Quinta-feira, 21 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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Sensação de déjà-vu domina nova novela

Por Silas Martí em 16/06/2015 na edição 855

Uma sensação de déjà-vu aliada ao retrato um tanto démodé do universo da moda e seus derivados –sexo e drogas– dominou a primeira semana de “Verdades Secretas”.

Nas primeiras cenas da nova novela das 23h da Globo, os diálogos dos personagens de Camila Queiroz, a modelo que ancora a trama, e seus pais, vividos por Drica Moraes e Tarcísio Filho, prometiam o que a cena de sexo de Rodrigo Lombardi e Alessandra Ambrósio entregou depois –muita intriga e zero pudor como manda o figurino do horário.

Mas depois tudo parece ter desandado. Quem viu “Sex Appeal”, minissérie de Antônio Calmon levada ao ar pelo canal em 1993, não deve ter se esquecido de que a então estreante Luana Piovani, no papel da cobiçada modelo protagonista da trama, também se chamava Angel, nome mais insosso e insípido impossível.

Nessa reencarnação de um misto de “Sex Appeal” e “Top Model”, do mesmo Calmon com Walther Negrão, tudo está mais plástico e fantástico, é verdade, mas lendas urbanas que rondam o mundo da moda ainda servem de estofo para a trama que fala de modelos que se prostituem.

Mauro Mendonça Filho é um diretor um tanto histérico, que acelera e afoga sequências com potencial e alonga outras que poderiam tomar uma fração do tempo –no caso, as risíveis cenas de alucinação de Angel quando drogada numa festa.

Na faixa do fim da noite, depois da rocambolesca trama de “Amor à Vida” no horário nobre, Walcyr Carrasco deu uma polida no texto, mas os diálogos logo perdem fôlego e viram um mar de explicações sem fim, achatando e dividindo personagens entre bonzinhos e malvados.

Logo de cara, fica difícil torcer por Angel. Sua versão dos anos 1990, aliás, era menos boba e, logo no começo da antiga trama, ela invadia um vestiário para flagrar o boxeador vivido por Nico Puig no banho.

Marieta Severo, no papel de Fanny Richard, a dona da agência de modelos, talvez tenha um dos poucos personagens complexos da trama. Distribui brinquedos num orfanato ao mesmo tempo em que lidera uma rede de prostituição com suas modelos.

Mas nos primeiros capítulos, com poucas cenas, ainda não foi possível entender a profundidade, se é que ela existe, dessa personagem, que também guarda um paralelo com a chefona da agência de “Sex Appeal”, interpretada por Cleyde Yáconis.

Nessa triangulação entre a diva má, a ninfeta e o cafajeste que se aproveita dela, essas tramas de modelos resultam clones umas das outras. Não seria de todo mal se mesmo em versão derivada fosse possível orquestrar algo com mais força, senão ousadia.

Não é demais esperar isso depois de “Amores Roubados” e “O Rebu”, mas talvez “Verdades Secretas” esteja ali não para agradar quem via esperança na TV aberta e sim para alavancar a sofrida “Babilônia” que vem logo antes –a trama de Gilberto Braga tem a pior audiência de todos os tempos no horário.

Questões estruturais à parte, “Verdades Secretas” parece algo sem ambição. Mesmo que faça um retrato estereotipado, para não dizer antiquado, do mundo da moda, é uma trama que pode sobreviver das sequências de visual exuberante que esse universo rende.

Nesse sentido, salvar a trama de diálogos e personagens meio bobos requer num primeiro momento dar mais peso à coreografia das cenas de sexo –o que Ambrósio não tem de atriz, ela tem de beleza. Lombardi, como macho alfa da novela, não está nada mal.

***

Silas Martí, da Folha de S.Paulo

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