Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

TV EM QUESTãO > REDE GLOBO

‘Superar’ restringe-se a verbo reflexivo

Por Lilian Reichert Coelho em 06/07/2010 na edição 597

Brasileiro que é brasileiro ‘não desiste nunca’, assim como a Rede Globo de Televisão, que insiste em tentar lobotomizar seus espectadores com asneiras ditas e mostradas no intuito de conduzi-los a lágrimas fáceis, independentemente do gênero, telejornal, telenovela ou qualquer outro. No último mês de junho, a emissora lançou um ‘novo’ programa, intitulado Brasileiros. De novidade, sejamos sinceros, não há nada, embora seja ‘criação’ de um jornalista competente, Edney Silvestre que, ao contrário de muitos, é capaz de estabelecer diferenças entre os tempos verbais do pretérito, algo incomum, sobretudo, no telejornalismo da televisão aberta brasileira.


A suposta novidade reside em apresentar ‘semanalmente ao telespectador um cidadão que, por meio de suas atitudes, mudou o dia a dia de um grupo de pessoas’, conforme o próprio sítio da emissora. Na verdade, trata-se da exploração gratuita do drama humano, já sedimentada nos telejornais e em programas temáticos como o Globo Repórter. No caso do ‘novo’ programa, o melodrama é ainda mais nítido, pois qualquer conteúdo informativo é eliminado, concentrando-se na humanização, com intuito moralizante e ideológico de responsabilizar um indivíduo, pessoa física, pelo destino de outros. Para tanto, ‘a edição do programa privilegia os depoimentos dos entrevistados, em comparação às gravações em off‘, explica a emissora, no sítio.


A edição do dia 1º de julho constituiu exemplo lastimável: a experiente repórter Neide Duarte – em texto construído com evidente intenção poética, cujo resultado foi quase tão rasteiro quanto os trocadilhos infames dos programas esportivos da mesma emissora – apresenta como Raquel Barros, uma psicóloga que já viveu na Itália, consegue manter um projeto, sediado em uma chácara adquirida com investimento de uma ONG italiana, destinado a amparar jovens mulheres em situação de risco, bem como seus filhos. O trabalho de Raquel é, sem dúvida, notável, digno de visibilidade e respeito. Questionável é o modo como um certo tipo de jornalismo explora o drama de mulheres, crianças, enfim, de brasileiros, sem qualquer compromisso social ou jornalístico, muito menos ético.


Visão de mundo conformista


É louvável que profissionais queiram experimentar, desbravar searas distintas das fórmulas, gêneros ou formatos jornalísticos já tornados tradicionais. E cansativos. E sem pontuação frente à concorrência. Em que pese a intenção, nós, os outros brasileiros – que ainda não desligamos o aparelho de TV para sair em socorro dos brasileiros desvalidos –, somos incapazes de compreender do que trata o programa para além da exploração simplória e vil das dores, das vidas de pessoas que sequer são construídas como personagens pelo programa. Os depoimentos são apresentados por meio do uso dos clichês típicos da televisão aberta brasileira, a exemplo do zoom in nas lágrimas das pessoas; se adolescentes ou crianças, tanto melhor, mas podem ser idosos também, personagens fáceis quando se trata de causar comoção. Importante é elas permitirem a exposição de suas histórias de vida, de suas emoções, de suas casas, para fazer o espectador se emocionar e se envergonhar por não agir como Raquel.


A bem da verdade, a ideia do programa parece mera adaptação para o audiovisual – para não dizer outra coisa – de uma revista impressa homônima, que apresenta perfis e reportagens sobre… brasileiros, a maioria anônimos, de maneira muito mais honesta e bem executada. Valendo-se dos evidentes atrativos da linguagem audiovisual, o programa apenas reitera clichês mais do que cristalizados socialmente, contribuindo, como lhe convém, para a alienação do espectador, cuja gratificação é tomar conhecimento da ação de alguém que, individual e heroicamente, muda a realidade de outras pessoas. Sabiamente, a emissora já vem desenvolvendo tal prática em diferentes programas, sempre apelando para algo que pode ser sintetizado na palavra ‘superação’. Lembro-me de ter visto quadros no Domingão do Faustão, no Caldeirão do Huck, em telejornais e também nas telenovelas, a exemplo de Viver a Vida, exaltando a ‘superação’ das dificuldades por esforço pessoal e força de vontade de indivíduos em ação isolada, como se fosse uma questão de consciência cristã ou esforço pessoal. A estratégia global enoja porque esconde uma perversidade: atira-se a responsabilidade pelos fracassos individuais e da sociedade como um todo exclusivamente nas pessoas comuns, nos cidadãos que, por meio dos exemplos apresentados, são instados a fazer o mesmo, sem problematizar as atitudes – ou a ausência delas – das instâncias responsáveis.


Na visão de mundo sempre conformista propagada pela Rede Globo, se ninguém ajudar, como faz Raquel, basta a superação individual, a crença em si mesmo, ‘correr atrás’, como se diz no popular. Numa sociedade alicerçada no valor do sucesso, que pode ser traduzido como acumulação de dinheiro e bens, alcançá-lo depende unicamente de atitude própria. Com isso, esconde-se a necessidade de questionar o papel do Estado, das elites, bem como da luta por políticas públicas que garantam a sobrevivência e o bem-estar das pessoas para além dos aspectos psicológicos que tonificam a ação pessoal e, consequentemente, a ‘superação’.


Compaixão acionada sem criatividade


Disso se depreende que a lógica do programa Brasileiros funciona como reforço do status quo, agindo de modo alienante, ao mostrar que algumas poucas pessoas de iniciativa ajudam outras a superarem seus problemas. Basta querer! Quanto ao espectador, deve sentir-se aliviado, consolado, pelo fato de alguém estar fazendo alguma coisa; mas, também deve sentir-se envergonhado por não fazer nada. Com isso, a emissora cultiva o assistencialismo, a doação individual de cidadãos comuns que, ao ser sublinhada pela emissora nesse tipo de programa, funciona como endosso da Responsabilidade Social, que permite descontos em impostos e cujos resultados são mostrados no intervalo, seja pelos benefícios do Criança Esperança ou do Amigos da Escola. Com isso, percebe-se que o programa Brasileiros, na linha de outras iniciativas globais, atua de modo autorreferencial e, ao invés de exercer função social de modo efetivo e transformador, empurra a transformação da sociedade para as pessoas físicas. Em suma: ao falar dos outros, a Rede Globo fala é de si própria!


Pelo reforço da dicotomia indivíduo-sociedade – tão combatida na contemporaneidade pelas cabeças pensantes – e também da oposição entre sociedade civil e Estado, a emissora reitera, ao que parece, a lógica neoliberal, mesmo que a intenção de alguns de seus profissionais seja boa. Nessa lógica, o indivíduo é o único responsável por si, mas alguns, incapazes, tendo sofrido agressões de outros indivíduos – também compreendidos como seres sem contexto –, precisam da ajuda alheia para sobreviver, incapazes que são. E assim o são porque não têm condições básicas de vida, tanto do ponto de vista material quanto emocional ou de outra ordem. Mas isso, evidentemente, o programa ou a emissora deve camuflar. Ainda mais porque, como reproduz o ‘novo’ programa da Rede Globo, é muito melhor quando outro indivíduo assume para si, deliberadamente, qual herói solitário, o papel de salvador de um grupo de desconhecidos. Muito simples resolver os problemas do Brasil: basta que as pessoas comuns se imbuam de espírito altruísta, afastando de si a mesquinhez de perseguir benefícios para si próprias. Esta é a mensagem nefasta de um pretenso jornalismo humanizado.


Na verdade, a ‘superação’ deveria ser desse tipo de jornalismo, orientado para choramingas de quem está do outro lado da tela, incitado a agir isoladamente na sociedade brasileira. De acordo com programas dessa estirpe, se a sociedade está ruim, violenta, perigosa, isso se deve à falta de iniciativa pessoal dos brasileiros, que deveriam mirar-se nos casos exemplares coletados pela Rede Globo. E, quando se trata daquilo que se convencionou denominar abstratamente de ‘social’, o teor jornalístico se perde na bruma das lágrimas vertidas pela compaixão acionada sem criatividade, que aposta todas as fichas no espectador que a própria emissora criou para si e que dispensa adjetivos.

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Jornalista, doutora em Letras, Salvador, BA

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