ser preso. Qualquer mobilização soaria como provocação. Replicamos que, ao contrário, somente a mobilização máxima dos jornalistas garantiria a segurança de todos.

Em silêncio

Escaldados pela recém-cometida barbaridade, que repercutia intensamente em toda a imprensa, os militares pensariam duas vezes antes de partir para a repressão. Os fatos históricos subseqüentes deram razão a este raciocínio, de resto já aplicado inúmeras vezes no movimento estudantil (quando, um ano antes, um de nossos professores, Jair Borin, fora detido pela repressão, percorremos classe por classe da ECA denunciando o fato: quanto mais pessoas soubessem, menos possibilidades teriam de ‘desaparecer’ com ele, libertado tempos depois. Ficar quietos para evitar ‘provocações’ – a palavra mais utilizada por boa parte das tendências políticas, ao lado da expressão ‘não é o momento’ – só ajudaria o regime militar).

Retirou-se quase na marra a tal faixa de luto, as luzes se acenderam e em instantes o auditório estava lotado. Tradicionalmente apáticos, individualistas e desarticulados enquanto categoria profissional, os jornalistas estavam irreconhecíveis naquela noite histórica. Se algum gaiato propusesse uma ação até violenta, muitos no plenário topariam sem pestanejar – o que, aí sim, seria uma provocação potencialmente desastrosa.

Uma repórter da editoria de Economia da Folha de S.Paulo, brandindo uma cópia da nota oficial do sindicato, lamentou que, de tão anódina, poderia ter sido endossada pelo II Exército. Seguiram-se as decisões por todos conhecidas: assembléia permanente e um ato ecumênico na sexta-feira. A partir daí, credite-se, a diretoria do sindicato cumpriu as decisões da maioria, ancorada numa mobilização sem precedentes de uma categoria profissional desde a decretação do AI-5. Era o típico caso de uma direção que ia além de suas possibilidades, premida pela ação coletiva e pelo momento histórico.

Durante a semana, partiu-se para ampliar o movimento e obter a adesão de outras entidades da chamada ‘sociedade civil organizada’. Pessoas físicas e profissionais liberais aderiam com entusiasmo ao trabalho de convocação do ato ecumênico. Porém, com exceção dos sempre combativos colegas da USP (que decretaram greve de três dias) e da coragem individual de alguns líderes religiosos, como dom Paulo Evaristo Arns, a receptividade dos setores organizados foi decepcionante. Entidades da comunidade judaica, por exemplo, se omitiram desde o enterro, ao qual nenhum rabino compareceu (Henry Sobel tinha um compromisso ‘inadiável’ no Rio e ao voltar se posicionou inicialmente contra o ato público). A CNBB igualmente ficou calada e muitos bispos se mostravam contrariados com a decisão de ceder a Catedral da Sé para a cerimônia.

Na área sindical, nenhuma entidade se envolveu. O Sindicato dos Jornalistas do Rio – importante praça jornalística – limitou-se a enviar mensagem de condolências. Os metalúrgicos de São Paulo tinham à sua frente o notório pelego Joaquinzão. Sem chance. A diretoria do sindicato de São Bernardo, presidido por Luiz Inácio da Silva, não se manifestou, argumentando que o morto era jornalista e não metalúrgico. Três meses depois o II Exército matava outro preso político – um metalúrgico –, mas São Bernardo manteve-se em silêncio.

Depoimentos dissonantes

Apesar da omissão da imensa maioria de entidades, da bizarra operação do coronel Erasmo Dias para congestionar o tráfego da cidade com 380 barreiras e impedir o acesso à catedral da Sé na sexta-feira, e da onipresente ameaça de repressão, o ato ecumênico, com cerca de oito mil participantes, consagrou-se como o ponto de virada na luta pela democracia no Brasil. Hoje, muitos dos omissos da época pegam carona nesse momento histórico. Omitem que estavam bem longe dali na hora do perigo. Versões de conveniência exaltam uma mobilização de setores da sociedade que jamais ocorreu (setores que só se envolveriam na luta pela democracia após as portas abertas pelo ato ecumênico). Como diz o ditado, a derrota é órfã, mas a vitória tem muitos pais.

Agora, porém, a internet possibilita a veiculação de depoimentos dissonantes das versões consagradas. Nas palavras de Ben Bradlee aos repórteres Woodward e Bernstein quando as apurações de Watergate não avançavam, ‘calma, rapazes, a verdade emerge’.

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Jornalista

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