Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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TV EM QUESTãO > BANALIZAÇÃO DA TV

Somos os agentes da mudança

Por Paulo Celso Maistro Spolidório em 01/02/2005 na edição 314

A televisão sempre foi considerada o veículo mais rápido da informação. Documentou com muita eficiência acontecimentos de grande impacto no século 20, quando ganhou total potência. Seu alcance foi tão intenso, o apelo visual foi tão incisivo que ela logo ultrapassou o rádio, principal eixo da mídia até então, na retratação da natureza, das relações humanas, das guerras, da confraternização olímpica, da veiculação da cultura e do entretenimento, entre outros. Nos dias atuais, no estágio embrionário do século 21, a televisão atingiu um desenvolvimento extraordinário e faz parte da vida e do cotidiano de milhões de pessoas em todo o mundo. O conteúdo televisivo, porém, vêm sofrendo drástica mudança, e um instrumento tão importante na aproximação de fatos e pessoas ganha um tom de banalidade e sensacionalismo, explorando de forma selvagem a figura humana.

Quando surgiu, no início da década de 40, a televisão era tida como um luxo. Poucos possuíam aquele tão sonhado aparelho que soltava imagens ordenadas em preto e branco. Não era mais necessário imaginar. A imagem da história desnudava-se aos olhos surpresos. A febre televisiva iniciara-se para nunca mais perder seu posto. Seu desenvolvimento deu um vultoso salto e anos mais tarde tornava-se popular, de acesso cada vez maior. Com a mesma eficiência mostrava as últimas notícias dos fronts de batalhas e o lançamento de um novo aspirador de pó. O marketing, a economia e, sem exagero, a forma de o ser humano enxergar o mundo foram profundamente alterados por esse processo.

Hoje, a televisão está em pleno vapor. Nunca tivemos tantos canais e tanta diversidade de programas à disposição. No entanto, o caráter informativo, documental, o entretenimento sadio está dando lugar a um tipo de mídia sensacionalista, pautada única e exclusivamente na luta pelo ibope. Explora-se a fraqueza humana, o deboche, a sexualidade exacerbada, a violência explícita e o sofrimento humano como formas de cativar maior audiência. O Brasil é um exemplo claro. Pipocam aos montes programas baseados na degradação de outros indivíduos, por meio da comédia hipócrita e desmedida, da infiltração na intimidade de casamentos e relacionamentos, na informação inútil e apelativa, na desestruturação familiar.

De que vale saber sobre a fidelidade de alguém em rede nacional ou se este ou aquele artista está disposto a atestar a favor de sua humildade? O que importa saber é se o brasileiro passa fome, se o país supera seus problemas, se a violência está crescendo. Longe de uma posição anacrônica e viciosa, na qual só assuntos com este teor são importantes. A televisão surgiu também como forma de entretenimento, com a comédia, os filmes, a retratação da cultura. Não precisamos assistir apenas às flutuações da economia mundial e às últimas notícias do Congresso Nacional, temos direito a buscar também um entretenimento saudável, longe do sensacionalismo que beira a repugnância.

Mas, como explicar que tais programas explorativos arrebanham mais e mais espectadores? Reflito sobre a questão e algo me preocupa. A explosão do sensacionalismo barato e da exploração humana na mídia refletem tristemente o que se passa no próprio âmbito individual. Aquilo que atrai e distrai mediocremente as pessoas releva o que se passa com o próprio indivíduo. O sistema ao qual nos inserimos produziu seres frios e vazios. Vivemos a era da banalização não só da televisão, mas da própria humanidade, num processo vertiginoso. A humanidade tornou-se gradativamente mais materialista, individualista e confusa em relação a valores básicos, como a família.

Nesse universo distorcido, programas que retratam a vacuidade humana e a exposição individual a situações degradantes tornam-se algo comum – um entretenimento barato. É o espectador assistindo à própria matéria esfacelar-se em pontos coloridos e luminosos. É algo em que se deve pensar.

Cumpre, pois, não agir apenas como espectador, que assiste passivo a mais um capítulo da exploração da figura do homem, mas reivindicar qualidade do que invade inexoravelmente nossos lares. Cumpre, como cidadãos, lutar pela melhoria das situações de vida que nos são expostas. Temos, sim, o poder de controlar isso, baseados na união e no espírito coletivo de mudança, na conscientização do problema. Somos os agentes da mudança e, como tal, é necessário lutar pelo verdadeiro e nobre papel da televisão, fundamentado na informação, na documentação e no entretenimento, distante da banalização.

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Estudante, Piracicaba, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/02/2008 Luiz Osório Waldow

    Os artigos de Venício A. de Lima, não estou conseguindo reenviá-los para amigos e conhecidos.

    Avisar ao WEBMASTER, o artigo é acessado em seu contéudo, mas no momento em que se utiliza o recurso ENVIAR ARA UM AMIGO, a resposta recebida é de um amensagem de erro, ESTA PÁGINA NÂO ESTÁ DISPONÍVEL.

    Solicito uma correção deste problema.

    Luiz Waldow.
    Porto Alegre RS

  2. Comentou em 05/02/2005 Mariana Czekalski

    A ditadura da televisão

    Sabemos que a televisão é o meio de comunicação mais abrangente e popular no Brasil. Mas não é por acaso que 97%da população com mais de 10 anos no país, assiste à tevê pelo menos uma vez por semana, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos – Marplan.
    A baixa escolaridade e a conseqüente falta do hábito de leitura, além dos preços das publicações impressas, são alguns fatores que explicam a força da televisão tanto no Brasil como na América Latina.
    Mas, é incrível que mesmo com o elevado nível de sensacionalismo, apelação e de violência na telinha, o Ibope se mantém alto na maioria dos programas. Eles subestimam a capacidade intelectual e a paciência do telespectador, ignoram a dignidade humana quando disponibilizam no ar produtos repetitivos e vazios em conteúdo.
    Exemplos como do Faustão (Rede Globo), há 15 anos no ar, do Gugu Liberato (SBT), que chegou a divulgar falsas entrevistas com supostos criminosos, Márcia Goldschmidt (Bandeirantes), simulando brigas e discussões familiares e do Ratinho (SBT), o “rei da baixaria”, são campeões em nivelar a programação a patamares tão baixos, como há tempo não se via.
    O assunto foi abordado pela Revista Carta Capital, de 3 novembro de 2004, que divulgou uma matéria interessante sobre a problemática. Freqüentemente, as emissoras em nome da liberdade de expressão, relativamente recente no país, caracterizam a era da mídia às avessas, o extremo oposto, a ditadura da televisão. A maioria extrapola os limites e justifica seus próprios erros por se considerarem porta-vozes da democracia. Estamos cansados desta lavagem cerebral eletrônica de besteirol
    A onipotente televisão aberta precisa ser reciclada para respeitar o telespectador, que antes de ser um consumidor de produtos e ideologias, é um cidadão.
    Parece que o velho dilema alegado pelas televisões que a audiência sinaliza o que o povo quer assistir está ultrapassado. Será que este mecanismo é realmente transparente? Será que não ocorre justamente o contrário, ou seja, são poucas opções nos canais abertos que oferecem uma programação de qualidade?
    Não estamos levantando a bandeira do moralismo ou censura, mas ética e bom senso. Certamente a Ancinav é um retrocesso, mas chegamos a um ponto em que é preciso um órgão que fiscalize o que é veiculado e que selecione o horário dos mesmos. Isso para que as massas tenham acesso a programas como os da TV pública Cultura, Globo News e Canal Futura voltadas para a prestação de serviço, educação e entretenimento.

    MARIANA CZEKALSKI – Jornalista, escritora e professora.

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