Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

TV EM QUESTãO > TV, 60 ANOS

Sobre leite Ninho, Coca-cola, e café

Por Paula Freitas em 05/10/2010 na edição 610

Sexagenária, a televisão brasileira entra em sua terceira idade já com algumas ruguinhas. Em seu ímpeto insano de sempre parecer bela, essa donzela globalmente espalhada pelos quatro cantos do planeta ainda veste salto alto. Contudo – o leitor há de convir –, sua espinha dorsal já não é mais a mesma, até porque se apoia em parede oca, construída sobre terreno mal arado.

O alicerce em cima do qual a televisão brasileira se ergueu é sinuoso. Implantada no Brasil pelo magnata Assis Chateaubriand, ‘homem de muita visão’, segundo a colocação de muitos, também se coloca como personalidade por demais controversa. Chatô, dentre muitas acusações referentes a chantagem de empresas por não anunciarem em seus veículos, ousa ter em sua biografia uma suposta proximidade com um dos mais notáveis e influentes políticos que assumiram a presidência do Brasil durante o período ditatorial, Getúlio Vargas. Essa sua proximidade com ‘o homem’ teria sido tumultuada, entretanto lucrativa para suas empresas.

Assis Chateaubriand, à época, era o dono dos Diários Associados, que chegou a ser, na década de 60, o maior conglomerado de mídia da América Latina. Em seu auge, o grupo contou com a presença de mais de 100 jornais, além de englobar também emissoras de TV (como a pioneira no país, a Tupi) e rádio, revistas e agência telegráfica. Chatô pode ter sido, para alguns, um chato. Porém – o leitor há também de convir –, sem ele poderíamos, em hipótese, ainda nos comunicar por latas de tomate unidas por um barbante, uma vez que é preciso muito mecenato e autonomia financeira para instaurar um meio de comunicação em qualquer país.

Dor de barriga e indisposição

Nesse contexto, nasce a TV no Brasil, com nome ainda tupiniquim, como que uma homenagem à personagem Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. Mirradinha, nascida com o auxílio de fórceps, ela surpreende a todos com seu crescimento e descoberta de grandes artistas e jornalistas, como Paulo Francis, Pedro Bial (na época em que ele ainda tinha um pingo de decência em seu vocabulários, ‘meus heróis!’), Lilian Witte Fibe, dentre tantos outros. Quem diria que esta donzela de tanta repercussão (positiva, a princípio), tão bem vestida, amparada – muito concentrada! – hoje sucumbiria de osteoporose, quase totalmente entregue às moscas da publicidade.

Consagraram-se, através dela, pessoas de talento extraordinário. O exemplo mais vívido é Elis Regina, que se apresentou ao grande público por meio dos belos festivais – realizados, inclusive, durante a ditadura – organizados pela Record. Elis, também mirradinha, timidazinha, toda mimimi, acompanhou o desenvolvimento da TV brasileira. Ambas cresceram e se tornaram monstruosamente geniosas e sensuais. Às vezes me pego pensando, incapaz de imaginar, onde foi que se perdeu, em que curva entrou errado, ou que atalho indevido pegou esse veículo de gênese tão extraordinária mas que não parece ter um fim muito feliz.

Aquela moça bonita, que nem de leite especial precisou na infância, para deixar de ser um bebê mirrado – a energia veio dela própria – agora tem demasiados buracos em seus ossos e não contém nem ar. Talvez isso se deva à veiculação excessiva de propagandas da coca-cola e, por consequência, seu consumo também em excesso.

Ainda prefiro, em minha nada-sã consciência, passar mal, ter dor de barriga e indisposição, por café demais. E olhe lá.

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Estudante de Jornalismo, São João da Boa Vista, SP

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